O que acontece com as amizades quando mudamos de país?

O que acontece com as amizades quando mudamos de país?

Estou escrevendo esse texto em um trem de Colônia para Amsterdam. Estou indo encontrar minha amiga Tati, vamos assistir ao show de 50 anos de carreira do Gil e do Caetano. Grande evento para nós, que adoramos os dois, mas também porque como eu moro na Alemanha e a Tati na Suécia, faz 4 anos que nos vimos pela última vez. 

Quase não consigo conter minha animação em revê-la.  Será que a Tati virou uma mãe babona depois que teve bebê? Será que o casamento dela continua sendo aquela coisa de contos de fada? (ela vai me matar quando ler isso). Como será que usa o cabelo agora? Será que ela ainda coloca sal no pão? Não sei. Mas uma coisa eu sei: assim que a gente se encontrar, vou me dar conta de que apesar de tudo ter mudado, nada mudou. 

Existem pessoas que tem tanto a ver com a gente na essência, que não importa quanto tempo você ficou separado, quando você reencontra parece que a última vez que se viram foi ontem.  Para quem é expatriado, é uma delícia encontrar esses amigos. Eles sabem da onde você veio, como é sua família, as besteiras que já fez, do que é capaz. É só entrar e ficar à vontade: pode ser você mesmo, que o amigo em questão entende tudo. 

Quando penso em quanto gente bacana deixei para trás quando saí do Brasil, sinto um aperto no coração. Até hoje não sei direito o que eu faço com esse sentimento esquisito. Quer dizer então que é assim? Mudei de país e abri mão de todo mundo? Que dureza!

Sei que morando fora ou não, para todo mundo a vida toma seu curso. Com filhos, trabalho e o corre corre do dia a dia, nem que eu ainda estivesse morando na mesma cidade dos meus amigos, eu iria vê-los com a mesma frequência de outras épocas. Quando a gente vira expatriado, contudo, é brutal. Seu filho nasce e quando sua melhor amiga vai conhecê-lo, ele já anda. Você acaba o mestrado e muda de emprego, e o amigo nem sabia que você estava fazendo um mestrado. Você briga com o marido, e nem sabe por onde começar a contar se fosse ligar para uma amiga das antigas. Ou seja, por mais duro que seja, a verdade é que quando mudamos de país, as amizades não necessariamente acabam, mas os amigos saem da nossa vida. 

E existem, claro, as amizades que “acabam”. Pessoas que quando você esteve no Brasil não fez tanta questão de ver, ou que encontrou e sentiu sei lá… um desconforto, uma estranheza, como se vocês realmente estivessem vindo de mundos completamente diferentes. Ou então amigos, que principalmente no começo da sua jornada no exterior, você esperava que fossem manter mais contato e que meio sumiram depois que você mudou. 

Muita gente fica ressentida com essas amizades que acabaram:  “Amizade verdadeira não acaba” ou “agora só mantenho contato com quem era de verdade importante para mim” - são coisas que já escutei de muitos expatriados. Posso entender esses comentários, mas não os aceito completamente. Me recuso a acreditar que só as amizades verdadeiras duram, e assim depreciar as que “acabaram”. Existe tanta gente boa que passou pela minha vida, com quem compartilhei momentos e fases significativas da minha biografia, e que agora não tem mais muito a ver. Não por culpa deles, ou minha, mas porque como eu disse antes, a vida tomou seu curso. A fila andou. 

Quando penso nessas amizades que se enfraqueceram, lembro de uma frase atribuída ao Dalai Lama, que adoro: “Os amigos antigos vão-se, novos amigos aparecem. É como os dias. Um dia velho vai-se, um novo dia chega. O que é importante é que adquira significado: um amigo com significado - ou um dia com significado.”  

Em relação a saudade das amizades que permanecem, ainda estou à procura de uma luz espiritual que me ajude a aceitar a falta que meus amigos me fazem - não vamos nem falar de família! Mas enquanto não encontro, me alegro de pensar de que pelo menos existem amigos como a Tati na história da minha vida. 

Essas amizades que sobrevivem ao tempo e a milhares de quilômetros de distância merecem todo nosso cuidado - para elas sempre há de haver um reencontro. E ele será feliz, pode ter certeza. 

 

Camila Furtado mora há 10 anos na Alemanha. Ela não acha que Facebook, Whatsapp, Instagram e tudo mais são apenas instrumentos do mal. Graças a essas invenções, ela mantém contato e fica sabendo um pouquinho do que está acontecendo com um monte de gente de boa que já passou pela sua vida.

* Você sabia que temos um podcast para mães expatriadas? Não??? Clica aqui já para escutar ou baixa no itunes gratuitamente.

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