Mulheres gostosas logo depois de parir – quem são, onde vivem, do que (não) se alimentam

Mulheres gostosas logo depois de parir – quem são, onde vivem, do que (não) se alimentam

Você quer me ver espumando de raiva, cruze comigo numa banca de jornal vendo alguma revista com famosa na capa e a seguinte manchete: “Fulana mostra a boa forma, vinte dias depois de dar à luz”. Tenho vontade de juntar umas mães e fazer um esguichaço de leite materno na porta da editora, seguido de um campeonato de arremesso de fraldas sujas. Mas prefiro canalizar minhas energias para alguma ação positiva. Por isso, me limito a escrever. E amaldiçoar todas as famosas que se prestam a esse papel, porque eu não sou um espírito tão evoluído assim. Que ardam no mármore do inferno, por prestarem esse desserviço à humanidade.

Não se trata de inveja. Ok, não SÓ de inveja. Não sou contra a boa forma materna e tenho certeza que a mulherada NÃO comeu o pão que o diabo amassou, pra ficar assim logo depois de uma gestação (afinal, pão é uma bomba de carboidratos e contém glúten). Palmas pra elas. São ossos do ofício de quem vive da própria imagem. Minha treta é com os sentimentos terríveis que uma notícia (???) dessa causa na pobre mãe da vida real. Eu, você e sua prima. As outras 99% que viveram ou estão vivendo o oposto disso: o pós-parto de uma mortal. A certeza absoluta que o corpo deu perda total. Marreu. Que aquela pele murcha da barriga que está indo até o joelho será assim para sempre. Para essa amiga-mãe-caminhoneira, uma capa assim é um atestado de incompetência. Uma tatuagem de “mãe baranga” na testa. Um mortal kombat na autoestima, já tão combalida.

Deixa eu te contar, flor de maracujá: não entre nessa. Você é a normal. A bizarra é ela. Que ficou 23 horas sem comer na gravidez, porque uma nutricionista maluca inventou essa dieta (fatos reais, vamos poupar processos evitando o primeiro nome, que começa com D e o sobrenome que é o oposto de molhado). Claro que existem maneiras mais saudáveis de não estragar tanto o corpo na gravidez e recuperar a forma no pós. Mas a grande maioria dessas atrizes/cantoras passa a gestação inteira e os primeiros dias do recém-nascido mais preocupada em não ter uma celulite na bunda, do que com a saúde do bebê. E dá o mau exemplo contando essas maluquices numa revista de grande circulação nacional. E isso é o que elas contam! Imagina aquilo que elas têm vergonha de admitir? Tipo: que uma boa parte delas já dá um esticadão na barriga na hora de fechar o zíper da cesárea.

Eu sou a favor do direito ao embarangamento total e irrestrito durante a gravidez. Eu sentia a fome de três estivadores maconheiros juntos, todos os dias. E já estava privada de tanta coisa, ainda ia regular a comida? Eu não! Depois de alguns meses (anos) de vida das crianças, ralei (e ralo até hoje) o orifício na ostra pra recuperar um mínimo de dignidade. Porque o corpo dos 18 anos eu não tinha mais expectativa nenhuma de reaver. E com calma, sem pressa. Que cobrança é essa de estar em forma 15 minutos depois de postar um ser humano no mundo? Eu queria ficar agarradinha aos meus filhotes, tentando entender direito como era esse negócio de ser mãe. Não fiquei a fim de sair correndo pra nutricionista, cadimia, ou sessões de choques no culote. Sabe, eu até tento ser um espírito mais evoluído e não julgar. Mas tem uma conta que não fecha pra mim. Se a mãe tá no Cross Fit, em cima da balança ou tendo as celulites espremidas por uma esteticista, quem está com o recém-nascido?

A barriga mais escura e murcha volta pro lugar, com paciência e alguma disposição. (A Xuxa mentiu pra você, tá? Monange não resolve) Se não pro mesmo lugar de antes, pelo menos pra um melhorzinho do que no pós-parto. Os quilos ganhos (vinte em cada, no meu caso) você pode se empenhar pra perder depois. SE essa for a sua vontade. (Amamentar ajuda, mas comigo também não resolveu). Aos poucos você vai achar um tempinho pra ir à manicure ou fazer a sobrancelha, nem que seja em casa. Até hoje não foi registrado nenhum caso de morte por falta de esmaltes nas unhas. Mas o tempo que você perde pensando que seria mais feliz se fosse aquela moça da capa, em vez de estar cheirando a careca do seu bebê, esse não volta nunca mais.

Claudia Gomes é roteirista de TV e cinema, mãe da Pilar, de 11 anos, e do Vicente, de 6 anos. Separada, mora no Rio de Janeiro, é péssima na cozinha, mas boa de drinks. Para ver mais textos dela, visite a página da Claudia no Facebook.

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