Ser mãe no Japão: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe no Japão: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Dando sequência a nossa série de textos sobre as impressões de uma mãe do que é bom, ruim e mais ou menos vivendo longe do Brasil, aqui estão os pontos de vista de Eliane Almeida, que morou no Japão por quase dois anos e acabou de retornar ao Brasil. Casada, ela tem dois filhos, Erick, de 16 anos, e Enzo, de 15 anos. Agradecemos a Eliane pela super colaboração!

O que é bom?

Nós sentimos seguros: você pode deixar a bolsa aberta no metrô, andar com jóias, deixar o Iphone em qualquer lugar, que ninguém rouba ninguém. Na prática, os policiais japoneses se ocupam apenas em orientar pessoas perdidas e coletar objetos perdidos. Isto teve um impacto muito grande nos meus filhos. O que eles mais sentem saudade no Japão é a liberdade de ir e vir sem medo. 

Há trem, metrô e ônibus com horários precisos. Chegar a um endereço é tranquilo desde que você aprenda a lógica. As ruas não têm placa com nome e o número das casas não está em sequência, mas na ordem em que foram construídas. No Japão não precisamos de carro. E dentro do quesito segurança, meus filhos pegavam sozinhos qualquer transporte público. O mais velho chegava a ir para fora de Tóquio por conta própria, competir nos jogos de vôlei pela escola. O cartão do metrô serve também para os outros transportes e como cartão de débito. Ele podia comer em várias lojas de conveniência espalhadas pela cidade.  

O outro meio de transporte muito usado é bicicleta. Eu tinha uma elétrica pois no Japão há muitas subidas e descidas. Eu usava para fazer compras no mercado perto. As mães japonesas vão de bicicleta com filhos pequenos para todo lugar. As bicicletas têm cadeirinha de criança na frente e atrás. Muitas mães ainda levam o bebê em slings presos na frente do próprio corpo.

As escolas japonesas são muito bem equipadas, oferecem esportes e atividades extras até as 4 da tarde e às 5 horas toca uma música em alto-falantes em todo o Japão, avisando que é hora das crianças voltarem pra casa. Desde muito pequenas, elas vão e voltam sozinhas da escola uniformizadas. As crianças menores usam uma mochila preta padronizada, tradicionalmente presenteada pelos avós. Elas também usam um aparelhinho celular especial, conectado aos números de telefone dos pais e com um botão que elas podem apertar em caso de perigo, que emite um som bem alto. É um localizador, uma maneira de monitorá-las fora de casa.

Mercado com tudo prontinho. É muito fácil se alimentar no Japão. Os japoneses da capital não costumam fazer comida em casa. Os supermercados e lojas de conveniência vendem comida pronta. Isso facilita muito a vida das mães japonesas. E a minha também. Apesar de querer cozinhar, eu só me preocupava em fazer uma carne. Eu comprava os acompanhamentos já prontos e fazia o arroz na panela de arroz japonês, super rápido. 

Pessoas muito solidárias, educadas e prontas pra servir sempre sorrindo. Foi importante para mim ver os meus filhos terem contato com um povo que preza: a ordem, a limpeza, o respeito ao próximo e o sentido de coletividade. Desde deixar o vaso sanitário limpo para a próxima pessoa que vai usar até tirar férias apenas para se voluntariar em serviços humanitários. Eles aprenderam isso com as guerras e catástrofes. Meu filho, muito ligado em noticiário, ficou encantado de acompanhar a solidariedade japonesa diante de um terremoto que houve numa cidade próxima de Tóquio.

O que é ruim?

Vivemos constantemente na iminência de acontecer um terremoto e por isso precisamos ter sempre um kit de sobrevivência montado, além de um treinamento periódico que todos são obrigados a fazer. Eu entrei num simulador para experimentar o nível 7 de terremoto, que foi o da última tragédia. Os japoneses se lembram do terremoto de 11 de marco de 2011 como os Estados Unidos se lembram da derrubada das torres gêmeas. É muito vivo isto pra eles, pois foi o mais recente e devastador.

A ameaça da Korea do Norte é assunto em todos os jornais, isso também assusta. Nas escolas, se algo acontecer, existem planos de fuga a seguir e todas as construções têm um refúgio para as crianças.

A língua japonesa é complicada, são 3 alfabetos: Hiragana, Katakana, Kanji. Difícil de entender, difícil de explicar. E para nós estrangeiros, existe o japonês aprendido do nosso alfabeto romano. Meu filho mais velho aprendeu a escrever e fala um pouco. Eu tive muitas aulas com uma professora fofa (ela me chamava de “Eriane” - eles não conseguem pronunciar o “L”)  e aprendi a me comunicar apenas no básico. Os japoneses apreciam se você consegue falar alguma coisa na língua deles.

Custo de vida alto
É caro morar no Japão. O custo de vida é alto. Aluguel, impostos e fazer compras no mercado são caro. Eles têm umas frutas especiais e imagina: uma melancia pra dar de presente pode custar até 250 dólares!

A pressão sobre as crianças. É muito triste de ver o quanto os pais exigem dos filhos da pior maneira. É muita competição em tudo, não apenas nas notas escolares. Você vê uma criança fazendo uma apresentação, por exemplo, mas nem imagina o quanto ela foi massacrada pelos pais para fazer tudo impecável. Até os pequenos não escapam: as mães japonesas competem entre si até pra ver quem faz o bentô (a marmita) com o lanche mais criativo e bonito. Eu tinha uma amiga que acordava às 5 da manhã para fazer. Meus filhos não conviveram com isso pois além de estudarem numa escola internacional, tínhamos muitos amigos estrangeiros. Mas dói ficar sabendo (sim, acontece com certa frequência!) do suicídio de adolescentes que se jogam na linha do trem!

 O que é mais ou menos?

As escolas internacionais são uma opção cara, mas a única para famílias estrangeiras com filhos que não sabem japonês e estão apenas por algum tempo no Japão. Elas são poucas e as regras destas escolas não são bem claras, elas podem simplesmente dizer que não aceitam o aluno. Quase nenhuma escola internacional matricula crianças que não falam inglês. Eu tive sorte pois meus filhos são fluentes em inglês.

A formalidade japonesa. Mesmo que nos tornemos amigos, os japoneses não expressam sua amizade como nós, pois eles não abraçam, nem apertam as mãos. Tudo é muito pela expressão facial e corporal, sem toques. As mulheres na capital são clássicas e andam quase sempre muito arrumadas; ninguém vai de bermuda e chinelo ao mercado. Esse padrão cansa um pouquinho para o dia a dia de uma mãe.

Bônus: Nós, brasileiros, somos super bem vistos pelos japoneses em Tóquio. Eles sabem, por exemplo, que a colônia japonesa em São Paulo é a maior comunidade japonesa fora do Japão e além disso: eles amam o Zico e a nossa MPB, que é tocada em muitos lugares (mercados, restaurantes, shopings).

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