7 perguntas para Valquíria Meredith: a mãe que teve que lidar com os próprios preconceitos

7 perguntas para Valquíria Meredith: a mãe que teve que lidar com os próprios preconceitos

Nicholas, Steven, Valquíria e Tyler (Foto: Arquivo de Família).

Nicholas, Steven, Valquíria e Tyler (Foto: Arquivo de Família).

Valquíria é daquelas que se divide entre o trabalho e os filhos, ainda encontra tempo para visitar e ajudar crianças órfãs e aos domingos toma conta numa Igreja de uma turma (criada por ela) de crianças especiais. 

Quando se casou com o americano Steven, eles queriam ter 5 filhos e já no primeiro aniversário de casamento estava grávida. Empresária de sucesso no ramo da informática e das telecomunicações, morando desde 1993 nos Estados Unidos, ela tinha 36 anos quando o primogênito Steven Junior nasceu há 6 anos. Era uma chance em 232 dela ter um filho com Down. Os exames prévios não indicaram nada e ela só descobriu depois do nascimento. Depois veio Tyler, hoje com 4 anos, e por último nasceu Nicholas, com dois anos e meio, diagnosticado com Síndrome de Apert, uma síndrome raríssima que atinge um caso em 160 mil nascimentos.

Valquíria não gosta de ser considerada um modelo admirável de mãe por cuidar de dois filhos com necessidades especiais. Como ela mesma diz “eu não dou conta, sou cheia de erros como todos as mães”. Mas ainda assim eu fiquei com muita vontade de mostrar esta mãe que encara com muita coragem todos os desafios. Depois da entrevista, eu fiquei pensando: a gente reclama de tanta coisa sem importância, que vale a pena conhecer gente que dá valor as coisas realmente importantes da vida…

1 - Como foi o nascimento do seu primeiro filho?

Nesta época eu estava trabalhando em Vitória, no Espírito Santo. Junior nasceu grande, bonito, forte, num conceituado hospital público da cidade. No quarto, uma amiga pediatra disse haver uma desconfiança em relação à Síndrome de Down. Para mim era impossível, eu disse “imagina, é porque ele é filho de gringo, branquelo, está tudo certo com ele”. Depois de quatro dias, quando eu estava para ter alta com o meu filho, a geneticista do hospital chegou com um grupo de residentes para avaliar o Junior. Eu fiquei em pé enquanto ela analisava meu filho dizendo “ele tem isso, isso e isso…”. E eu não entendia nada, porque eu jamais tinha ouvido falar das características de um Down. Aí, ela virou e falou: “Eu tenho 100% de certeza de que seu filho tem Sindrome de Down”. Quando ela disse isso, o meu susto foi tão grande que a minha cirurgia de cesárea abriu toda, o sangue desceu, precisei ser costurada novamente. Ela não teve sensibilidade nenhuma, ela nem me sentou para conversar comigo. Me senti apenas uma cobaia frente aos residentes. Eu só chorava, meu marido nem estava perto nesta hora. Foi muito traumático, a geneticista me disse depois que achava que eu já sabia. Certa vez, quando meu filho tinha 1 ano e meio me chamaram para dar uma palestra para um grupo de enfermeiros e eu disse: jamais façam do jeito que fizeram comigo, tenham mais tato ao dar a notícia para uma mãe. No momento em que a criança nasce, todos se preocupam com ela. No meu caso, o Junior estava bem. São os pais que estão fragilizados, que precisam ser cuidados neste momento delicado. 

2 - O que passou pela sua cabeça depois da descoberta da Síndrome de Down do seu filho?

Não existiu em hipótese nenhuma falta de amor, nem muito menos rejeição. O que acontece com os pais, principalmente num primeiro filho, é que você espera que ele seja a sua versão melhorada, você projeta nele, mesmo que inconscientemente, que ele será mais do que você: mais bonito, mais inteligente, mais vitorioso. E quando você recebe um diagnóstico, o seu sonho morre. É preciso se reorganizar novamente porque você não vai realizar aquele sonho. Eu li que é normal os sentimentos de perda e de culpa que eu tive. E eu também tive muito medo dele não ser amado pela minha família, dele sofrer preconceito daqueles que eu amo.

3- E como foi o nascimento do seu terceiro filho e a descoberta da Sindrome de Apert?

Com um ano e meio depois do Junior, nasceu o Tyler sem nenhum problema de saúde. Na minha terceira gravidez, ao fazer exames de rotina foi detectado que as mãozinhas do bebê não abriam. Vários outros exames foram feitos, só que não conseguiram detectar nenhuma síndrome. Quando eu fui para o hospital aqui nos Estados Unidos, eu senti que haveria algum problema. Quando tiraram ele da minha barriga, o silêncio de todos foi estranho. Eu perguntei para o meu marido: o que há de errado com ele? Meu marido respondeu que não tinha a menor ideia. Nicholas nasceu com os dedinhos das mãos e dos pés colados, com uma deficiência na caixa craniana e sem o canal respiratório. Logo após o nascimento, ele passou por 6 cirurgias. Por um ano e meio ele precisou de aparelhos para conseguir respirar. Foram inúmeras noites que eu passei vigiando o sono dele para ele não parar de respirar. Foi muito duro ver meu filho sofrer tanto. Intelectualmente o Nicholas está muito bem. Ele parece que nem sente dor. Assim que acaba uma cirurgia, ele come e já dá um sorriso. Já foram mais de 10 cirurgias até hoje, todas elas por necessidades físicas, não estéticas.

4-Como você lida com o preconceito?

Certa vez, uma pessoa me perguntou no Facebook como eu tinha coragem de postar foto do meu filho, se referindo ao Nicholas. As pessoas não tem noção do quanto são capazes de machucar os outros, por simplesmente jamais se colocarem no lugar dos outros. Eu fiz questão de responder esta pessoa e explicar que eu tenho muito orgulho dos meus filhos do jeito que eles são. A gente precisa falar, não dá pra ficar em silêncio diante do preconceito, porque este preconceito vem da ignorância. Para combater a ignorância, as pessoas precisam receber informação.

5- Como você dá conta de trabalhar e cuidar dos seus filhos?

A minha resposta é simples: eu não dou conta. É isso que as pessoas não entendem. Eu falho em muitas coisas que eu gostaria de fazer diferente, mas eu tenho que aceitar, porque eu não dou conta de fazer tudo. O que existe na minha casa é ordem de prioridades. Comida é a coisa principal, limpeza vai lá para o final. Educação dos meninos também está entre as prioridades. O meu trabalho é muito importante, desde que eu consiga conciliar com a atenção que eu quero dar aos meus filhos. Trabalhar para mim é a minha sanidade mental. Eu preciso sair um pouco do meu mundo de resolver problemas, administrar as dificuldades dos meus filhos, para preencher minha cabeça com outras coisas. Meu marido sendo parceiro e tendo o mesmo objetivo que é o bem estar dos nossos filhos, também me ajuda muito. 

6 - O que seus filhos já lhe ensinaram até aqui?

Eu descobri muito sobre mim. Eu mesma tive que lidar com os meus preconceitos. Na minha casa, ninguém nunca se relacionou com alguém com necessidades especiais, nem eu fui ensinada a agir com naturalidade sobre isso. Eu acho que toda família, independentemente de ter casos nela ou não, tem que mostrar aos filhos que as diferenças existem e precisam ser respeitadas. Eu aprendi algo muito importante que todo pai e toda mãe deveria saber: você nunca deve se projetar no seu filho e sonhar o que ele vai ser. Meu sonho para os meus filhos passou a ser: eu quero que eles sejam felizes. Profissão? A que eles quiserem. Pois se meu filho for trabalhar como caixa de um supermercado, eu estarei super feliz por ele. Se eles conseguirem um emprego, se sustentarem, fazerem sua própria comida, eu já vou estar realizada. 

7- Que conselho você pode dar a alguma mãe que passa hoje pelo que você já passou?

Aprender a viver com dificuldade e conseguir ser feliz ao mesmo tempo foi um achado para mim, foi a descoberta da minha vida. Porque eu nunca vou me livrar dos problemas, eu vou ter sempre algo pra resolver. Mas ter problemas não significa que eu vou ser infeliz ou que meus filhos vão ser infelizes. Se os meus filhos tiverem saúde e alegria, problema a gente resolve ou ele deixa de ser tão grande. As coisas só melhoraram pra mim porque eu me agarrei na minha fé. A visão que eu tinha sobre o problema de uma síndrome era de um tamanho enorme, hoje ela é bem pequenininha. A síndrome é simplesmente uma característica. Eu tenho filhos com duas síndromes diferentes e outro que não tem síndrome, cada um é de um jeito e todos eles têm suas questões. Para mim, meus filhos são perfeitos, como todos nós somos diante de Deus. Se a gente começa a olhar em volta enxergando as pessoas como perfeitas mas tendo apenas diferenças, a vida fica muito mais simples. 

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