7 perguntas para a escritora Alessandra Roscoe: "Bebês adoram uma boa leitura!"

7 perguntas para a escritora Alessandra Roscoe: "Bebês adoram uma boa leitura!"

A escritora e jornalista Alessandra Pontes Roscoe tem convicção de que apresentar um livro pode ser um dos maiores presentes que você pode dar a um filho. Tanto que ela defende a leitura não só para bebês, mas também quando eles ainda estão na barriga da mãe. Com 30 livros publicados, casada e mãe de 3 filhos - Beatriz (17 anos), Felipe (13 anos)  e Luiza (6 anos), eles são os melhores exemplos do que ela vem semeando. Nesta entrevista exclusiva para o blog, a escritora nos conta sobre "leitura afetiva" e muito mais!

1- O que você percebeu quando resolveu começar a ler para a sua primeira filha ainda na barriga? 

Eu sempre gostei muito de ler. Quando soube que estava grávida quis logo estabelecer uma relação afetiva com meu bebê e usei a leitura como ferramenta. Lia de tudo em voz alta, incluindo contos infantis. Percebi nestes momentos só nossos que a leitura acalmava a mim e à Bia, pois ela reagia às leituras, como se também se aquietasse pra ouvir, sorver cada palavra. Acabei criando nessa época,1998, a primeira Oficina de Leitura para o Ventre com o grupo de gestantes que eu participava. Com os dois outros filhos foi assim também. No caso específico da terceira gravidez, estava num momento de transição profissional, à beira de completar 40 anos, meu segundo filho já tinha 6 anos, me assustei. Lia para me acalmar e com isso consegui acalmar os sentimentos e a Luiza na barriga.

2- O que os estudos “científicos” falam sobre esta prática de leitura para bebês? 

São muitos os estudos que comprovam que já a partir do quarto mês de gestação os bebês no útero têm a audição desenvolvida e a percepção em alerta. A leitura em voz alta cria vínculos, traz segurança e estabilidade e estimula zonas cerebrais. Depois do nascimento as vozes que leram e conversaram com o bebê enquanto ele estava no útero são verdadeiros calmantes em momentos de insegurança, instabilidade emocional, medos. Há relatos de bebês que em meio ao choro quando escutavam a voz que lia em voz alta na gestação, pararam de chorar. O mesmo acontece com a música. A voz afetiva funciona como um calmante muito eficaz!

 3 - Em que momento da sua carreira de escritora você resolveu escrever também para bebês? 

Os livros destinados aos bebês publicados no Brasil nunca me convenceram. De plástico, de pano, sem texto e muitas vezes sem conteúdo ou com textos que passam longe do poético e do literário. Minha vontade era oferecer aos pais e aos bebês a possibilidade de um encontro a partir do livro. Bato nesta tecla da leitura para bebês há mais de 10 anos, já fui olhada de rabo de olho, com muita desconfiança e hoje os pediatras no Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil decidiram receitar leituras para grávidas, bebês nas incubadoras, bebês e crianças em geral. Cada faixa etária exige posturas e tempo de atenção distintos. Zero a 24 meses, o tempo é curto, 10 a 20 minutos. De 24 a 48 meses, podemos aumentar o tempo de leitura, pois já acontece a interação com os livros. O mercado editorial brasileiro acordou para este público e hoje vários autores, além de mim, se dedicam a escrever para os mais miúdos. Ainda bem!

4 - Como é a afinidade dos seus filhos com a leitura?

Todos se tornaram leitores vorazes e muito apaixonados por livros. Beatriz escreve super bem,  foi parceira na criação do meu primeiro livro e nas ilustrações do segundo. Felipe, já inspirou alguns dos meus títulos e foi co-autor de um deles, onde vai carrega o seu livro e diz que com eles nunca está sozinho. Luiza, com apenas 2 aninhos e um exemplar do Patinho Feio que cabia em suas mãos, fez a primeira mediação de leitura, ora "lendo" a história para os bichos de pelúcia que ficavam no berço, ora mostrando ao seu público silencioso as ilustrações do livro.

5- E a sua experiência de leitura para idosos? 

Fui convidada para contar histórias num hospital, achando que era para crianças. Tinha o último texto que havia escrito a mão, numa folha de caderno, dentro de uma caixa. Era sobre o tempo e a memória chamado “Caixinha de guardar o tempo”. Quando entrei na sala vi que o público era de idosos e nem sabia que estavam em tratamento de Alzheimer. Comecei lendo o texto que fala sobre uma menina que ao perceber o tempo passando resolve criar uma caixinha para guardar o tempo e ali vai juntando tudo de importante. Já em idade avançada, ela decide abrir a caixa e percebe que guardou o melhor de tudo o que viveu. Terminei de ler o conto e disse que eu guardaria na minha caixinha o jardim da casa dos meus avós em Minas. Resolvi passar de mão em mão a Caixa e perguntar o que cada um guardaria. A primeira senhorinha disse que guardaria a vela do próprio enterro, pois já estava mais pra lá do que pra cá. Respirei fundo e resolvi ir adiante. O sorriso de um filho, as brincadeiras da meninice, as cantigas da mãe. Quase todos buscaram lembranças na infância. Em certo momento um senhor com a voz pausada e muito calma disse que guardaria o cheiro do café da avó em dia de chuva na fazenda e contou detalhes. Em seguida, uma senhora abriu a caixa, chorou muito dentro dela e nada disse. Quando acabou, o médico do projeto segurou meu braço e disse que eu precisava voltar. Explicou que o homem que contou sobre o café, a fazenda e a avó não falava há seis anos e não reconhecia ninguém. A senhora ao lado dele era a esposa. Passei a ir toda sexta-feira ler histórias infantis para eles. Só parei quando minha rotina de viagens não permitiu mais. Descobri ali que uma leitura pode puxar o fio da memória e estimular muitas emoções. “Caixinha de guardar o tempo” virou livro, sendo um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2013.

 6- O que você já viu dos seus pequenos leitores/ouvintes que a surpreendeu?

Um caso muito marcante foi de um menino de 2 anos com muitos problemas com os pais, super agitado e questionador. Depois de alguns meses lendo em família diariamente, os pais perceberam que aquele momento com o livro na mão, era o momento em que os enfrentamentos sumiam e a harmonia prevalecia. O pai chegou a citar que um dos livros “O P de Pai”, que fala sobre os vários tipos de pais, havia servido para ele mudar as próprias atitudes com os filhos. Em outra situação, uma criança pequena foi questionada pelo pai, depois de brincar com um daqueles livros de colocar o dedo num fantoche da capa para manipular, se gostaria de levar aquele livro para ler em casa e ela de pronto respondeu que não. Avisou que com aquele ela já tinha brincado e que queria levar para casa um livro com “muita letra” para que o pai e a mãe ficassem mais tempo com ela antes de dormir.

7- Qual seu conselho para que os pais estimulem a leitura nos filhos num mundo tomado por tablets e smartphones? 

Comprem livros divertidos, deixem que mergulhem neles, engatinhem sobre eles, leiam em voz alta e façam da literatura sempre um acalanto. Contem suas próprias histórias de infância. Estimulem seus pequenos a perceber que as leituras podem ser várias e muito distintas. O livro é o primeiro museu da criança e ao alcance dos olhos, da boca, do nariz, das mãos e dos ouvidos. Visitem livrarias, bibliotecas, feiras literárias e deixem que eles exerçam suas habilidades leitoras e não estou falando de letramento. A percepção vem antes. O afeto vem antes. O som vem antes. Depois deles é que vem a palavra, o código decifrado. E tudo acontece naturalmente. É na barriga e no colo que deve se formar o leitor!

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