Você é mais feliz do que imagina

Você é mais feliz do que imagina

Uma das coisas que eu mais queria era poder conseguir viver minha vida vendo tudo em perspectiva. Eu ia ser mais forte, mais corajosa, mais grata e sem dúvida mais feliz. Mas essa danada da perspectiva vive fugindo de mim, e toda hora eu sou inundada com a pequenice dos meus problemas.

Quer um exemplo? Eu estava em um voo com minha família dos Estados Unidos para a Alemanha. A aeromoça ofereceu uns brinquedinhos para as crianças, meu filho queria um brinquedo de criança mais velha. A aeromoça alemãzona não queria dar, meu marido que estava do lado dela não fez nada. Sabe como é que homem, né? Meio devagar às vezes. Eu estava na outra ponta, a aeromoça não me escutava e foi embora. Meu filho ficou sem brinquedo. O sangue me subiu à cabeça. Fiquei com raiva da falta de ação do meu marido porque eu sabia que o Gael estava esperando ansiosamente pelo momento brinquedinho com a aeromoça. Sério, não dá para ter mais atitude, não? E agora eu ia passar pelo menos uma meia hora administrando a crise do brinquedinho. Só que não foi bem assim. Começou uma turbulência do caramba, o serviço de bordo foi interrompido, as pessoas soltavam gritinhos cada vez que o avião dava umas saculejadas. Em questão de segundos, a minha raiva, a crise do brinquedinho, tudo passou. Eu só conseguia pensar que eu amava meu marido, meus filhos e todos nossos probleminhas, que nem eram probleminhas. Olha aí, um bom exemplo de como a perspectiva faz falta. Tivesse eu mais noção do que importa de verdade na vida, não me irritava por causa de um brinquedinho. 

Outro exemplo: Os pais da Dora e da Alicia do jardim de infância dos meus filhos são os pais mais pacientes, bacanas, dedicados e consequentes que eu já vi - tipo primeira linha mesmo. Eu passo looooonge. Eu sempre ficava me perguntando como é que eles, ela mega executiva de uma empresa de energia e ele sócio de um escritorio de advocacia top podem conciliar tanto trabalho com tanta paciência. Eu a vejo toda arrumadona deixando as crianças no Jardim de Infância e atendendo ligação do trabalho enquanto a filhinha de dois anos dá aquele ataquinho de birra básico que a gente conhece bem, e penso… agora ela vai perder a linha. Mas ela não perde. Ela sorri. Sempre. Descobri o segredo outro dia. O marido vem de uma família de dois irmãos que não podem ter filhos e uma irmã teve um filho que nasceu morto. E ela, que é ucraniana, cresceu perto de Chernobyl e até ficar grávida da primeira filha nunca soube ao certo se iria ser capaz de dar a luz a uma criança saudável. Então se você passa a vida inteira achando que não pode ter filhos, e se casa com uma pessoa que também acha que não pode ter filhos, e vocês estão apaixonados, e vocês querem muito formar uma família, e você engravida sem problemas, quando a sua filha se joga no chão você sorri, afinal, você sabe que aquele ataque de birra é na verdade um milagre. 

E agora para finalizar, a perspectiva de hoje: depois de eu ter trabalhado, pegado as crianças no jardim de infância, feito supermercado, feito jantar… eu estava meio dando aquele checadinha no Facebook (leia-se: enrolando) para pegar fôlego para arrumar a casa e colocar as crianças para dormir. Eu estava pegando fôlego porque claro…. eu sou uma pobre coitada mesmo. Olha a quantidade de coisa que eu já fiz hoje, eu não tenho babá, empregada, família por perto, eu tenho uns trinta mil emails para responder, eu durmo pouco,  pô minha vida é a maior dureza. E aí pimba, levei um tabefe da perspectiva. Vi esta foto postada na fan page do blog “Cientista que virou mãe”. Senti tanta pena daquelas crianças que eu até tive vontade de chorar, juro. As crianças parecem ter a mesma idade dos meus filhos e fiquei imaginando se naquela foto fossem eles (meus filhos). A Maria, a mais velha, segurando o Gael para dormir. Eles sujos e abandonados à uma realidade que eles nem sabem que existe. Senti uma dor tão grande. Achei o mundo tão injusto e pensei então que pelo menos eu devia fazer justiça pelas crianças que Deus meu deu. Então eu chamei eles para arrumar o quarto, disse para eles que nós íamos ser fadas e duendes, e que nosso poder ia transformar a casa em um lugar lindo. (O Gael fez uma pequena interrupção no papel de duende e se pintou de canetinha, foi um saco mas eu ri.) Meu cansaço tinha sumido, os probleminhas tinham ficado pequenininhos. Eu tinha aberto meus olhos e estava enxergando tudo muito bem. 

Ei, não me estranha. Eu não estou aqui te contando um monte de história triste para te botar para baixo pelo amor de Deus que eu não sou mulher de botar ninguém para baixo. Não é texto deprê, é o contrário. É feliz. Estou escrevendo esse texto no maior momento gratidão. Minha vida não é perfeita, mas mesmo com todas as suas imperfeições ela é boa, ela é digna da minha felicidade. E a sua provavelmente também. 

 Te desejo um final de semana cheio de perspectiva. :-)

Camila Furtado é mãe da Maria e do Gael e quer ensinar seus filhos desde pequeninhos a serem gratos pela vida que tem porque acredita que gratidão é a maior fonte de felicidade que existe. Para poder ensinar esta lição às crianças, ela está tentando antes aprender. 

Vá se divertir (em família)!

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Saiba o quanto é difícil um bebezinho lhe enxergar

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