Vida de expatriada: muda o chip para entender esse médico

Vida de expatriada: muda o chip para entender esse médico

Se alguém me dissesse há 10 anos que um dia eu ia amar minha ginecologista alemã, eu ia negar veementemente, afinal passei pelo menos uns 4 anos indo lá e achando ela a médica mais fria e esquisita do mundo. 

A Dra. Otte foi indicação de uma amiga brasileira que já estava na Alemanha há mais tempo e que disse que ela era excelente. Nas primeiras consultas não achei nada demais, parecia competente, mas era tudo tão rápido e tão frio, que a única coisa que eu queria, era sair daquela cadeira, naquela posição infeliz, escutar que estava tudo bem comigo e sumir do consultório.

Eu só comecei a odiar e depois amar minha ginecologista quando fiquei grávida da minha primogênita. Ela continuava com a frieza de sempre. E eu não me conformava com aquelas consultas “protocolares”. Não tinha uma vez que eu não saísse de lá que depois não ligasse para minha ginecologista do Brasil para “checar” se a médica alemã não tinha esquecido de nada, se eu realmente estava sendo bem cuidada. Minha ginecologista do Brasil sempre repetia a mesma coisa: “Você pode até estar estranhando o jeito dela, mas a consulta, os exames, os procedimentos estão todos impecáveis. Ela faz tudo certo.” 

Com um tempo fui me conformando com o jeito dela, e acreditando que ela era uma boa médica e que se importava comigo como paciente. Tive uma gravidez tranquila, mas nas poucas situações em que alguma coisa não estava 100%, minha médica agia com eficiência e rapidez impressionantes. Aos poucos fui percebendo que ser objetivo não significa ser frio, que ir direto ao ponto, sem rodeios, não significa ser grosso, pelo menos não aqui na Alemanha. Aliás muito menos no meio médico aqui Alemanha, onde os médicos estão sobrecarregados, trabalhando com cargas horárias desumanas e se desdobrando para ainda assim prestar serviços de qualidades. Como esposa de um médico, posso falar disso com uma certa propriedade…

Mas não estou contando essa história para discutir o sistema de saúde na Alemanha. E sim porque acabo de voltar do consultório da minha ginecologista e me lembrei com um certo espanto até, do quanto eu sofri com o jeitão dela no começo da minha gravidez. Agora eu sei que meu problema naquela época, era não saber “ler” minha médica, da maneira que eu consigo hoje “ler” os alemães. Eu esperava dela um comportamento semelhante da minha médica no Brasil, que era o que eu até aquele momento conhecia, e acreditava ser o único certo. Lembra da letra de Sampa do Caetano? 

“Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho” ...

“Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”

Basicamente, naquela época, por mais que eu me esforçasse para que não fosse assim, eu estava na Alemanha mas meu cérebro ainda funcionava na maior parte do tempo com o chip do Brasil.

Foram muitos anos de conflitos internos para eu atingir o ponto que estou hoje, no qual eu não consigo mais olhar a Dr. Otte como uma médica alemã. Para mim, hoje em dia, ela é só a minha médica. Uma médica que nunca na vida vai me perguntar de que cor eu pintei o quartinho das crianças, nem me dar dois beijinhos quando eu entrar no consultório, mas tudo bem, atualmente não são esses os sinais que eu utilizo para saber se eu gosto de um médico ou não. Ela continua sendo a mesma de sempre. Quem mudou foi eu. Não só de país, mas também por dentro. 

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria de 7 anos e do Gael de quase 5. Ela já foi atendida por alguns médicos não tão bons como a Dra. Otte, mas está muito feliz por ter aprendido a ler os sinais certos e virar a página quando uma relação profissional ou pessoal não lhe convém mais. 

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