Matou o peixe e foi ao cinema

Matou o peixe e foi ao cinema

Meu irmão teve a ideia de dar um aquário pros meus filhos. Eles estavam perturbando por um bicho de estimação, no melhor estilo “deixa que a gente cuida”. Claro que não engoli essa nem por um segundo. Mas acreditei como uma pata no tio deles, que se comprometeu com a limpeza mensal. O fofo veio uma vez. Duas. E de-sa-pa-re-ceu. As crianças passaram do status “se estapeando pra ver quem vai dar a ração hoje” para “cagando baldes” em dois segundos. E o aquário sobrou para quem? Pesca os peixes com redinha, passa pra uma vasilha, tira as plantas e pedrinhas, o filtro da bomba, a grade do fundo, lava tudo, monta de novo, enche com água nova, pinga o anti-cloro, deixa um tempo, volta com os peixes pro aquário. Tudo isso pra ver uns serzinhos nadando pra lá e pra cá, ignorando solenemente nossa existência.

De vez em quando um fazia a passagem. Às vezes iam levas inteiras. Era quando as crianças se lembravam deles. Aí era uma comoção. E culpa. Sim, porque além de tudo que eu já faço na vida, meu novo trabalho era evitar que isso acontecesse. E toca de ligar pro irmão pra descobrir onde eu errei. Muita comida? Pouca? Troca a ração? Água muito quente no verão do Rio? Hã? Além da limpeza, tem que trocar 30% da água uma vez por semana? Isso ninguém falou! Trocar também o filtro da bomba? Alguém já xingou a sua mãe hoje? Eu sei que é a mesma que a minhaaaa! Desliga o telefone. Culpado, o tio fazia o quê? Trazia novos peixinhos! Renovando assim todo o maldito ciclo da vida.

Pra piorar, a mãe de uma amiguinha da escola decidiu dar de lembrança um peixe beta. Um beijo enorme pra essa querida, em nome de todas as mães da turma. Sua orelha deve ter ardido um bocado nessa noite, não? Risos. De nervoso. O peixe veio com o ex-marido, no colo do filho todo encharcado. Que legal, disse eu. Assim você vai ter um aquário na casa do papai também. O pai disse que não, ele não tinha como cuidar. Oi? Então por que aceitou o brinde? Ele queria tanto! Diante de minha recusa, seguida de ameaça de fatiamento de ex com descascador de legumes, a criança fez beicinho. E eu tive que engolir mais essa. Pra quem não sabe, betas não se misturam com outros peixes. É um assassino nato. Portanto, a escrava Isaura de Nemos aqui passou a ter DOIS aquários. Foi a gota d’água desclorificada.

Proibi o tio de trazer novos peixes. Sem renovação, aquilo haveria de ter um fim. Segui cuidando do cardume, torcendo para que fossem logo ao encontro dos antepassados. A mãe natureza é mãe também, escutaria minhas preces. Com o tempo, todos se foram. Até restar apenas um. Dia da limpeza. E eu travada da coluna, que conste nos autos. A ideia de passar por aquela trabalheira toda por um mísero peixinho soou surreal. Foi aí que a música de Psicose começou a tocar na minha cabeça. Minha mãe sugeriu jogar na privada, sem as crianças verem. E foi assim que descobri que meu peixinho japonês não fugiu. Não, eu não conseguiria. Seria dar descarga em todos os livros de psicologia infantil que li. Conversei com o caçula e expliquei que sozinho, sem amigos, aquele pobre neon ficaria muito triste. Deveríamos devolvê-lo para a natureza. Ele relutou, mas acabou aceitando. E lá fomos pro parque ao lado da minha casa. Criei um texto fofo, de despedida. Filmei tudo, como prova de defesa futura. E jogamos o peixinho num lago, como heróis.

Funcionou, trauma evitado. Despachei o aquário pra casa do tio, após dois longos anos, aliviada. Dias depois, fui mostrar o vídeo pra uns amigos. E foi aí que descobri o quão psicopata eu havia sido. “Ele vai ser mais feliz aí. Estamos fazendo isso para o bem dele. Poderemos visita-lo sempre que quiser”. Se voltasse a gravação ao contrário, certamente seria possível ouvir a voz do capeta. Eu não era melhor que minha mãe. Sabia que o peixe não sobreviveria nem um dia ali. Não era para o bem dele, era para o meu. Portanto, meritíssima, membros do júri, sou culpada. Eu matei aquele peixinho. Eu sou um beta! Em minha defesa, queria dizer que, se eu fosse ele, escolheria viver meia hora naquele lago, cercado de vida, sol, natureza, do que levar uma vida inteira contemplando plantas de plástico. Quem sabe ele encontra uma Dory que o leve de volta a seu pai? Não? Me perdoem, se for possível. Não sou uma assassina. Apenas uma mãe que vive no limite da exaustão. O que é quase a mesma coisa. 

Em tempo: o peixe beta continua vivo. Ainda.

 

Claudia Gomes é roteirista de TV e cinema, mãe da Pilar, de 11 anos, e do Vicente, de 6 anos. Separada, mora no Rio de Janeiro. E ama bichos (na casa dos outros). Para ver mais textos dela, visite a página da Claudia no Facebook.

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