7 perguntas para Valquíria Pamplona: ela montou o escritório dos sonhos das mães

7 perguntas para Valquíria Pamplona: ela montou o escritório dos sonhos das mães

Imagine o escritório dos sonhos para uma mãe: um ambiente para você focar no que precisa fazer, dividindo o espaço com outras profissionais, e no andar debaixo a certeza de que seu filho está bem cuidado e acessível para você ir lá amamentar ou dar a papinha. A publicitária Valquíria Pamplona idealizou um espaço assim. O Mamaworking é o primeiro coworking (modelo de trabalho baseado num escritório compartilhado) para mães de Curitiba e o segundo que se tem notícia no Brasil (o primeiro é em São Paulo, capital). 

Aos 39 anos, Valquíria é mãe de Marina (8 anos), Francisco (5 anos) e João (4 anos). Ela passou por todos os estágios do duelo mãe/profissional: já trabalhou de maneira insana em agência de publicidade, decidiu diminuir o ritmo prestando consultorias e fez home office até entrar de cabeça na pesquisa para montar o Mamaworking em parceria com o marido, o também publicitário Marcos Pamplona. 

“O Mamaworking é fruto de um entendimento que eu tive da maternidade. Eu comecei a considerar ser um absurdo deixar um bebê de quatro meses de idade longe da mãe, vi que as empresas são bem cruéis e que as mães enfrentam muitas dificuldades”, diz a publicitária.

Apaixonada por ser mãe (ela queria 5 filhos!) e por trabalho, Valquíria reconhece ser super difícil para qualquer mulher achar um equilíbrio nesta história. Aqui, ela conversou comigo sobre isso e sobre o espaço que está prestes a ser inaugurado.

1)Eu li numa matéria de jornal que você acha desvantajoso o home office? Por que motivos? 

Pelo menos para mim, com os meus três filhos, eu não consegui trabalhar em casa. Eu dou um tipo de criação para os meus filhos que eu priorizo o brincar. Claro que eles têm limites e horários, mas quando eles estão em casa eu dou muito valor às brincadeiras. Então se eles começavam a pular no sofá, fingir que eram piratas, gritando e correndo, eu não conseguia parar aquilo. E se eu precisava fazer eles pararem, a gente começava a entrar numa briga, que também não era o meu propósito. Pra mim, é você tentar fazer duas coisas ao mesmo tempo que são super complexas, trabalho e maternidade. O meu filho mais novo não entende eu não dar atenção e ficar trabalhando ao lado dele na frente de um computador. 

2)Como funciona o Mamaworking na prática? 

É uma casa alugada bem grande com um jardim, no andar de cima ficam as mães trabalhando e no andar debaixo as crianças, entre 6 meses e 5 anos, com uma equipe especializada tomando conta. É uma recreação, não é uma escola, mas com atividades separadas por idades. Ao chegar na casa, a mãe se despede do filho no hall de entrada e vai trabalhar, com a diferença de que ela não pega o carro, apenas sobe uma escada. O custo da hora para cada mãe com um filho é de 25 reais, mas que pode ser menos dependendo do pacote de horas por semana. O nosso diferencial em relação a uma creche é o livre acesso. Se a mãe quiser descer para amamentar o filho, ela pode. As mães que nos procuraram, 70% querem muito um lugar para trabalhar estando perto do filho.  

3)Ao pensar no coworking para as mães, você se baseou em algum exemplo pelo mundo?

Eu me inspirei muito na Casa do Brincar, que existe em São Paulo, eles começaram com um espaço só para crianças que é fantástico e depois incluíram o coworking (lá existe uma sala com internet para os pais ou eles podem optar pelo espaço de um coworking que funciona num prédio vizinho). E um outro lugar que eu consultei foi o Third-door, um coworking para mães que existe em Londres. Ainda assim eu achei o exemplo inglês muito urbano e eu quis fazer um lugar mais lúdico, com mais espaço de brincadeira para as crianças. Estudei muito para estabelecer um formato que eu acho que vai funcionar. 

4)Que tipo de profissionais fazem parte do seu coworking? Que perfil a pessoa precisa ter para participar de um grupo assim? Vocês pensam em aceitar papais também? 

Temos uma lista de 40 mulheres inscritas. São designers, freelancers, profissionais de marketing, fotógrafas, microempreendedoras. E profissionais que eu nem imaginava, como por exemplo, a dona de uma loja, uma psicóloga e uma vendedora de cosméticos, que precisavam de um tempo para trabalhar em frente a um computador. Eu acho que para pessoas que estão acostumadas a trabalhar o dia inteiro longe dos filhos e isso funciona para elas, não daria certo trabalhar num mamaworking. Estamos sim abertos à pais e até avós! 

5)Como você montou as regras? Criança pode ficar onde a mamãe está trabalhando? Como fazer para não dar confusão?

Nós construímos uma cartilha de normas. Por exemplo, as mães podem trazer alimento para os filhos, desde que sejam coisas saudáveis já que é um ambiente coletivo. Temos horários de intervalos pré-estabelecidos para as mães ficarem com os filhos. Caso elas queiram descer fora destes horários, elas podem ficar com os filhos na área de convivência. Uma regra clara é que no andar de cima, onde as mães trabalham, nenhuma criança pode ficar. Na área de trabalho o silêncio é essencial. Pra conversar, temos ambientes aconchegantes embaixo.

6)Você acha que o mamaworking é o caminho para mães não se sentirem culpadas e nem profissionais se sentirem fora do mercado? 

Eu acho que é uma bela saída. Inclusive muito viável economicamente. Eu fiz um cálculo de que você tem um berçário e um local de trabalho que custam 70% menos do que pagar uma babá. Eu tenho visto muitas mulheres querendo se inserir no mercado de trabalho, que precisam colocar dinheiro em casa. Muitas vezes o custo para alguém cuidar dos filhos é tão alto, que elas se sentem sem alternativas. 

7)O que você diria para uma mãe que morre de vontade de voltar a trabalhar mas acha difícil conseguir?

Para mim, se uma mãe tiver condições financeiras de ficar num primeiro momento com o seu bebê para curtir aquilo, para descobrir a maternidade, eu aconselho ela a ficar e esquecer a pressão da sociedade para ela trabalhar. Porque esse é o conselho que eu queria muito ter recebido e não recebi. Agora se uma mãe precisa voltar a trabalhar e pensa em empreender algo, o maior problema nestes casos é que elas não pesquisam sobre a área a ser investida. Elas não abrem negócios, elas abrem negocinhos. E depois não conseguem se manter com aquilo. Elas precisam se atualizar, adquirir novos conhecimentos, novas competências. Um empreendedor não brota de casa. É preciso ler, entrar nas redes de emprendedorismo, buscar cursos de formaçāo, montar planos de negócio. Pra mim a principal falha no emprendedorismo feminino é fazer só o que gosta, só o que está dentro do quartinho do bebê e aí fica todo mundo fazendo a mesma coisa. Mas nós mulheres podemos ser incríveis, somos criativas, flexíveis, inteligentes e multitarefas.


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