Uma lição pra vida a partir da morte

Uma lição pra vida a partir da morte

Eu sei. Não é o melhor assunto pra abrir o ano: a morte. Mas ela me pegou no susto, no finalzinho de 2015. Meu pai. Não foi o pai de outra pessoa. Foi o meu. A dor é dilacerante, visceral, avassaladora, eu me sinto do avesso, em carne viva. Uma ferida profunda? Não, minha amiga. É muito maior que isso. Quem chama só de "ferida" não entende o que esta perda representa. Aliás, nada mais clichê mas absolutamente verdadeiro do que dizer que só quem passou por isso é capaz de entender. 

Meu pai? Cheio de vida, planos, sonhos. Com passagem já marcada para vir me visitar, com detalhes acertados para as próximas férias. Aquele que vibrava com tudo o que eu fazia. Mas tem tanta gente para ir antes dele! Nem doente ele estava pra ter aquele papo de "foi melhor assim pois ele estava sofrendo numa cama de hospital".

Mas eu não estou aqui pra me vangloriar por saber exatamente o tamanho dessa dor. Porque vamos combinar, eu e você que já enfrentamos isso, sabemos que é uma grande merda. A maior de todas. 

Quem pari um filho não esquece jamais a sensação de plenitude, de poder, de realização. Eu achei a explicação para a minha existência no mundo quando meus filhos nasceram. Mas perder alguém? Perder é o oposto disso,  é dar de cara com a ausência. É cair do alto de um precipicio porque você não encontra o chão. É se sentir absurdamente impotente.

Sempre fiquei intrigada de como uma pessoa consegue continuar vivendo a partir da perda de alguém muito importante. E eis me aqui, exatamente nesta situação. Só que apesar de dilacerada, eu não me sinto inconformada. A minha força vem de uma fé incrível. Porque existe em mim uma certeza absoluta: de que meu pai não morreu, ele foi morar com Deus. E quando for da vontade de Deus, eu vou encontrá-lo numa vida eterna. Cada um tem uma fé (ou não). E pra mim a certeza de onde meu pai está agora ajuda a me acalmar. Eu não consigo imaginar qual conforto e explicação pode ter alguém sem nenhuma fé. Respeito, mas eu tenho a impressão de que a dor se multiplica. 

Outra coisa que tem me servido demais é o carinho das pessoas que me querem bem e a preocupação de quem eu nem imaginava. O poder do afeto, manifestado de diferentes maneiras, é impressionante. 

E ainda que a saudade pareça uma facada no peito que tem me deixado sem ar, eu estou tentando matematicamente me explicar. O tamanho do amor pelo meu pai é diretamente proporcional ao tamanho dessa minha dor. Se eu não o amasse tanto, se ele não tivesse me amado tanto, não haveria tanto sofrimento. Simples assim.

E aí eu me dou conta que existem motivos para o meu coração ser grato, ainda que ele esteja aos pedaços. E, absurdamente, o meu contato com a morte me traz uma coisa boa agora: a necessidade de valorizar a vida. Eu não posso me esquecer do que o meu pai repetia sempre pra mim e que nessa hora faz tanto sentido: a gente precisa amar mais e esquecer as besteirinhas que nos impedem de sermos felizes, gratos e alegres. A gente perde tempo com tanta coisa insignificante! Por isso eu quero conseguir ter uma vida com significado, sem nada pendente, com saldos positivos e razões para me orgulhar. É o que eu sinceramente desejo pra sua vida também. Feliz 2016 pra todos nós.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 4 anos. Eles moram em Washington-DC. O pai dela morava no Rio de Janeiro. A distância nunca foi empecilho já que cada encontro era aproveitado sempre da melhor maneira.   

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