A minha observação sobre o jeito opressor de uma escola americana

A minha observação sobre o jeito opressor de uma escola americana

Será que sou só eu que tenho me sentido de certa forma oprimida de ver o tanto que está puxado para o meu filho esta tal de Middle School aqui nos Estados Unidos? Eu lembro dos meus anos de estudante no Brasil. Lembro de ser difícil, mas não chegou a me criar algum trauma de ter sido impossível. Mas agora, acompanhando meu filho em pouco mais de um mês no sexto ano, chega a me dar uma certa pena dele. 

Pra começo de conversa: não existe mais recreio. Como assim? - foi o que perguntei para o meu filho. Como é que você faz para dar um respiro, trocar ideia com os amigos, fazer o que tanta gente acha importante hoje em dia: se socializar? E ele me respondeu que tem a hora do almoço. Meia hora de almoço. E tem uma espécie de bônus em alguns dias da semana: caso o professor considere que você é merecedor, você tem alguns minutos livres. 

O meu sentimento de “opressão” veio com a “Back School Night” - evento noturno em que os pais se fazem presentes para conhecer o conteúdo acadêmico de cada aula, os professores e ter idéia da rotina dos filhos. O que eu vivi foi uma maratona junto com outros pais tão atônitos quanto eu, correndo com um mapa nas mãos para localizar as salas de cada professor, que faziam apresentação de 15 minutos. Porque por aqui são os alunos que vão até a sala do professor de determinada disciplina para ter aula, não são os professores que se alternam nas salas dos alunos. 

E apesar de serem de diferentes disciplinas, um ponto unia todos os professores: as palavras de ordem eram as regras, as obrigações, os compromissos. Eu não quero dizer que uma escola não precisa de nada disso. Eu só acho que pelo tanto que já disseram os experts em educação mundo afora ultimamente, uma escola não pode ser só isso.

Outra situação que pra mim beira ao absurdo é a ida ao banheiro dos alunos. Meu filho, por exemplo, aproveita os intervalos entre uma aula e outra. Acontece que o tempo é curto. E ele já passou por situações da professora olhar de cara feia se ele se atrasou uns 3 minutos para entrar na sala. 

Meu filho veio com um comentário muito sutil, mas bastante simbólico. Lembrando que ele ainda tem apenas 11 anos. Ele me disse: “Na escola, agora, eles não estão muito preocupados com cada um. A vida de cada um não interessa para eles (os professores). Por exemplo, eles nem querem saber se eu tenho um cachorro”. 

Eu conversei com uma professora brasileira, que está morando aqui há dois anos e tem uma filha no primeiro ano do High School agora. Alessandra Almeida trabalhou por 12 anos como professora em Educação Infantil e Ensino Fundamental no Brasil. A observação que ela fez, veio muito a calhar com o que eu penso sobre os estudantes americanos: “As crianças aqui precisam aprender a fazer nada. Eu sou plenamente a favor de não se fazer nada em algum momento. As crianças se cobram por si só, porque elas acham que elas precisam mesmo ser melhores. O dia a dia delas é bem puxado. Elas são obrigadas a trabalhar com o prêmio, com a competição e isso é muito exaustivo”, diz Alessandra.

Para a professora, a culpa dessa cobrança começa nos pais. “Os pais já estão sempre pensando lá na frente: sobre o futuro no College, sobre as horas de trabalho voluntário que vão contar para entrar no College, sobre o que é preciso para conquistar lá na frente e esquecem do que os filhos estão vivendo hoje. É claro que a vida acadêmica é importante, mas é preciso ter calma com o caminho. É importante valorizar o que a criança está vivenciando hoje. É preciso pensar uma maneira de desacelerar, se importar mais com as conquistas do caminho, do que com o destino final.” - considera Alessandra. 

Alguém vai dizer que a vida é assim mesmo e que a escola (e é preciso dizer que a escola do meu filho está no ranking de ser uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos) tem que preparar o aluno para o mundo que aí está: competitivo, cheio de desafios, onde não há tempo a perder. Mas eu não concordo com isso. Fortalecer na escola a “guerra” que está viver em sociedade, é dar ainda mais razão para este jeito maluco de se viver. E eu gostaria muito que a prática do vamos ser “tolerantes, criativos e menos estressados” pudesse estar sendo abordada verdadeiramente nas escolas e não apenas em discursos ou palestras. Por isso tenho conversado muito com o meu filho sobre ter uma maneira respeitosa mas ao mesmo tempo crítica em relação ao que não concordamos. E eu adorei a dica na conversa que tive com a Alessandra e vou levá-la para dentro da minha casa: valorizar o caminho que os meus filhos estão percorrendo, curtir as emoções dessa estrada e não deixá-los serem contaminados com a angústia de como será lá na frente.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 5 anos. Eles moram em Washington-DC. Ela deixa bem claro que esta é uma observação bem pessoal a respeito da escola do filho, apesar de achar que, infelizmente, este é um comportamento disseminado em muitas escolas pelo mundo.

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