"Escutar filho é diferente de obedecer filho": 7 perguntas para o psicólogo Rossandro Klinjey

"Escutar filho é diferente de obedecer filho": 7 perguntas para o psicólogo Rossandro Klinjey

Ele se inspira na educação que recebeu da mãe para dar palestras e atender como psicólogo. “Ela era muito rígida mas ao mesmo tempo doce”. Com mestrado em Saúde Coletiva e com um doutorado em Psicanálise a caminho, Rossandro Klinjey diz que na adolescência teve muita raiva da mãe, mas já adulto percebeu que as pessoas ao redor dele, com a educação que ele tanto queria, não deram certo na vida. Ele é categórico: “A pessoa que é criada sem regras, ela não dá certo em nada, nem afetivamente, nem intelectualmente, nem financeiramente”. Morando em Campina Grande, Paraíba, por causa da carreira da esposa, ele abriu espaço na agenda cheia de viagens e pacientes para conversar comigo, via Skype. Um papo maravilhosamente produtivo. Que me serviu e tenho certeza que vai lhe servir também!

1) Por que os pais de hoje não conseguem ser respeitados?

A questão da corrida dos pais por trabalho, para ter um padrão de vida cada vez mais difícil de ser mantido, os faz voltar para casa com culpa e querendo comprar o afeto dos filhos. Eles tentam seduzi-los e não impor-se aos filhos. E ainda têm uma ideia muito infantil que é de ser amigo dos filhos. Uma coisa é eu ter uma geração hoje com um diálogo maior com os filhos do que aquele que o meu pai tinha comigo. Isto é bem vindo, é um ganho. Mas sair da posição de pai e de mãe para me tornar amiguinho, isto é uma perda. Porque você sai de uma posição que ninguém substitui para uma posição que todo mundo ocupa. Quando ele tem raiva de um amiguinho do colégio o que ele faz? Ah, não vou falar mais com ele. Mas com pai e mãe não é bem assim. E essa perda de hierarquia, ela fragiliza a relação.

2) Você diz que adolescente não consegue oferecer amor aos pais como eles imaginam. Então é preciso maturidade para saber amar? 

Sim. O amor na escala dos afetos é o sentimento mais nobre. E para que ele aconteça, ele precisa de algumas coisas anteriores a ele. Tanto que eu uso o exemplo da matemática: se, somente se, tais coisas acontecerem, o resultado final vai ser esse. Então, para eu amar alguém, eu preciso, antes desse sentimento, respeitar e admirar. Se eu não respeito meus pais, eu não vou conseguir amá-los. É impossível amar alguém que eu não respeite. Os pais do passado não ficavam perguntando toda hora para as crianças se elas os amavam, numa coisa bem infantil. Mas jamais abriram mão de serem respeitados. Os pais hoje querem conquistar o coração daquela criatura de qualquer jeito. E no final não conseguem nem amor, nem respeito. Eu preciso primeiro conquistar o respeito e para isso: preciso ser pai e mãe e escutar os filhos. Que bom que hoje os pais escutam, antigamente isso não acontecia. Mas escutar filho é diferente de obedecer filho. Eu é que tenho a autoridade na relação de não obedecer tudo que eles como filhos estão me solicitando.

3) Amor demais estraga?

O amor nunca estraga. O que estraga é a forma infantil de afeto. Por exemplo, eu posso ser super afetuoso, eu posso dizer que amo profundamente meus filhos, eu posso brincar, fazer castelinho, sentar no chão. Mas na hora que eu emitir a função de pai, dar uma ordem, tem que ficar claro na cabeça da criança que mesmo brincando com ela, eu não deixei de ter a minha posição de pai ou de mãe, de ter autoridade sobre ela. Quando disser agora acabou, vamos desligar o computador, ele tem que entender que tem um pai e uma mãe afetuosos, mas ordenadores. É o que a gente chama em Administração de líder situacional: tem hora de ser democrático e de ser autocrático. Porque tem hora que você tem que decidir e ponto. As crianças hoje em dia elas são verdadeiros procuradores federais em argumento. Se você deixar, você se convence que elas estão certas e ainda pede desculpas. Não é que eu tenha que evitar o amor e ficar ríspido, de jeito nenhum. Eu posso me derramar em amor, mas manter a ordem.

4) Como fazer os pais se livrarem da condição de chantagistas emocionais? Já que por darem demais estão sempre esperando muito dos filhos.

O amor a gente dá sem esperar nada em troca. Eu tenho que amar e ponto. O futuro é que vai fazer este amor ser devolvido. E outra coisa: o amor se eu cobro por ele, ele perde o valor. Toda vez que eu tenho que pedir para você reconhecer o que eu faço, aquilo que eu estou fazendo perde o valor. Então quando eu educo um filho e dou o meu melhor, isso é uma condição minha. Os pais querem reconhecimento na infância e na adolescência. isso não vem. O reconhecimento vem na fase adulta. Eu lembro na adolescência de odiar a minha mãe. Ela só dizia: “você me odeia, mas eu te amo, um dia você vai entender que eu estou fazendo o melhor pra você, eu não espero que você reconheça isso agora”. É uma imaturidade os pais quererem que o filho entenda o significado das ações deles agora.

5) Existe uma geração de pais inseguros?

Sim, há muito pai e mãe inseguros. Junta-se pais inseguros com crianças com poder de argumentação maior: o caos está feito. Porque aí você tem um promotor de justiça defendendo a própria causa, que é a criança, e dois juízes vacilantes, que tem o cargo mas não assumem o poder. Ou então ficam disputando entre si a lei, um diz uma coisa e outro diz outra, e a criança tira vantagem disso. Tem casos em que a criança leva os pais ao divórcio. E não é por mal. Como diz Ariano Suassuna “as crianças são perversas porque são inocentes”, não é porque elas são maquiavélicas, elas são inocentes, em busca do próprio interesse. Se ela sente que o pai vacila e a mãe vacila, ela vai jogar um contra o outro pra conseguir o que ela quer. Por isso é preciso cumprir o papel ordenador, se empoderar dele, porque a criança precisa e quer limites. Ela está implorando: “Por favor cumpra o seu papel porque eu não tenho maturidade de escolher. Se você me delega função que não é minha, você me estressa, me angustia, me traz sofrimento”.

6) Você diz que há como reverter situações em que os pais perderam o controle e chama isso de “reintegração de posse afetiva”. Você me daria um exemplo disso?

Eu já atendi uma paciente que eram as filhas que tinham o cartão da conta corrente dela. Ela tinha que pedir dinheiro às filhas adolescentes para fazer as unhas! Eu disse a ela que para a terapia funcionar, a primeira coisa que ela tinha que fazer era resgatar o cartão dela e mudar a senha. Os papéis estavam completamente invertidos. Claro que houve um conflito quando ela quis reestabelecer seu papel de mãe. Mas eu sempre digo, quando os pais estabelecem conflito em casa para reaver os seus papéis, eles fazem isso com finalidade amorosa. Mas o mundo quando vai cobrar dos filhos adultos, ele destrói porque não tem finalidade amorosa. É preferível que os filhos “sofram” na minha educação, do que sofram na fase adulta sem nenhum tipo de anteparo emocional.

7) O que de melhor os pais podem fazer para criar filhos emocionalmente equilibrados?

Os pais de hoje são uma geração que tiveram pais mais duros, mais distantes. E muitos também passaram por dificuldades financeiras. E eles desenvolveram o que eu chamo de “infeliz ideia”: meus filhos não vão passar por isso. Só que no momento em que você priva seus filhos de passarem por certas etapas, cobrindo-os de cuidado, você os fragiliza. É preciso que os pais ajudem os filhos a lidar com frustrações. A vida humana é cheia de frustrações, sem entender isso a gente se torna incompetente. Crie os seus filhos para que eles tenham capacidade de suportar o mundo, e não para que eles sejam tão incompetentes que o mundo tenha que os suportar. Eu tenho que educar alguém para que um dia ele não precise de mim para dirigir a própria vida, para que ele um dia tenha autonomia total. E quando um filho tem autonomia total ele desenvolve tanta gratidão que quando eu começo a ficar frágil com a minha velhice, perdendo a minha autonomia, ele vem para me devolver aquilo que eu dei.

O psicólogo Rossandro Klinjey acaba de lançar o livro "As 5 faces do perdão" e tem um canal no YouTube.

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