O que você precisa fazer pelo seu pai ainda hoje

O que você precisa fazer pelo seu pai ainda hoje

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Uma hora ele não vai mais existir. E isto é absolutamente normal de acontecer, pois é a ordem natural das coisas. Pode ser que isso aconteça como o “esperado” pela idade, mas pode ser que aconteça no susto, num momento absolutamente inimaginável pra você. As duas formas são barra pesada de encarar. Mas uma das duas vai acontecer. Inevitavelmente.

Não estou querendo dar uma de catastrófica, nem de melancólica neste dia de celebração do "Dia dos Pais". Longe de mim de colocar medo de você perder o seu, se ele ainda existir. Mas é que da minha experiência pessoal, o meu pai não existe mais. Ele se foi dentro daquela segunda forma citada acima: no absoluto susto. E sem querer entrar em detalhes a respeito dessa minha saudade (que você pode ler aqui), o que eu tenho pra te dizer é: a minha dor foi infinitamente menor do que poderia ser pelo fato de que entre ele e eu havia uma relação zerada. De ambas as partes. Se hoje eu me sinto em paz é por uma única certeza: quando meu pai se foi, nós estávamos quites. E isso, meu amigo, minha amiga, faz uma enorme diferença. 

O que eu gostaria demais é que você fizesse pelo seu pai (seja numa relação mais-ou-menos, seja numa relação que esteja rompida) o que precisa ser feito: zere tudo. Zere tudo, por favor. Zere os traumas, zere os erros dele, zere os seus, zere os inúmeros momentos em que você já quis um colo, um afago, um incentivo. Zere as coisinhas mesquinhas pelas quais a gente discute. Zere o orgulho ferido em não procurá-lo. Zere o orgulho dele em não te procurar. Zere o que você e ele já fizeram de errado um com o outro. Zere a vontade de nunca tê-lo tido no papel de pai. Zere o que já falaram dele para você. Zere o que você já foi capaz de dizer pra ele nos momentos de ira. Zere a omissão dele por razões incompreensíveis. Zere até mesmo a sua incapacidade de achar que vai conseguir fazer tudo isso. 

Se abasteça de perdão. Se abasteça pra conseguir pedir perdão. Se abasteça de amor, mas não daquele da boca pra fora. Do mais legítimo, daqueles que não espera nada em troca. Se abasteça da vontade de dar um abraço, sem necessidade de dizer nada, e assim o faça. Se abasteça de lucidez pra entender que as pessoas, as vezes, ou sempre, deixam mesmo a desejar, mesmo no papel de pai. Se abasteça de compreensão. Se abasteça de uma grandeza que transcende o que vão dizer. Se abasteça de carinho mesmo que você nunca tenha aprendido isso com ele. Se abasteça de palavras doces, ainda que você tenha recebido pedradas. Se abasteça do ser humano bacana que você é capaz de ser em nome dos seus filhos. E eu torço, torço mesmo, para você se surpreender. 

 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e é mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 5. Arnaldo Jabor já disse que: "Existe gente que precisa da ausência para querer a presença". Ela prefere não se enquadrar neste tipo de pessoa. 

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