Os malvadinhos, também conhecidos como crianças sem filtro

Os malvadinhos, também conhecidos como crianças sem filtro

Preciso começar este texto fazendo uma ressalva ao título, que é pura provocação. Não acredito que existem crianças de verdade malvadas…. o que eu sim acredito, é que tem muita criança sem filtro, sem educação e sem o mínimo de empatia pelo próximo.

Quem nunca teve o desprazer de encontrar uma pestinha? Eu me surpreendo muito com essas crianças “rebeldes”  porque, de verdade, meus filhos são muito bonzinhos. A Maria, de 7 anos, é do tipo boazinha e espertinha, o que facilita muito as coisas, porque se de um lado ela é incapaz de fazer mal a outras crianças, por outro lado, ela não leva desaforo para casa. 

O Gael, de 5 anos, é um menino super sensível, que tem uma capacidade comovente de se solidarizar com as pessoas e que... abre o berreiro toda vez que leva uma bordoada de quem não é tão trabalhado na gentileza como ele.  

Se o seu filho é o sensível, o gente boa, aquele que não compra briga, tudo que você quer é que ele não esbarre com um“malvadinho” por aí. 

E eu não estou falando daquela criança que perdeu o brinquedo, e ainda sem muito domínio das suas emoções teve um ímpeto de ir recuperá-lo no tapa…. Estou falando é daquelas crianças que já têm uma certa idade, mas que agem como se tudo nessa vida fosse permitido - #nofilter. 

Exemplo? Outro dia no treino de futebol do Gael fazia um dia super quente, e trouxeram uma tina de água para as crianças se refrescarem. Enquanto um menino estava lavando a cara na tina, o filho do treinador, de 5 anos, veio por trás e afundou a cabeça do menino na tina, que além de engolir água, levou um susto horrível. O menino ria de gargalhar, enquanto o “amiguinho” chorava. De verdade, sou eu que sou tão sensível como meu filho, ou isso é um absurdo?

Mas o pior não foi nem o que ele fez, pior foi o que a mãe dele fez. Ou não fez. Sem sair do lugar, ela ensaiou uma breve pausa no livro que estava lendo, pediu pro filho pedir desculpas, e acabou, página virada. Sério, se meu filho tivesse feito um negócio desses, ele ia escutar poucas e boas de mim. A gente não machuca os outros de propósito. Não é engraçado. Não é normal. É feio! 

Tem um outro menino na escolinha do Gael, vamos chamá-lo de Ben, que também é uma pestinha. Todo mundo já levou umas bordoadas do Ben. O mais curioso de tudo, é que nunca duvidei da educação que ele recebe em casa, porque a mãe dele é simplesmente a mulher mais fofa e gente boa da escola inteira. Sou super fã dela.

Até que outro dia, caiu a ficha para mim: fofa, gente boa e frouxa.  Estávamos, eu e ela, buscando os meninos na escola, e eles estavam todos animados contando que brincaram disso e daquilo mais no recreio. Então o Ben começa a dar os detalhes torpes da brincadeira: eles tinham fugido do Max, o Max não podia brincar. O Max ficou o recreio sozinho. Hahaha! O Max chorou. 

A mãe do Ben escutou aquela história como se a gente tivesse falando da previsão do tempo. Afinal, claro, ela não precisa se preocupar muito: ele é a mãe do Ben e não a do Max. Seu único comentário foi: “ Ah… como as crianças podem ser cruéis às vezes”. 

Bom, eu não sou especialista em educação infantil e não sei dizer até que ponto uma certa agressividade faz parte do desenvolvimento das crianças. Mas para mim, pessoalmente, tem uma coisa meio óbvia aí: a gente não faz com os outros o que não gostaríamos que fizessem com a gente.  Naquele dia, o Gael escutou um belo discurso na linha "e se você fosse o Max, você ia gostar?" Mas eu desconfio que para o Ben a história acabou por ali.

Sim, existem crianças com a personalidade mais forte, mais destemidas, mais competitivas, enfim mais “apimentadas” mesmo. Mas na minha opinião, criança que pinta e borda com os outros está precisando de orientação, está faltando alguém puxar o freio.  Hoje eles se divertem deixando o amiguinho de fora da brincadeira, amanhã eles estão fazendo parte de algum episódio bem macabro de bullying, e os pais e mães vão se perguntar: “Como foi que isso aconteceu???” Como? Pois eu te explico: de duas uma, ou seu filho nasceu com algum desvio de comportamento mesmo, ou - o que é bem mais provável - faltou uns belos “puxões de orelha” nessa história aí. 

É difícil admitir para si mesmo que tem alguma coisa meio torta na educação do nossos filhos. Criar filho é difícil para caramba. Sou muito dura? Sou muito mole? Onde é que devemos deixar correr solto e onde é que a gente tem que apertar as rédeas? Mas tem coisa que está na nossa cara e a gente não quer ver. Se dói admitir que nosso filho precisa aprender a se defender, deve doer mais ainda admitir que nosso filho deve parar de atacar. Há quem diga que prefere que o filho bata do que apanhe, mas eu desconfio que essa abordagem não é lá muito inteligente. Ninguém consegue ser feliz de verdade às custas dos outros.

O mundo pode até ser dos mais fortes, mas a felicidade verdadeira, é só para quem aprende a cultivar o bem. E quanto antes a gente aprender essa lição, melhor para a gente mesmo.

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria e do Gael. Até hoje, quando ela perde o brinquedo, tem o ímpeto de sair distribuindo uns tapas, mas aos 40 anos já aprendeu a se controlar um pouco. Um pouco. 

Mães imperfeitas, uni-vos!

Mães imperfeitas, uni-vos!

7 perguntas para o escritor Jorge Rio Cardoso: "Nenhuma criança consegue ter sucesso escolar se a sua vida for só escola e estudo"

7 perguntas para o escritor Jorge Rio Cardoso: "Nenhuma criança consegue ter sucesso escolar se a sua vida for só escola e estudo"