Precisamos falar sobre mulheres que se arrependem de terem tido filhos

Precisamos falar sobre mulheres que se arrependem de terem tido filhos

Antes de mais nada eu preciso deixar claro que eu não estou aqui para julgar ninguém.

O assunto tem página no Facebook com mais de 4 mil seguidores: “I regret having children” (Eu me arrependi de ter filhos). E segue uma lista de causas e relatos. Pessoas que se dizem cansadas, sem paciência, sem jeito para lidar com crianças, incapazes de amar, sem ânimo para educar, decepcionadas com o que estão vivendo. 

Os relatos me assustam e me comovem. Não podemos ignorar o que se passa com uma mãe assim. E ninguém pode ficar pressupondo que se sentir dessa forma significa estar sendo negligente com o filho. É um sentimento muito difícil. E não se trata de depressão pós-parto.

Mas mais triste do que sentir isso, dever ser não poder falar sobre isso. Infelizmente na nossa sociedade machista, dizer que o pai “desistiu” ou se “arrependeu” não é tão estarrecedor quanto falar isso de uma mãe. Pai ausente tem aos montes e ninguém os crucifica. 

É um grande tabu, uma mulher admitir esse tipo de coisa. Mas há um crescente grupo de mães, em grande parte ignorada em todo o mundo, que está confessando seu pesar sobre ter filhos. De acordo com uma publicação recente na Marie Claire americana, este movimento começou há quase 10 anos, quando a francesa Corinne Maier, psicanalista, escritora e mãe de dois filhos, em Bruxelas, escreveu abertamente sobre seu próprio arrependimento: “40 razões para não ter filhos”. O livro foi descrito por críticos como "uma exibição egoísta e catártica" e "incrivelmente desagradável."

Nunca, jamais, em nenhum texto do nosso blog, já dissemos que a maternidade (ou paternidade) é algo fácil, simples, banal. É um trabalho cheio de privações. E que às vezes a gente até pensa em sair correndo, que muitas vezes a gente chora no banho ou sentada na privada seja de exaustão ou medo. 

Mas como é que se convive com um arrependimento a partir do momento em que você colocou no mundo um ser, que durante algum bom tempo vai olhar pra você, esperando ser cuidado por você? Não dá pra ir lá na loja devolver. Não dá pra desistir.

Mulheres que pensam assim precisam de apoio, suporte, um abraço, um carinho, terapia, aconchego, uma amiga e tudo de melhor que eu consiga imaginar. Fui consultar uma psicóloga sobre o assunto. Tania Guimarães é especialista em desenvolvimento infantil. Em todos os seus atendimentos em consultório ela nunca se deparou com uma mãe que deliberadamente se assume como arrependida. “Mas já atendi mães que não conseguem desenvolver a maternagem. Ou seja, que têm dificuldades na função materna com relação a afeto, responsabilidades e comprometimento”, explica Tania.

A psicóloga considera fundamental que essa mãe receba um tratamento. “Acho que ela precisa da escuta de um terapeuta e precisa trabalhar sua dificuldade no desenvolvimento da função materna ou ainda trabalhar outra dificuldade ou transtorno que ela tenha e acaba projetando no filho”, conclui a psicóloga.

Olhar meus filhos, por mais canseira que eles me dêem diariamente, é ter algum conforto de que a minha existência já fez sentido. Eu desejo de verdade que todas as mães do mundo consigam ter uma sensação assim.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 11 anos, e de Alice, de 5 anos. Eles moram em Washington-DC.  Ela espera que o texto traga reflexões importantes, afinal, gerar um ser humano não é qualquer coisa.

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