Você está ajudando o seu filho a ser alguém útil no mundo?

Você está ajudando o seu filho a ser alguém útil no mundo?

Eu já escrevi aqui sobre o quão admirada eu fiquei ao ver meu filho, então com 6 aninhos, limpando e colocando a cadeira pra cima da mesa no fim da aula, logo que mudamos pra cá. Mas eu não posso deixar de contar mais uma história a respeito de comprometimento. 

Na escolas públicas de ensino fundamental onde eu moro aqui nos Estados Unidos, com crianças entre os 5 e os 10 anos de idade, no último ano, o quinto, todos os alunos precisam se voluntariar para prestar algum serviço. É a regra. E dentre estes voluntários existem os patrols: aqueles que cuidam do trânsito na porta da escola, fazendo os carros pararem para as crianças nas ruas mais tranquilas (obviamente nas de grande fluxo existem guardas de verdade) e ajudando os menores a descerem do carro e entrarem na escola.

Hoje, estava um frio do cão. -3 graus Celsius e mais um vento gelado que fazia a sensação térmica ser ainda pior. O “patrol” que ajuda a minha filha a descer do carro e a encaminha para dentro da escola estava lá, pronto como sempre, mas não tão firme e forte como de costume. Ao abrir a porta do meu carro, ele deixou a formalidade do cargo de lado e soltou um: “Nossa, está frio demais!”. E eu prontamente comecei a elogiá-lo, disse que ele era muito corajoso por estar ali com aquele frio e que eu era grata dele estar ajudando as crianças. Ele, do alto dos seus 10 anos, olhou bem pra mim e disse: “Mas este é o meu trabalho!”.

Sai dirigindo e pensando sobre o quanto essa sementinha de comprometimento vai fazer diferença na vida daquele menino. E o tanto que esse trabalho comunitário engajado, em favor do outro, “porque alguém tem que fazer e que seja eu”, faz diferença no jeito de viver do americano. Longe de mim ficar dizendo que eles são maravilhosos enquanto sociedade (este texto não é para apontar os defeitos). Mas eles sabem como ninguém exercitar cidadania. 

É por causa desse voluntariado que começa de pequeno, que lá na frente eles se comprometem na maior naturalidade a limpar em conjunto o jardim do condomínio, escolhem um fim de semana para pintar a escola, organizam festas para angariar fundos e trocar o piso da quadra de basquete, por exemplo. E isso em qualquer comunidade: de gente com muita ou pouca grana.

A questão de estar envolvido é tão parte do dia a dia que nenhum pai ou mãe deixa de mandar o filho para o seu devido trabalho voluntário mesmo com o frio abaixo de zero. E olha que estas mesmas crianças têm que chegar mais cedo na escola. 

Eu queria tanto que no Brasil essa “moda” pegasse. Tanta coisa que se imita dos Estados Unidos e que não serve pra nada. Por que não copiar o modelo: “vou fazer do meu filho alguém comprometido”? Porque ficar sentado no sofá vendo televisão e pedir para a empregada trazer um copo de água não é o melhor aprendizado. Achar absurdo a professora entregar o pano para o aluno limpar o chão que ele mesmo sujou também não é o melhor caminho.

Alguém vai dizer que precisamos tomar cuidado para não “atrapalhar” a infância ao ficarmos listando uma série de obrigações para os pequenos. Mas não é disso que estou falando. As responsabilidades precisam e devem ser proporcionais às idades, mas não podem de jeito nenhum ser ignoradas. E tem muita coisa que podemos inserir de forma bem lúdica mas já marcando terreno sobre “fazer a sua parte”. Que tal, o pequenininho ajudar a guardar os brinquedos depois que a farra termina?

Da minha parte aqui em casa, sigo repetindo insistentemente o quanto é importante colaborar. Arrumar a cama, separar o lixo reciclável, colocar o lixo lá fora e separar as roupas limpas para guardar estão na lista das atribuições do meu filho, hoje com 11 anos. Ah… mas ele faz tudinho sem reclamar? Claro que não. Mas nem por isso eu desisto e nem por isso ele deixa de fazer. Como eu já disse, eu acredito muito em sementes bem plantadas.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 5 anos. Eles moram em Washington-DC. Das coisas que a mais nova a-d-o-r-a ajudar está recolher folhas secas do jardim nesta época do ano (cena que, inclusive, ilustra este texto).

De uma grávida para outras grávidas, com carinho.

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