"Se a nota não for a esperada, elogie o esforço", diz especialista em educação.

"Se a nota não for a esperada, elogie o esforço", diz especialista em educação.

Elé é um dos autores de livro que mais vende em Portugal. Uma referência sobre Educação. Jorge Rio Cardoso é professor no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Aveiro e economista do Banco Central de Portugal. No tempo vago (!), ele percorre o país dando palestras em escolas.

Com carinho pelo Brasil (que já visitou várias vezes, passeando ou palestrando), ele gentilmente respondeu às perguntas do nosso blog sobre essa relação tão delicada entre alunos, pais e escola rumo ao desafio de aprender.

1. O que é preciso para ser "o melhor aluno”?

A comparação para cada aluno não tem que ser feita com os outros colegas, mas consigo próprio. Ele deve procurar ser melhor do que aquilo que ele próprio era há um mês ou há um ano. Assim ele precisa de ter quatro capacidades principais: 1. Organização (ter bem programado tudo o que vai fazer, incluindo tempo de lazer); 2. Método de estudo (técnicas a serem aplicadas e que dependem do ano escolar em que o aluno se encontra); 3. Criatividade (não se limitar a apenas ler/ouvir, mas transportar o conhecimento para outras realidades); 4. Motivação (sem motivação, vão faltar forças para a execução das tarefas).

2. Qual a principal razão para o insucesso escolar e como resolvê-la?

Nos meus estudos identifiquei sete razões. Resumidamente são as seguintes: falta de motivação, falta de foco, falta de atenção e concentração, dificuldade de interpretação, pouca criatividade, falta de responsabilidade e autonomia, falta de disciplina e regras. De todas elas a mais comum é falta de motivação. Para vencer este problema, eu aconselho os pais a motivarem o filho em relação à vida. Se ele estiver motivado para a vida, também estará para o estudo. Os pais não podem esquecer que uma criança triste nunca consegue aprender. Assim, a vida do filho deve incluir atividades lúdicas de que ele próprio goste, intercaladas com atividades escolares. Seja esporte, música, teatro, dança, artes...  Nestas atividades ele irá ganhar auto-estima e importantes competências.

3. Como os pais podem ajudar para que os filhos não se sintam pressionados?

A forma dos pais ajudarem é dar confiança naquilo que os filhos estão fazendo: em relação à escola, aos professores, aos colegas, às matérias estudadas. Nunca devem compará-los com os que têm nota 10. Como já disse, comparação deverá ser sempre consigo próprio. Os pais devem exigir que eles se esforcem. Não é só se concentrar na nota, mas na forma com o filho chega a essa nota: como faz os resumos da aula ou do livro? Como faz anotações? Como se prepara para as provas? E o dever de casa? Se tudo isto estiver bem feito, a boa nota aparecerá. Os pais devem manter um equilíbrio entre a pressão natural para que os filhos se esforcem mais (mas a nota não será o indicador desse esforço), e cuidar para não irem longe demais com essa pressão. Se, por exemplo, o filho se esforçou, mas a nota não foi a esperada, isso deve dar lugar a um elogio em relação ao esforço. E depois analisar com o filho no que ele pode melhorar.

4. Você concorda com o fim do dever de casa para crianças do ensino elementar? Brincar é fundamental?

Há uma regra básica em Educação: bom senso. O dever de casa pode existir, mas nunca em quantidade exagerada que não deixe tempo para a criança brincar. Brincar é também uma forma de aprender, estimula zonas do cérebro ligadas a criatividade. Nenhuma criança consegue ter sucesso escolar se a sua vida for só escola e estudo. E nem estou falando de jogos. Brincar é uma atividade não estruturada, um gesto anárquico, uma porta para a imaginação que será importante pela vida toda. A ideia básica do dever de casa é que o aluno vá ganhando os chamados “hábitos de trabalho” e também autonomia e responsabilidade. Nas crianças menores o dever de casa pode existir mas em doses muito pequenas para que nunca, mas nunca mesmo, a criança fique sem tempo para brincar e se socializar com a família. Eu diria que os deveres de casa podem começar a existir a partir dos 12 anos, mas desde que os vários professores que pedem os deveres estejam sintonizados uns com os outros. 

5. As escolas tradicionais estão falidas? Qual seria a escola ideal?

A escola tradicional tem apostado muito (eu diria em excesso) na avaliação sumativa, baseada nas notas e na discriminação de muitas crianças que perante os resultados se sentem excluídas e marginalizadas. As reprovações no fim do ano só pioram o cenário. As escolas se preocupam muito com a transmissão e avaliação do conhecimento e menos com outras competências. Eu defendo que nos primeiros anos de escolaridade a avaliação deva ser formativa. Os alunos devem sobretudo ganhar competências básicas: respeito pelos outros, respeito pelas diferenças, saber ouvir ou saber trabalhar com os outros, por exemplo. O conhecimento é importante, mas deverá vir sempre depois destas competências. Temos que formar jovens para a cidadania. A escola tem que ser um local onde as crianças gostem de estar, onde aprendam quase sem se darem conta, interiorizando conhecimento de forma prática, se preparando para a vida. Mas isto não exclui a questão de ser uma escola com exigências, regras e disciplina. Apenas não será uma escola repressora (e em alguns casos castradora), como no passado. 

6. Conseguir um diploma é garantia de sucesso?

Ter um diploma é cada vez menos garantia de sucesso. Mais do que ter um “canudo”, em que são valorizadas sobretudo as chamadas hardskills (competências relacionadas com o diploma), interessa, na perspetiva das empresas e organizações, as softskills, isto é, as competências para trabalhar em grupo, criar empatia com os outros, buscar a solução dos problemas em cooperação com os colegas, não arranjar intriga, ser firme ou ser assertivo, por exemplo. Muitas organizações procuram saber o passado dos candidatos em situações muito diversas: alguma vez fizeram voluntariado? E esporte? E música? Elas querem pessoas equilibradas emocionalmente e solidárias dentro e fora da organização.

7. Que postura devem ter os pais num mundo onde todos, a começar pelos nossos filhos, acham que sabem tudo só porque acessam um “Google"?

A postura dos pais deve ser sempre de buscar tranquilidade, naquilo que eu chamo nos meus livros de Cidadania Familiar. Baseada no diálogo, no respeito mútuo, na partilha de tarefas, na análise conjunta dos problemas, nos afetos. Não precisamos elevar a voz para nos fazermos respeitar. Desde cedo temos que dizer aos nossos filhos que na internet podemos ter informação, mas esta não é necessariamente verdadeira e assim temos de possuir sempre um pensamento crítico em relação a ela. Não nos interessa apenas a informação superficial, precisamos de aprendizagem profunda que nos leve da informação ao conhecimento, e deste à sabedoria. Por exemplo: se eu souber a humidade relativa do ar agora, isto é uma informação. Se eu conseguir concluir que esta humidade relativa é sinônimo de chuva iminente, isto será conhecimento. Agora se eu tiver um comportamento preventivo, que me leve a usar guarda-chuva, isto será sabedoria. Não podemos achar suficiente que nossos filhos estacionem na informação de um Google, temos que nos esforçar para que eles possam chegar ao conhecimento e de preferência à sabedoria.

O mais recente livro de Jorge Rio Cardoso, "Este ano vais ser o melhor aluno. 'Bora lá?", pode ser comprado clicando aqui.

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