Vida de madrasta: se eu competisse com o meu enteado, eu iria perder

Vida de madrasta: se eu competisse com o meu enteado, eu iria perder

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A primeira vez que encontrei meu enteado foi numa livraria, na seção infantil, onde eu nunca tinha pisado antes. Lá estava ele, o filho do meu namorado, do alto dos seus 3 anos e meio, gordinho e tímido. Lembro de ter lido com ele um pouco e quando saímos de lá, ele me deu a mão. Aquilo foi um sinal.

Não que tenha sido tudo sempre uma maravilha, mas o Gabriel é aquele tipo de criança fácil de lidar, de conviver. E isso realmente facilita muito as coisas.

Ainda assim, se eu consegui manter uma boa relação com o meu enteado até hoje, devo isso em parte à sabedoria da minha mãe. Ela me disse, quando soube que o meu namorado tinha um filho: "Não entre numa de competir com ele: você vai perder." 

E houve sim uma fase de ciúmes (da minha parte e não da dele!), em que eu teimei em competir com o Gabriel. Foi uma fase difícil do meu namoro. E o meu namorado logo me mostrou que eu perderia. Ah, como eu perderia. E eu sofri com isso. Pois quando você namora alguém com filhos (me refiro a alguém que realmente preza os filhos!) tem que se acostumar ao segundo lugar. É fato. E pra quem é filha única e foi acostumada a ser primeiríssimo lugar em casa sempre, foi uma bela lição de vida.

Aliás, o Gabriel veio na minha vida assim, pra me ensinar muito. Aos 5 anos ele lidava melhor com a frustração do que eu lidava aos 26 (!). E comecei a ter vergonha e a querer mudar.  E se eu ficava muito brava porque queria a exclusividade do pai dele, ele me recebia com um sorrisão e um beijo gostoso que me deixava constrangida por ter esta raiva comigo.

E foi ele quem deu o primeiro passo e disse que me amava. Foi tão sincero e tão espontâneo que eu senti que devia estar fazendo algo certo na nossa relação. E foi ele quem disse que eu era "tipo uma segunda mãe" no dia do meu aniversário e foi o melhor presente que ganhei naquele dia. E foi ele que me ensinou a ficar de joelhos e olhar naqueles olhinhos de criança e pedir desculpas, algo que às vezes não fazemos com as crianças. E foi observando ele que aprendi a me controlar quando estou errada ao invés de simplesmente retrucar tudo.

Quando viemos morar na mesma casa, a adaptação foi suave. Sempre por causa dele, não por mim. Porque eu sou uma madrasta chata, daquelas que manda arrumar as coisas toda hora e se irrita com a roupa jogada no chão. E me odiei por isso em muitos momentos porque ele sempre se manteve sereno, aceitando as minha broncas e aprendendo a conviver todos os dias com uma mulher que queria tudo no lugar. O que pra ele era bem diferente, já que antes viviam só ele e o pai dele.

Hoje, 7 anos depois daquele dia da livraria, ele está na pré adolescência e eu virei mãe de uma bebezinha. Meu sentimento de amor por ela é diferente do meu sentimento de amor pelo Biel. Não tenho nenhum problema em admitir isso. Mas amá-lo me ajudou a ser mãe. Me ajudou a não ser tão insegura e a saber que as coisas nem sempre saem como a gente quer em se tratando de crianças. Gosto de dizer que fiz um estágio com o Biel.

Não é nada fácil ser madrasta. É um papel ingrato, especialmente quando você mora com seu enteado. Você não tem como ficar à parte da educação da criança totalmente, mas também não pode tomar a educação dela pra si. Você acha que vai ter o fim de semana todo com o seu marido porque seu enteado está com a mãe e ele liga no sábado à noite pedindo pra vir pra casa. Ser uma madrasta bacana exige lembrar o tempo todo que o seu companheiro é um pacote e é preciso abraçar o pacotinho quem vem com ele. Foram inúmeros os momentos que eu tive (e ainda tenho) que fazer um exercício para abrir o meu coração. Mas está valendo a pena. Eu não perdi. A força do afeto tem me ganhado todos os dias. 

Raquel Charchat é casada, mora em Brasília e é perita criminal. Madrasta de Gabriel, de 11 anos, e mãe de Isabela, de 1 mês. Ela está em plena licença maternidade, naquela fase pauleira mas de deliciosas descobertas. E faz questão de contar que Gabriel tem se saído um super irmão. 

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