7 perguntas para Rose Silva: ela resgata crianças que tiveram a infância roubada no Nepal

7 perguntas para Rose Silva: ela resgata crianças que tiveram a infância roubada no Nepal

Foto: Arquivo Pessoal/Rose Silva

Foto: Arquivo Pessoal/Rose Silva

Rose e o marido se mudaram para o Nepal, país pobre entre a Índia e a China, há 16 anos. Convencidos de que poderiam ser úteis no combate a uma das maiores tragédias da humanidade: o tráfico de crianças para exploração sexual. Eles trabalham numa Organização não-governamental chamada "World Mobilization". Gaúcha, mãe de um rapaz de 22 anos e de uma menina de 10, Rose Silva fala das meninas nepalesas, que são salvas de dentro de bordéis, com um carinho de mãe por todas elas. Em passagem por Washington-DC, onde visitou instituições que apoiam o projeto, a assistente social contou ao blog sobre as meninas do Nepal. Histórias muito tristes, mas com muitos finais felizes.

1 - Como essas meninas vão parar em bordéis e com que idade?

Alguns povos dentro do Nepal vendem as filhas para o tráfico sexual. É sempre um tio, o pai ou até a mãe, sempre tem alguém da família envolvido na negociação. Na região de Nuwakot, por exemplo, você não encontra mais meninas de 7 anos. São todas vendidas. São lugares muito pobres nas montanhas. O sonho deles, por exemplo, é ter um telhado na casa, então o dinheiro que eles ganham vendendo as crianças serve para coisas desse tipo. Tem pai que vai até o bordel buscar o dinheiro. As crianças são iludidas, elas acreditam que terão uma vida melhor, tendo algum trabalho doméstico (comum por lá entre crianças) ou estudo, mas não tem noção alguma de que serão exploradas sexualmente. 

2 - O que acontece com elas?

O bordel é um inferno. Não é um lugar para um ser humano viver. As meninas têm que se levantar 4, 5 horas da manhã. Elas têm que ficar numa fila para receber clientes. São de 50 a 80 clientes por dia! Se elas não conseguem clientes, não têm direito de comer. Elas têm que se alimentar em pé. Não há como fugir. Muitas morrem vítimas de abortos feitos dentro dos bordéis. Elas passam por uma lavagem cerebral, sendo convencidas de que não podem pedir ajuda pois desse modo elas jamais voltarão um dia para o próprio país. As que são compradas muito pequenas, com 7 anos, ficam num lugar de triagem tomando hormônios, para crescerem mais rápido. Quando elas me contam que foram amarradas para oferecerem a primeira noite para um homem velho, asqueroso, sujo e sem caráter e depois saem jorrando sangue, isso pra mim é a coisa mais triste que um ser humano pode passar.

3 - Não existe nada que combata essa pedofilia nesses lugares? 

As que tentam fugir vão para a Polícia, mas os policias as pegam pela mão e entrega-nas para o dono do bordel. Se a Polícia as leva de volta para o bordel, quem vai defender o direito delas? Uma menina rende mais de 70 mil dólares por ano para o dono de um bordel da pior espécie, que não tem nem parede. Elas dão lucro e eles não querem abrir mão disso. Eu não posso acusar ninguém, mas é claro que os policiais são comprados pelos donos dos bordéis.

4 - Como são feitos os resgates e qual o papel de vocês? 

Instituições ligadas à nossa, como a IJM (Internacional Justice Mission), um grupo de advogados que luta contra a escravidão, são responsáveis por resgatar as meninas em bordéis de Calcutá, na Índia. O bordel de Sonagachi é um dos maiores da região. Lá estão meninas dos lugares mais pobres da Ásia. Nós recebemos de volta as nepalesas. O trabalho de desativação desses bordeis que abusam de crianças é muito complicado. São meses tentando provas, se escondendo para não levantar suspeitas. E as meninas mentem a idade. Por medo, elas não colaboram para que os culpados sejam presos. É bem fácil levar as meninas para a Índia mas trazê-las de volta aos países de origem é uma burocracia só. Elas ainda precisam passar por audiências numa Corte, quando finalmente é comprovado o tráfico, e depois disso ainda passam um tempo numa instituição indiana até estarem prontas para voltar para seus países. 

5 - Como funciona o trabalho de vocês no Nepal? 

Temos 4 casas de acolhimento em Kathmandu, com 153 meninas. Já passaram por lá um total de 300. Nós também recebemos meninas vítimas de abuso sexual dentro da própria família e outras que correriam o risco de serem vendidas (porque as irmãs foram vendidas antes delas). Nas casas, nós fazemos de tudo para que elas se sintam numa família. Através do amor, do abraço, do afeto. Jovens que já passaram pela casa, hoje fazem questão de cuidar das menores. Temos ainda um centro de treinamento (com cursos de corte e costura e cabeleireiro) e uma escola com cerca de 300 alunos, que atende também crianças da comunidade. Temos também um programa de bolsas de estudos para mais de 1.000 crianças que moram com suas famílias.  

6 - Qual é o maior desejo delas quando chegam até vocês?

Quando elas chegam até nós, muitas têm 15, 16 anos e já passaram por muitas atrocidades. Elas perderam a infância. Elas não tiveram direito de brincar. Então, nós fazemos questão de levá-las para escolher o presente que sempre sonharam. Umas escolhem bonecas e outras querem aqueles ursos de pelúcia maiores do que elas. É um pouco do resgate da infância que elas tanto queriam ter tido. 

7 - Existem finais felizes?

Felizmente, sim! E ainda há muito o que fazer. Este mês mesmo estamos na expectativa da chegada de mais 10 meninas vindas da Índia. Todas elas entendem que estão tendo uma segunda chance e se agarram nas possibilidades de trabalho, de estudo. Temos uma delas, chamada Anjali Tamanga, que já escreveu um livro (que será lançado em inglês e português) e há um filme sendo feito em Hollywood sobre a vida dela.  A própria Anjali está criando uma escola na comunidade pobre em que ela nasceu. Algumas já casaram, têm seus filhos. Existem histórias muito bonitas. Elas têm uma capacidade enorme de perdoar. Promovemos encontros com as famílias e elas sentem vontade de perdoar os pais pelo que eles fizeram. Apesar do período de tristeza, choro e dor pelo qual todas passaram, existe esperança. Quem visita as nossas casas diz a mesma coisa: como elas não têm nenhum resquício do passado e conseguem ser tão felizes hoje? O que tentamos fazer é manter sonhos nos corações de cada uma. 

Este projeto existe porque pessoas bacanas decidem ajudá-lo. Para qualquer doação, visite este site aqui: Meninas do Nepal.

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