Não rompa relacionamentos por causa de um biscoito recheado

Não rompa relacionamentos por causa de um biscoito recheado

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Eu já vi esta história mais de uma vez e muitas amigas já me relataram a mesma cena: crianças que diante da proibição dos pais de comerem qualquer coisa não saudável, se entopem dessas mesmas coisas na primeira oportunidade longe dos pais. 

Na escolinha do meu filho ainda no Brasil, por causa de umas balinhas que eu distribui no fim da festa, a professora teve que arrancar na marra as cinco balinhas que um coleguinha colocou ao mesmo tempo na boca quase a ponto de engasgar. E ela me explicou: “É sempre muito difícil, pois a mãe proíbe ele de comer, mas ele está sempre alucinado querendo doces”.

Pra mim isso é tão óbvio: quanto mais proibido, mais vira obsessão, né? E a criança com doce ou qualquer outra coisa não vai ser diferente. “Qualquer coisa que você radicaliza na educação, a criança vai querer quebrar as regras”, diz o pediatra Eduardo Barbosa, com quase 40 anos de experiência em consultório.

Conheço professoras que sofrem ao ver crianças pequenas, de pais muito radicais, fazendo de tudo para comer o lanche do coleguinha. Eu não estou falando obviamente das crianças diabéticas, nem das que possuem algum tipo de intolerância alimentar. Eu estou falando aqui do patrulhamento dos pais em nome de uma alimentação 100% saudável, que é ótima, mas muitas vezes não funciona o tempo todo. 

“O que eu recomendo muitas vezes é que os pais procurem de segunda a sexta seguir uma dieta mais saudável e no fim de semana quebrar um pouco a rotina. Não precisa oferecer porcaria, mas não precisa proibir o brigadeiro do aniversário, por exemplo”, diz o pediatra Eduardo Barbosa, “O que eu peço dentro do consultório é que pais e mães tenham bom senso. Educação não é uma questão de radicalidade, mas uma questão de bom senso.”, diz o pediatra.  

Infelizmente, o que eu tenho ouvido são histórias de embates familiares e entre amigos por causa desse radicalismo. O que aconteceu para nos tornarmos tão chatos como pais e mães? Porque as bandeiras se tornaram mais importante do que a vida real? Vivo vendo mães que chegam a pedir desculpas para as mais radicais porque ofereceram alguma coisa que não passa no crivo do 100% saudável, sempre num enorme constrangimento.

Numa boa, se o seu filho não tem nenhuma restrição alimentar, vale a pena ele presenciar um embate entre você e a avó, por exemplo, por causa de um bendito doce? Eu sei que existem avós que insistem, não respeitam o ponto de vista dos pais. É claro que a alimentação industrializada faz mal e cada vez mais mal! Mas sabe, eu fico vendo relacionamentos sendo quebrados por causa das posições intransigentes de muitos pais. E isso não é nenhum exagero, isso vem ocorrendo. 

“Um dos pilares que a pediatria tem incentivado hoje em dia é o relacionamento familiar”, explica o pediatra Eduardo Barbosa.  Ele diz que briga de mãe com avós é extremamente comum, mas tem sido mais frequente nos últimos tempos. “As famílias com avós precisam aproveitar, pois eles trazem uma memória familiar que é importante valorizar e passar para os netos”. Fico pensando aqui comigo, como teria sido sem o brigadeiro que a minha avó fazia para mim. Existia todo um ritual de irmos até o mercadinho, comprar os ingredientes, enrolar os brigadeiros, raspar panela… Se a minha mãe tivesse feito parte de uma ala radical, eu jamais teria tão doces memórias!

“Não existe ninguém que acerta 100% na educação, nem que erra 100%. Nosso instinto é protetor, queremos o melhor para os nossos filhos, mas precisamos achar o equilíbrio”, insiste o pediatra. Eu não acho mesmo que radicalismo é bacana. Nenhum deles. Eu tenho tentado ser mais maleável em muitas coisas. Porque eu acredito que isso também é algo bom pra ensinar para os meus filhos.

 

Fabiana Santos é casada, jornalista, mora em Washington-DC. É mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 5 anos. E não! Ela nunca compra biscoito recheado. Mas também nunca fez cara feia para ninguém, se alguém oferece para os filhos.

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