Quem você pensa que é pra me julgar como pai ou mãe?

Quem você pensa que é pra me julgar como pai ou mãe?

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Estávamos, eu e meu marido, na Alemanha com as crianças. Eu, inclusive, já escrevi aqui sobre o espetáculo que é,  para quem tem filhos, viajar para Berlim: uma super estrutura e muita coisa para se fazer com os pequenos. Mas aconteceu algo lá, que poderia ter acontecido em qualquer parte do mundo quando alguém se acha no direito de simplesmente interferir na sua vida.

A gente andava muito a pé pela cidade. E em viagens assim a gente tem que se virar para tornar o passeio agradável para os filhos e ao mesmo tempo administrar se eles não dormem o suficiente, arranjar um plano B caso eles fiquem com sono (no meu caso, o carrinho sempre foi imprescindível), pensar em algo para que a refeição deles esteja garantida, ou seja: uma verdadeira engenharia para fazer a viagem o mais “easy going” possível.

Mas Alice, então com 2 anos, não estava no seu melhor dia. Estava cansada, não queria colaborar. (E todo mundo que tem filho pequeno sabe o quanto dias assim são difíceis!). Ela não queria ficar no carrinho e também não queria caminhar. Fincou o pé numa esquina e não queria se mover. Conversamos, explicamos e nada. A gente precisava chegar até uma outra rua para almoçar e ela não queria colaborar. Nada. Nada a convencia a sair dali.

Meu marido resolveu pegá-la no colo e como ela não queria, esperneou e gritou enquanto ele a carregava. Eu estava vindo um pouco atrás e de repente aquilo aconteceu: uma senhora, lá pelos seus 60 anos, saiu de não sei onde, passou por mim num rompante, seguindo o meu marido, e quando ele parou, ainda com a Alice no colo, numa outra esquina, aguardando o sinal abrir, ela disparou (em inglês com sotaque alemão):

“-O que você está fazendo com a sua filha? Isto não está certo! Isto é um absurdo! Você não é um bom pai! Definitivamente você não é um bom pai!”

Até a Alice parou de reclamar quando ouviu os gritos da mulher com dedo em risque na cara do meu marido. Aquela cena nos deixou em estado de "surrealidade absoluta". Meu marido só conseguiu dizer: “É minha filha e você não tem nada a ver com isso. Cuide da sua vida.” E a mulher foi embora, ainda repetindo as mesmas frases. 

Ser acusado de algo absurdo, no meio da rua, durante um dia de passeio com a família, é de abalar qualquer um. Mais ainda: a sensação de invasão de privacidade foi horrível. Quem aquela mulher pensa que é para sair dando lição de moral e fazendo julgamentos do que ela nem sabe ou conhece? Alguém vai dizer: mas ela teve apenas uma boa intenção. E eu repito aquela máxima: de boas intenções o inferno está cheio. 

Quantos não saem por aí metendo o dedo (ou falando pelas costas) sobre histórias familiares que não lhe pertencem e julgando a forma como alguém cria os filhos? Lógico que ninguém aqui está dizendo que a gente não deve interferir no caso iminente de violência. Não é de situações de risco que se trata este texto. 

Se você já foi vítima de gente assim: respire fundo porque infelizmente talvez isto vá lhe acontecer novamente. Agora se você faz parte do time dos “juízes supremos” de plantão, uma dica: você não tem noção de quem é essa família que está na sua frente. Uma única cena não lhe conta a história inteira.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e é mãe de Alice, de 4 anos, e de Felipe, de 10 anos. E ela não tem a menor dúvida do pai maravilhoso que escolheu para os filhos. (Sim, ela teria dito isto a tal mulher se tivesse tido oportunidade.)  

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