É tão gratificante ver num filho alguém melhor do que a gente

É tão gratificante ver num filho alguém melhor do que a gente

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Raramente eu escrevo um texto como desdobramento de outro. Mas desta vez eu achei tão pertinente o que aconteceu que eu acho que vale a pena compartilhar com vocês. Em novembro do ano passado, no auge da minha angústia materna com um incidente com o meu filho, eu escrevi um texto entitulado: “Quando os pais usam o jogo do filho para mostrar o que têm de pior”. Em resumo: durante uma partida num torneio de futebol, um menino do time adversário, insuflado por pais desesperados para ganhar o jogo, deu um jeito de derrubar o meu filho depois de lhe dar três empurrões pelas costas. 

Felipe, então com 10 anos, fraturou a clavícula e, na primeira avaliação médica, ficaria apenas algumas semanas com o tronco imobilizado e em seguida poderia voltar a praticar esportes. Infelizmente, o desdobramento não foi bem assim. Felipe acabou ficando um total de 3 meses imobilizado. Os ossos demoraram a voltar para o lugar, já que em criança não é o caso de cirurgia e sim de uma espera, que em alguns casos pode ser longa. Ele ficou sem poder participar da final do campeonato, nem dos treinos de futebol, sem poder praticar o judô, nem a natação, nem as aulas de educação física, nem brincar com os amigos no parque. Foram três meses que ele resistiu bravamente, mas a gente sabia o quanto ele estava triste com isso.

O longo período parado atrapalhou o desempenho dele no futebol. Mesmo depois de poder voltar a jogar, ele tinha receio de se machucar de novo, se arriscava menos, foi preciso algum tempo para ele voltar a ter a confiança em campo que ele sempre teve. Alguém vai dizer que isso acontece com qualquer jogador de futebol, né? Desde que não seja nosso filho, né?

Enfim, o tempo passou, ele voltou a se dedicar e a jogar no time que ele tanto gosta. Novos campeonatos, novos desafios e novas vagas se abriram para que outros jogadores entrassem no time dele (por aqui um “travel team”, de pré-adolescentes ou adolescentes, é cheio de regras como num time de gente grande). 

E eis que nessas voltas que o mundo dá (e lhe surpreende), adivinha quem foi aceito para jogar no mesmo time do meu filho? Sim, o menino que o derrubou e o deixou por 3 meses imobilizado. Agora eles são colegas, companheiros do mesmo time! 

Assim que ele chegou em casa para me contar a novidade, eu quis logo saber como ele se sentia, como ia ser, como ele ia fazer? Felipe me olhou bem sério e disse: “Mamãe, logo na hora eu lembrei de tudo o que eu passei e é lógico que veio uma raiva na minha cabeça. Mas eu pensei bem e resolvi perdoá-lo, dentro de mim eu o perdoei”. Eu quis saber se o menino tinha por acaso pedido desculpas. Ele disse que não, que achava que ele não o reconheceu, mas que isso não era importante. “A gente vai ter que conviver, né? O importante é que eu estou em paz com isso”.

Um orgulho enorme eu tive do meu filho. De ver que as coisas boas, que a gente tanto prega e repete, acabam dando frutos. É tão gratificante ver num filho alguém melhor do que você. É que a gente passa tanto tempo se culpando e achando que está fazendo muitas coisas erradas, querendo conseguir educar melhor e sempre se cobrando por isso, que as vezes você nem consegue enxergar um bom resultado à sua frente. Ai vem uma lição dessas e você percebe que o caminho deve estar certo. Eu tenho certeza de que o caminho que você está trilhando com todo esforço também deve estar certo. Lembre-se disso quando bater uma certa dúvida ou angústia.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 5 anos. Eles moram em Washington-DC. A nova temporada de futebol do Felipe começa em setembro, quando ele estará lado a lado com o novo amigo.

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