Quando uma amizade resiste às diferenças na criação dos filhos

Quando uma amizade resiste às diferenças na criação dos filhos

Alessandra, Malu, Antonio Miguel e Rose (Arquivo pessoal)

Alessandra, Malu, Antonio Miguel e Rose (Arquivo pessoal)

Eu e uma amiga de infância engravidamos no mesmo mês. Ela planejou a gravidez como um sonho. Casou, esperou o momento mais oportuno e começou a tentar engravidar com a ansiedade típica de quem sonha em ser mãe. Eu estava noiva, respirava blogs sobre casamento 24 horas por dia, tinha quatro grandes viagens planejadas e vi meu mundo virar de cabeça pra baixo quando aquelas duas listras vermelhas apareceram no teste de farmácia, sem acreditar no mole que eu tinha dado. Dali por diante seguimos de perto a gravidez uma da outra e, embora amigas e grávidas, tomamos rumos muito diferentes.

Ela frequentou um grupo de gestantes durante a gestação e quis aprender tudo sobre parto normal. Eu entrei em grupos de mães no Facebook e ficava apavorada só de pensar na hora do parto. Ela entrou para a hidroginástica, eu larguei o pilates. Ela enjoou um pouco no início, eu enjoei diariamente a gravidez toda. Ela era só disposição, eu era só preguiça. 

Ela planejou o quartinho com detalhes, eu não conseguia decidir nem a cor da parede. Ela fez um chá de bebe lindo, digno de festa de um ano. Eu fiz três chás improvisados, decorados por mim mesma e que não ficaram nem metade do que planejei. 

Ela sempre soube o nome que queria, duplo e com uma homenagem ao avô. Eu troquei de nome mil vezes e escolhi um mega pequeno, que todos diziam ser um apelido. Ela quis ter o filho em casa em um parto mega natural, eu aceitei que minha bebê nasceria em uma cesárea que pelo menos consegui que não fosse marcada. Ela pariu quando caiu a madrugada, e eu quando nasceu o dia. Ela teve um menino, eu uma menina. 

O filho da minha amiga nasceu embaixo do chuveiro, aparado pelo pai, passou suas primeiras horas de vida abraçado à mãe em sua própria casa. Minha filha nasceu no centro cirúrgico, ficou trinta segundos no meu colo e depois de cinco ou seis fotos foi passar suas primeiras horas na incubadora, por questão de segurança. 

Minha amiga optou por fraldas de pano, eu não abri mão das descartáveis. Ela teve muita dificuldade para amamentar no início, eu tive menos. Eu parei de amamentar quando minha filha tinha oito meses por um problema de saúde, ela amamenta até hoje seu bebê de um ano e um mês. Ela cria seu filho em casa, minha filha está na creche desde os cinco meses. Eu controlo tudo o que a minha filha come, ela deixa seu pequeno experimentar o mundo. O filho dela foi o primeiro a andar, a minha a primeira a falar... 

Se eu for enumerar, haverá outras milhares de diferenças. Mas escrevi tudo isto porque vendo tanta gente coberta de razão por aí, discutindo quem é mais mãe por isso ou aquilo, com uma rivalidade digna de Flamengo e Vasco, sempre penso na minha amiga e nas nossas tão diferentes escolhas. Eu entendo o mais importante: ela respeita minhas vontades e me aconselha quando peço, eu respeito as opções dela e dou conselhos quando ela me pede. Ela é minha amiga, eu sou amiga dela. Somos diferentes, mas iguais em uma coisa: eu sou mãe e amo incondicionalmente minha filha Malu, ela é mãe e ama incondicionalmente seu filho Antônio Miguel. E se houver briga algum dia será pra decidir quem vai ter direito ao sábado pra fazer a festa no final de semana do aniversário das crianças.

Alessandra Cruz é carioca, casada e mãe da Malu. Ela é jornalista e professora de Comunicação da PUC-Rio. Agradecemos a Alessandra em dividir com a gente a história de amizade dela com a Rose.

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