Lavar privada é o de menos

Lavar privada é o de menos

Conheci um cubano em Miami. Ele me contou que fugiu de Cuba há 4 meses com a mulher e veio parar na Flórida. "Como?" Perguntei. "Só havia um lugar na balsa e minha mulher veio nela. Eu vim com a mão na balsa". Sim, veio segurando na balsa por 166 quilômetros em mar aberto.

Não estou aqui para discutir os motivos dos cubanos, que particularmente acho bem nobres, quando querem deixar Cuba. Ilustrei esta fuga para falar do assunto recorrente na nossa mídia: o êxodo dos brasileiros. Claro que não somos Cuba, só que é impossível ignorar a insatisfação.

Mas será que todos que querem e até os que já estão saindo, tem coragem de sair com a mão na balsa? E talvez permanecer nela por muito tempo? Lavar privada é o de menos. Emigrar nunca é fácil. Não é o caso de ir "ali" (leia-se, atravessar o Atlântico ou mudar de Continente) pra ver no que dá. Por isso aqui vão meus pontos de vista:

-A dificuldade com a língua é um barreira imensa. Atrapalha (e muito) a integração no lugar escolhido e no mercado de trabalho você já chega em desvantagem se não fala tão bem quanto um nativo.

-Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe obrigação do empregador pagar por férias, feriados ou licenças médicas. Esses benefícios são questões de acordo entre o empregador e o empregado. Então, muitas vezes, se você pára de trabalhar, pára de ganhar. E não queira ficar doente nos EUA sem um bom Plano de Saúde. Já vi pessoas bem endividadas porque precisaram pagar alguns milhares de dólares numa situação de emergência. (Alguém vai dizer que no Brasil também é assim, mas é bom saber que também pode ser igual ou até pior fora).

-A tristeza de não poder ir e vir, no caso de quem fica ilegal, é para os fortes. Conheço pessoas nesta situação e, muitas vezes, se sentir aprisionado sem ir visitar a família pode ser tão difícil quanto viver com medo da violência no Brasil. 

-O "jeitinho" para se dar bem pode ser bastante frustrante. Conheci uma família que tentou visto de estudante para a mulher nos Estados Unidos, forjando morar aqui para estudar. Da primeira vez, negaram. Na segunda tentativa, negaram e cancelaram o visto de turista.

-Se você sempre esteve acostumado com mordomia: esqueça de uma vez por todas que existe alguém para lhe servir. O "faça você mesmo" é uma premissa que não pode ser ignorada, porque senão a sua vida não vai engrenar, seja nos Estados Unidos, na Austrália, no Canadá ou em algum país da Europa. Pagar pelos serviços (seja de babá, jardineiro, cozinheira, faxineira…) custa caro e é quase uma afronta você viver cercado de serviçais. 

-Não é possível imigrar e esquecer das condições climáticas. Pode parecer uma bobagem, mas não é. Em locais com inverno rigoroso, leva-se tempo para se acostumar com temperaturas negativas, nevascas e com o dia que escurece às 5 da tarde, por exemplo. Tem gente que fica mesmo muito deprimida no inverno.

 -O preconceito pode ser bem cruel em alguns lugares. Sim, xenofobia existe. Mais ou menos escancarada, mas existe. E em algumas situações, você até pensa: “no meu país eu não seria tratado assim”.

Que fique bem claro que eu entendo as razões de querer ir embora. E eu não estou aqui, em hipótese nenhuma, defendendo a situação política e econômica do Brasil. Mas quer sair? Procure saber bem o que lhe aguarda. É que sinceramente eu não acho certo vender a ilusão de que a partir do momento que se pula fora, um mundo de oportunidades e realizações se vislumbra na sua frente. Tem gente que nunca tirou a mão da balsa.

Fabiana Santos é jornalista, casada, tem dois filhos e mora em Washington-DC há 4 anos. Ela é feliz lá e, ás vezes, triste. Porque não existe nenhum lugar no mundo onde seja possivel ser feliz o tempo todo.

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