O amor das mulheres sem filhos

O amor das mulheres sem filhos

O nascimento do meu filho foi a maior alegria da minha vida mas marcou o início de uma longa fase de muitíssimas dificuldades. Não quero aborrecer ninguém recapitulando todos os desafios que enfrentei. Basta dizer que minha vida entrou em colapso. O que até então parecia ser um poderoso império, orgulhoso e soberano, se fragmentou em várias unidades sem nexo, no mínimo, hostis entre si. Tudo o que antes parecia fazer sentido – casamento, casa, profissão – desmoronou. Do meu ego auto-confiante nada sobrou e eu provavelmente teria enlouquecido, não fosse o apoio incondicional da minha família brasileira. Foram todos maravilhosos e sinto uma profunda gratidão por eles, mas hoje quero destacar principalmente o papel da minha irmã, uma médica e pesquisadora bem-sucedida, que fez uma bela carreira na vida, mas não pôde ter filhos.

Companheira inseparável desde minha infância, confidente e amiga do peito, tornou-se além disso a madrinha do meu bebê. Em nenhum momento após minha separação e perda do meu emprego (sim, aconteceu tudo de uma vez), ela deixou de me compreender, aceitar as minhas fraquezas e os meus fracassos e me encorajar a seguir adiante. E ainda se revelou a pessoa mais generosa do mundo…. Meu filho estava precisando de um casaco novo? Ela saía correndo para comprar. Eu precisava de tempo para me candidatar a novas vagas? Ela contratava uma babá. Eu deixava de amamentar, quando adoecia? Ela ia preparar a mamadeira. Sua dedicação, sua ternura e carinho me fizeram então compreender o que Elizabeth Gilbert, autora do best-seller Comer, Rezar, Amar, escreveu sobre a importância para o mundo das mulheres que são “apenas” tias:

„As mulheres sem filhos sempre foram essenciais na sociedade humana porque geralmente tomam a si a tarefa de cuidar daqueles que não são da sua responsabilidade biológica oficial, e nenhum outro grupo faz isso em proporção tão elevada. As mulheres sem filhos sempre administraram orfanatos, escolas e hospitais. São parteiras, freiras e distribuidoras de caridade. Curam os doentes, ensinam as artes e, muitas vezes, se tornam indispensáveis no campo de batalha da vida. […]

Acho que essas mulheres sem filhos – vamos chamá-las de Brigada das Tias – nunca receberam da história as devidas homenagens. […] Por não deixar descendentes, as tias sem filhos tendem a sumir da memória depois de uma simples geração, logo esquecidas, com vidas transitórias como borboletas. Mas, enquanto vivas, são fundamentais e podem ser até heroicas. Até na história recente da minha família, há casos de tias verdadeiramente magníficas que entraram em ação e salvaram a situação em emergências. Capazes, muitas vezes, de acumular instrução e recursos exatamente por não terem filhos, essas mulheres tinham renda e compaixão em excesso para pagar operações em casos de vida ou morte, para salvar a fazenda da família ou para abrigar uma criança cuja mãe ficou gravemente enferma. Tenho uma amiga que chama esse tipo de tia resgatadora de crianças de “mãe sobressalente”, e o mundo está cheio delas”.

Elizabeth faz uma longa lista de pessoas que foram criadas por tias sem filhos, depois que as mães naturais morreram ou os abandonaram, como Leon Tolstoi, Truman Capote e John Lennon. No fim, ela cita J.M. Barrie, o autor de Peter Pan: “Para ele, a imagem de Peter Pan, a sua essência, o seu maravilhoso espírito de felicidade pode ser encontrado no mundo inteiro, refletido de forma difusa “no rosto de muitas mulheres que não têm filhos”.

Eu não poderia descrever melhor do que Elizabeth Gilbert o papel da minha irmã naquele momento crítico. Só me resta aqui acrescentar o nome dela à “Brigada das Tias”: Mônica. É minha maneira de prestar uma homenagem pessoal a ela, de lhe agradecer, de não esquecer o que ela fez por nós! Se não fosse ela, eu não teria trilhado este longo e pedregoso caminho, não estaria agora com um emprego legal, que me faz viajar pelo mundo, com um namorado maravilhoso e um filho lindo adolescente, totalmente descolado e independente.

E ninguém melhor do que meu moleque para saber o que ela significa em nossas vidas. Há pouco tempo, quando ele escutou ela falando para uma amiga, com um pouquinho de tristeza na voz, que não tinha filhos, sabe o que ele me disse: “Como assim, ela não tem filhos? E por acaso eu sou o quê para ela?”

 

Adriana Nunes mora na Alemanha com o filho Jan. A segunda mãe de Jan mora na Bahia, e todas às vezes que mãe e filho postiço se encontram é uma alegria sem ter fim.

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