7 perguntas para Ivone Friederich: a "coach" para resolver conflitos entre pessoas de culturas diferentes

7 perguntas para Ivone Friederich: a "coach" para resolver conflitos entre pessoas de culturas diferentes

Ela tem o dom (e a competência profissional) de intermediar conflitos entre pessoas de duas culturas. Uma situação que todos nós, principalmente morando fora do Brasil, já enfrentamos, em maior escala para uns, em menor para outros. Até chegar nesta tarefa, Ivone Friederich se formou em Pedagogia e Geografia pela USP, fez um Mestrado na área de Sociologia e era consultora em renomadas instituições internacionais para ajudar na adaptação de estrangeiros no Brasil. Foi então que conheceu seu atual marido (alemão), se mudou para a Alemanha e começou a trabalhar num projeto entre brasileiros e alemães sobre a sustentabilidade da Mata Atlântica. Nesse momento Ivone percebeu que independente da nacionalidade e da língua falada, as pessoas não conseguem cooperar pelo fato de que nunca aprenderam a se comunicar sem etiquetar e julgar umas às outras. Hoje, com tanta bagagem e experiência exatamente nesta questão do relacionamento entre culturas, ela é  orientadora numa organização não-governamental alemã, chamada BiKup, que capacita profissionais a mediarem conflitos interculturais. E também faz mediações, trabalhando por conta própria. Nesta entrevista, Ivone destrincha melhor o que ela faz na prática. Com certeza, se você é uma expatriada como eu, você já pensou ou sentiu na pele o que ela tem pra nos dizer. 

 

1.Quem participa e quais são as disciplinas que você ensina nesta organização não-governamental? 

Os interessados são pessoas de diferentes países, que trabalham nas áreas social, médica ou educacional e que se confrontam diariamente com conflitos interculturais. E pessoas que querem trabalhar como mediadores de conflitos,  uma profissão que vai além do trabalho de tradutor ou assistente social, usando sua língua de origem e sua experiência como expatriadas. Aqui na Alemanha, o governo paga este curso de especialização, com duração de um ano em tempo integral, dando oportunidade a muitos estrangeiros. Formados, eles trabalham para diversas instituições governamentais, mas também podem trabalhar em organizações privadas e escolas, por exemplo. Eu leciono disciplinas que basicamente ensinam: que a maior parte dos conflitos não tem a ver com o fato das pessoas terem opiniões diferentes; que as pessoas precisam enxergar os outros sem julgamentos; que saber escutar é algo imprescindível ao se relacionar com alguém e que é possível desenvolver seus talentos e capacidades, independente do contexto cultural. 

2.No seu trabalho de mediadora, quem lhe procura para fazer uma mediação?

Meus clientes são pessoas vivenciando algum tipo de conflito, seja na família ou no ambiente de trabalho, que percebem a importância de uma terceira pessoa neutra – a mediadora, para reestabelecer a comunicação entre as partes. A mediação é feita independente da nacionalidade, sexo ou idade. Justamente porque o cerne do meu trabalho é facilitar a comunicação entre as pessoas, independentemente do país de origem.

3.Em que tipo de conflitos você faz a mediação? Você poderia dar exemplos?

Eu já tive caso, por exemplo, de um francês casado com uma colombiana, que tiveram filhos alemães. A mulher pediu a mediação pois o pai viajou para a França com um dos filhos e ela ficou com medo de ele sumir com a criança. O fato do casal falar uma língua em comum, no caso o alemão, não significava que eles soubessem expressar seus sentimentos um com o outro. Pela falta de entendimento entre o que um queria e o outro queria, a família chegou numa situação difícil em que entrou até a polícia no meio. Teve um outro caso de duas mulheres que trabalhavam num hotel, uma brasileira e a outra alemã.  As duas tinham dificuldade de se entender. A brasileira se sentia discriminada. Neste caso o mediador não parte do pressuposto que existe culpado e vítima. O foco da mediação é auxiliar para que as duas pessoas envolvidas cooperem. Neste caso do hotel, as duas mulheres precisavam do emprego e por isso tive que mostrar às duas que era preciso aprenderem a se comunicar bem para que a cooperação existisse. 

4.Qual é o grande X da questão que você observa no trabalho de mediação?

A comunicação entre as pessoas. Ela pode representar uma janela de oportunidades ou um muro de lamentações. Quando alguém vai morar num outro país, frequentemente tende a pensar que falar a língua daquele país vai resolver seus problemas. Sem diminuir a importância da língua, diversos estudos comprovam, e vejo isso diariamente no meu trabalho, que a eficácia e sucesso numa comunicação depende 70% de fatores comportamentais e 30 % de habilidades lingüísticas. Uma brasileira que vai comprar pão numa padaria alemã pode estar buscando encontrar simpatia no padeiro (uma referência dela do Brasil), mas pode se deparar com um padeiro alemão cujo objetivo para agradar o cliente é ser eficiente e não simpático. Então não é justo sair da padaria falando mal do padeiro. Porque é importante saber distinguir aquilo que você vê, daquilo que você interpreta. Geralmente as pessoas acham que estão vendo algo, quando na realidade elas falam aquilo que é fruto da sua própria interpretação. Então, o primeiro passo para se comunicar bem é saber diferenciar o que você consegue captar e o que você pensa sobre aquilo.

5. Para conseguir viver bem num ambiente que não é aquele que você nasceu, é preciso então derrubar os estereótipos?

Os estereótipos foram criados inicialmente para a gente categorizar as coisas que não conhecemos. Os “óculos do estereótipo" ajudam a nossa mente e o nosso corpo a se orientarem num primeiro momento quando chegamos num lugar diferente. Só que o problema é que as pessoas ficam com estes óculos por toda a vida. É preciso em algum momento retirar estes óculos e começar a enxergar pela nossa perspectiva e pela dos outros. Eu morava em São Paulo, capital, e mal falava com os meus vizinhos. Aqui em Colônia, onde a vida é mais tranquila, eu tive vontade de me apresentar para as 6 famílias do meu prédio. Todos me aconselharam a não fazer isso. Mas insisti, fiz um bolo e fui tocar a campainha dos vizinhos. Num primeiro momento eles desconfiaram, mas acabei sendo super bem recebida. É natural do ser humano querer se conectar com o outro, só que muitas vezes a gente não sabe o melhor caminho para isto. Precisamos nos libertar dos julgamentos e não esquecer que até dentro da nossa própria família nós somos diferentes. Se eu tivesse ficado amarrada aos estereótipos, este contato não teria acontecido. Um erro comum é ficar repetindo “os americanos são assim…”, “os alemães são dessa maneira…”. Não existe “os americanos”, “os alemães”, o que existe são pessoas, são indivíduos. Eu casei com um alemão, mas eu encaro que eu casei com uma pessoa com a qual eu tenho afinidade e admiração. Se você tem em mente 10 estereótipos ligados a um homem “alemão”, eu posso lhe garantir que 9 deles não se encaixam no meu marido.

6.Muitas pessoas mudam de país mas não saem de um casulo. Como fazer para se relacionar?

Existem pessoas que não querem se relacionar por medo de não serem aceitas, de não saberem o suficiente. Estas pessoas projetam sua insatisfação no outro e automaticamente o ataca, quando alguém se comporta de forma diferente do que ela espera. Fica julgando a vizinha, a vendedora da loja e o país, dizendo que não tem oportunidade por ser estrangeira.  Na minha opinião, a solução é aprender a se relacionar melhor consigo mesma e então comunicar-se com o outro, sem julgamentos. A reação do outro depende de como nos comunicamos com ele. Comece por desejar se relacionar. Para isso é preciso existir uma abertura, uma disposição de viver em outro país. Outros fatores relevantes são: aceitação, querer sair da sua própria verdade e enxergar o diferente como algo também de valor. Existe gente que passa anos a fio reclamando da comida de um país, sempre comparando com os sabores que deixou pra trás no Brasil, e não vê a possibilidade de também vir a gostar de alimentos que não eram do seu costume. 

7. Quais suas dicas para gente ser mais feliz em terra estrangeira?

A sua aceitação numa outra cultura depende basicamente de você. Tenha em mente quais são os seus objetivos. Escreva num papel, mesmo que possa lhe parecer absurdo, quais os estereótipos que você tem sobre aquele povo. Assim você terá clareza do que está rondando a sua cabeça. Para quem já está um tempo fora do Brasil e não se sente feliz: avalie os motivos. Coloque 3 motivos num pedaço do papel para tentar explicar sua insatisfação. Seja bem sincera com você mesma pois provavelmente vai encontrar os motivos dentro de si, como por exemplo, frustração, medo, ansiedade. Algo importante e que muitos esquecem é pensar: o que eu posso levar de contribuição (como profissional e como ser humano) para o outro país. Porque geralmente as pessoas só pensam em se beneficiar de algo. Se você vai com a clareza de querer também contribuir, a aceitação dos outros será outra. Você acaba atraindo pessoas que vão enxergá-la como colaboradora e não como exploradora e assim um caminho de oportunidades (amigos e trabalho) podem aparecer. Uma outra dica infalível para aumentar seu bem estar é o que eu chamo de desafio dos 7 dias: ficar uma semana sem julgar as pessoas e situações. Faça isso verdadeiramente e veja o que acontece nos seus relacionamentos!

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