As descobertas de uma mulher em crise no Caminho de Santiago

As descobertas de uma mulher em crise no Caminho de Santiago

Foto: arquivo pessoal

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O ano de 2015 foi bem difícil pra mim. Na verdade, desde 2014 eu vinha pirando. Eu não me sentia feliz com nada e, principalmente, não conseguia um emprego decente. Meu casamento estava por um fio e, por mais que tentássemos, a gente tinha um problema irresolúvel: a forma como criei meus filhos. É meu quarto casamento. Meus filhos já tinham 10 e 16 anos quando ele chegou na minha vida. Os filhos dele são bem diferentes dos meus (afinal, eu os criei sozinha!) e alguns comportamentos dos meus meninos eram para meu marido um grande transtorno. As coisas se complicaram, sai de casa e queria a separação. 

Decidi passar uns 3 meses na França, na casa de um amiga. Meu coração estava um conflito só. Me sentia frustrada e sem rumo. Como eu já estava na Europa, fazer o Caminho se tornou um sonho mais próximo. Um dia abri uns sites da Internet e puft! Senti uma coisa meio sobrenatural me chamando… e comecei os preparativos. Com toda certeza: eu não escolhi o Caminho de Santiago, ele me escolheu. Optei pelo trajeto francês. Qual seria o resultado? Eu, de verdade, não fazia ideia.

Foto: arquivo pessoal

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Os primeiros 3 dias de caminhada foi com muito, muito choro. Chorava de tristeza, de medo da vida, de frustração, de amor, de saudades, de ódio e de vontade de voltar atrás de muitas coisas que fiz. No terceiro dia, meus pés estavam em carne viva. Bolhas e dores nas pernas, além de alergias, foram minhas companheiras. A travessia dos Pirineus foi a pior parte. Era muito calor e havia muitos insetos. Chegou a fazer 38 graus à sombra.

A cada passo eu me arrependia de tudo o que eu havia levado. E foi aí que tirei minha primeira lição: viver com pouco. Ter apenas o necessário. Consegui me desfazer de roupas, comida e do creme caríssimo de cabelo (!). A vida precisa ser prática, bem como a mochila da existência. Depois que coloquei algumas mágoas sob as pedras dos Pireneus, minha alma também ficou mais leve. 

Não conversei com os demais peregrinos - é muito comum fazer amizades por lá. Mas a minha viagem tinha que ser comigo mesma. O caminho é muito seguro, eu andei muitos dias sozinha e não me senti ameaçada. Apenas meus fantasmas me assombravam.

Comi mal, dormi em albergues lotados de gente de todas as idades, nacionalidades e características físicas. Gente que roncava, que soltava pum, que não tomava banho. Gente alegre, triste, que dormia cedo, etc. Dividi banheiro (logo eu que sou tão chata) e me vi comendo pão seco com água da bica porque era o que tinha na hora. Convivi com uma Taís que eu nem conhecia. 

Foto: arquivo pessoal

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Descobri muitas coisas mas, acima de tudo, que eu deveria mudar meu jeito de agir. Sempre fui meio geniosa e impulsiva. Isso me rendeu muitas inimizades e muitas portas fechadas. Descobri ainda que não estava preparada para ser ateia. Eu ainda preciso de um Deus para me amparar. No meio do trajeto, com os meus pés acabados, optei por alugar uma bicicleta e fui curando minhas feridas (nos pés e na mente) fazendo o que mais gosto: pedalar vendo paisagens incríveis. 

Quando cheguei a Santiago de Compostela, depois de um total de 14 dias, eu realmente me sentia outra pessoa. Não fiz nem questão de buscar meu diploma de peregrina na Catedral de Santiago. Para mim, aqueles 800 quilômetros de peregrinação não precisavam de certificado. Eu fui a peregrina da minha alma. Briguei e fiz as pazes comigo, com o meu Deus e com Santiago umas mil vezes. Parei de me culpar por todos os meus erros. Já era, não tinha como voltar atrás. Aprendi que o melhor era seguir em frente sem aquelas dores.

Acabei decidindo voltar ao Brasil antes do tempo. Estava com saudades dos meus filhos e, pasmem, muitas saudades do meu ex-marido. Certos problemas que tivemos no nosso casamento, com os quais eu impliquei tanto, já não faziam o menor sentido. Entendi que ainda o amava e que valia a pena tentar retomar o casamento do qual ele não havia desistido. Passei por cima do meu orgulho, que havia mesmo ficado sobre uma pedra no caminho, e reatamos. 

Os problemas que eu tinha, eram apenas meus. Eu os “fabriquei” e fiz deles conflitos duríssimos. Não sou uma super-mulher, nem uma atleta de ponta. Apenas achei forças em mim mesma para superar os meus medos e derrubar os obstáculos. Talvez você nem precise ir tão longe pra descobrir isso. Aquela Taís que eu fui buscar em Compostela, sempre esteve muito perto. Estou certa de que o verdadeiro “Camino” começa depois que a caminhada termina. Buen Camino (pela vida) a todas!

Taís Morais é jornalista, mãe do Matheus (22) e da Camila (16), esposa do Sylvio, autora do livro “Guerrilha do Araguaia: os arquivos militares secretos finalmente revelados”, biker, wine lover e observadora das coisas da vida.

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