Seu filho não precisa ser um robô programado para sempre se comportar bem

Seu filho não precisa ser um robô programado para sempre se comportar bem

Já há algum tempo eu tenho observado a relação de uma mãe com o seu filho de quase 4 anos durante as aulas de futebol que a minha filha Alice faz uma vez por semana. O grupo tem oito crianças, entre meninos e meninas. E chama a minha atenção ver o quanto a mãe em questão fica numa marcação cerrada para que o filho não faça nada de errado. Qualquer coisa que não sai de acordo com o previsto causa nela a maior aflição. Se todas as crianças correm para um lado atrás da bola e ele, que é um menino ainda em pleno desenvolvimento das suas capacidades motoras, corre para o outro, ela já demonstra irritação.

Teve uma vez que o menino, ao meu ver uma criança completamente normal, pegou a bola de outro menino. Algo que poderia ser tranquilamente resolvido pelo professor, mas a mãe entrou no campinho, chamou a atenção da criança e envergonhada tirou o menino da aula mais cedo. Me deu muita pena dele, mas também dela. Não sou melhor que ninguém mas se eu tivesse um pouco mais de intimidade, eu iria dizer: "Relaxa, está tudo bem. Você tem um filho, não um robô!" Criança faz birra, faz coisas que contrariam a gente, nos testa, mas também brinca ingenuamente e não está preocupada em acertar sempre (pelo menos, não deveria jamais ter este tipo de preocupação). 

Eu mesma já me peguei tentando colocar os meus filhos numa “fôrma de crianças certinhas”. Teve uma vez que o Felipe, com 10 anos, fez alguma coisa que eu desaprovei e tive a audácia de dizer: “Mas você está aparecendo criança”. E ele na mesma hora: “Mãe, mas eu sou uma criança”. Eu fiquei tão envergonhada com o absurdo que eu havia dito e na mesma hora fiz questão de explicar que eu estava realmente muito errada em dizer aquilo. 

Eu não estou falando aqui da gente liberar geral. Do tipo: “Que gracinha, ele é apenas uma criança” e deixar tudo acontecer impunimente sem correção ou explicação do certo ou errado. Criança precisa de disciplina, inclusive para sua segurança e para um bom desenvolvimento.  Mas eu estou falando da gente colocar a cabeça pra funcionar e conseguir separar o que é natural, saudável e necessário no comportamento de uma criança (lembre-se: justamente por ser criança ela está num período de testar o mundo à sua volta) e o que precisa ser realmente corrigido. É uma equação delicada, mas não pode ser ignorada. Afinal, dentro dessa nossa vida onde tudo precisa estar esquematizado, porque não temos tempo a perder, criança não é um programa de computador. (Aliás, até programa de computador vive dando "pau" por aí, né?)

Muitos podem dizer que se trata apenas de mais uma mãe perfeccionista, exigente... mas infelizmente eu acho que isso faz parte de uma espécie de “doença” dos nossos tempos: o medo do julgamento dos outros pais e mães. Aí ficamos todos na pilha para não escapulir nenhum chilique de filho, para não deixar ninguém abrir o berreiro, pra não parecer que “não estamos sabendo educar”. E todos nós, na posição de julgadores, precisamos viver com mais generosidade, ao invés de ficarmos revirando os olhos para aquilo que supomos saber mais.  

A gente já falou várias vezes aqui que não existe mãe perfeita… ok! Mas atenção para mais essa revelação óbvia tantas vezes esquecida: filho perfeito também não existe. Que tal a gente (porque eu também me incluo nessa) deixar a infância dos nossos filhos ser MAIS lembrada como a fase das divertidas descobertas do que das cobranças?

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e é mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 4 anos. Hoje ela recebeu uma mensagem pelo Instagram que achou tudo a ver com o que ela escreveu aqui: "Hapiness is the highest level of success" ( Felicidade é o mais alto nível do sucesso).

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