Filho, você precisa aprender a perder

Filho, você precisa aprender a perder

Ele tem 5 anos e é muito bom no futebol. Um dos melhores do time. Só não sabe perder. Quando ele perde,  perde a cabeça. Enquanto alguns meninos levam chutes, perdem gol, se esborracham no chão e continuam jogando, meu craque faz uma pausa para abrir o berreiro.

Não é de hoje que vejo a dificuldade do meu filho em lidar com frustrações. Claro que isso me desassossega, a habilidade de sacudir a poeira e dar a volta por cima é uma das coisas mais importantes da vida. Eu sei bem disso porque, devo admitir,  não sou das melhores no quesito ser contrariada. E tenho uma admiração profunda por gente que tem essa capacidade incrível de sem muito drama, enxugar as lágrimas e voltar pro ringue.

Dizem que a famosa resiliência - nossa capacidade de superar obstáculos -  é nata em algumas pessoas. Tem gente que parece que nasceu mesmo mais resistente ao estresse. Mas a resiliência também pode ser desenvolvida, e é isso que eu estou tentando desenvolver cada vez mais em mim mesma e no meu craque.

E o amor do Gael por futebol tem sido um super aliado para mim nessa jornada. Faz 4 meses que ele está jogando na categoria 2011 em um clube aqui de Colônia. O negócio é sério, campeonato, tabela, amistosos, titulares e reserva…  A temporada de jogos tem sido uma enorme oportunidade para o meu filho desenvolver estratégias internas de como “sacudir a poeira”. 

Meu ataque é um misto de torcida ferrenha, abraços, beijos e curativos totalmente exagerados (proporcionais ao drama que ele faz com os machucados) e um discurso que sempre repete a mesma linha: nem sempre a gente ganha, o importante é lutar. E aos poucos o futebol tem mostrado para o Gael, que na vida e no jogo - às vezes a gente perde. 

No último Domingo, eles participaram de um torneio. Eram vários mini jogos contra times dos clubes das cidades aqui das redondezas. Eu não fui, o Gael foi com o pai. Eu fiquei acompanhando o desenrolar através das mensagens do meu marido no WhatsApp: “Ele está jogando muito!” - “ Ele salvou o time” - “Chorou, foi trocado” - "Parou de chorar, entrou de novo” -  “Empatou, tá puto, não quer mais jogar” - “Estrela da semi-final”. Até que 50 mensagens depois, eles chegaram na final. Era o primeiro torneio da vida dele, e meu coração de mãe mole só queria que eles pelo amor de Deus ganhassem. Mas eles perderam.  Ficaram em segundo lugar. No vídeo que meu marido me mandou ainda do torneio, se via um bando de meninos felizes comemorando, e um abrindo o berreiro com uma medalha de prata no peito. Pelo jeito, o segundo lugar ia ser uma bela oportunidade para o Gael treinar o músculo da resiliência. 

Já comecei a preparar o discurso para quando ele chegasse em casa. Imaginei ele chegando inconsolável, jurando que nunca mais ia participar de campeonato nenhum. Mas alguma coisa aconteceu na cabecinha dele durante a viagem de carro de volta para casa. Quando ele chegou veio orgulhoso me mostrar a medalha, estava feliz com o segundo lugar, feliz de ter jogados todos os jogos e ter feito diferença para o time.

Não sei até que ponto meu filho absorve meus discursos motivantes, mas o que eu sei é que está nascendo uma força diferente no meu craque. E eu espero que essa força fique cada dia mais sedimentada nele. O que dá sentido à vida é nossa vontade ferrenha de querer evoluir, como jogador de futebol, como mãe, como profissional, como pessoa. Sem isso, nem vale à pena viver, aí já está tudo perdido mesmo. 

 

Camila Furtado mora em Colônia, na Alemanha. Ela não tem a cara de pau de tentar ensinar para o filho uma coisa que nem ela mesmo faz com maestria, por isso tem ultimamente se esforçado muito para encarar suas frustrações na vida como excelentes oportunidades para evoluir. 

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