7 perguntas para o obstetra Fernando Cunha: ele dança com as pacientes e defende o parto humanizado

7 perguntas para o obstetra Fernando Cunha: ele dança com as pacientes e defende o parto humanizado

Ele tem 30 anos e faz parte de uma geração de obstetras que tem lutado para que o parto humanizado seja uma prática comum no Brasil. Apaixonado pela profissão, ele trabalha em dois hospitais públicos e um particular, em Vitória, no Espírito Santo. Num plantão de 12 horas, chega a fazer até 15 partos! Fernando Guedes da Cunha ficou famoso nas redes sociais por desenvolver uma dancinha com suas pacientes durante o trabalho de parto. Sobre trazer vidas ao mundo, ele diz: "Sempre tenho na minha cabeça que o respeito à autonomia da mulher é muito importante. Eu só assisto o nascimento, a mulher faz o principal". Veja o que mais ele pensa nesta entrevista exclusiva para o blog: 

1- De onde veio a ideia da dancinha no pré-parto? E qual foi a repercussão?

A ideia da dança surgiu de uma paciente que viu um vídeo e pediu pra gente dançar também no trabalho de parto dela. Eu prometi que ela podia ensaiar que eu ia dançar com ela! Ela tentou muito um parto normal na primeira gravidez e não conseguiu. Ela estava num estágio de muita dor e apreensão, assim a dança veio pra favorecer, tanto o trabalho de parto quanto o psicológico dela. Obviamente, os movimentos já existiam. O próprio Ministério da Saúde tem um cartaz espalhado pelas maternidades com as posições que as pacientes devem fazer em trabalho de parto: agachar, caminhar, ou seja, a dança só juntou todas as posições. Mas infelizmente não são todas que estão aptas a isso. Em primeiro lugar o desejo da paciente tem que ser respeitado. Há pacientes de alto risco, com sangramentos intensos, placentas próximas ao colo do útero ou aumento da pressão arterial ou com diabetes descompensada. Então essas pacientes para você avaliar uma atividade mais intensa requer um cuidado muito maior. Não adianta propor fazer uma dança pra descontrair se esta paciente fizer uma hipotensão ou uma elevação da pressão arterial, complicar o parto e evoluir pra cesariana. Não é essa a nossa finalidade. Cada paciente tem que ser avaliada da forma mais individual possível.

2- O que voce acha do trabalho das doulas? E de quem prefere dar à luz em casa?

Eu defendo o parto humanizado. Acho que as doulas ajudam muito. É um conforto psicológico muito grande e elas também ajudam nos exercícios. Pra mim, o trabalho de parto é feito em equipe: doula, médico, profissional de enfermagem e família. Dessa forma o trabalho de parto tende a andar muito melhor. O parto domiciliar ainda está em crescimento no Brasil. Em algumas cidades, ele já acontece mais. Em Vitoria, por exemplo, ainda são poucos, até porque não tem uma regulamentação por parte do Conselho Profissional dos Médicos. Se hoje a paciente opta pelo parto domiciliar, ela tem que ter um pré natal muito bem realizado, com chance de complicação muito baixa. Sem nenhum eventualidade durante a gestação, com todos os exames normais, sem alteração de pressão arterial e glicemia. Que o trabalho de parto venha de maneira expontânea e que qualquer complicação que ela apresente nesse parto domiciliar ela deve ir para o hospital. Ela deve ter consciência de que o desejo dela de parir em casa não pode ser maior do que a segurança do filho que ela traz. De preferência estar próxima de um hospital e que ela esteja com profissionais qualificados para acompanhar e reverter possíveis problemas que venham a ocorrer. 

3 - Há muitos médicos que já na primeira consulta avisam que só fazem cesária. Você acha que esse padrão está mudando?

Eu acho que a própria formação nos hospitais universitários públicos e federais, ela está voltada mais para a humanização. O governo tem tentando inclusive incentivar esta questão com benefícios financeiros em hospitais que atingem determinadas metas. Eu acho que tem evoluído essa consciência para o parto humanizado. Obviamente que a luta é muito grande. Eu moro em Vitoria hoje, mas já dei plantão em hospital em Guarulhos, São Paulo, em que eu fiquei horrorizado com os partos, feitos de uma maneira muito traumática ainda. Mas há bons exemplos no setor público, como o Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, uma referência nacional em parto humanizado. Todo mundo quer ir lá pra conhecer o trabalho deles. 

4- Você participou recentemente de um Simpósio do Parto, em São Paulo. O que foi falado lá que seria interessante você contar para as gestantes?

O Siaparto hoje é o maior simpósio de parto humanizado que existe no Brasil. Já é o terceiro ano que eu vou. Este ano houve inclusive mesas tentando legalizar o parto domiciliar. Antigamente a gente ouvia da paciente esperar duas horas quando está com dez centímetros de dilatação, ou seja, já com o bebê pra nascer, e as pessoas achavam isto um absurdo. Hoje a nova diretriz sobre parto humanizado do Ministério da Saúde fala em esperar de 3 até 4 horas. O Siaparto é pioneiro ao discutir questões da obstetrícia que de início parecem polêmicas, mas que os estudos mostram trazer bons resultados porque há sempre evidências científicas.

5- Na sua opinião, qual a maior dúvida que uma gestante tem em relação ao parto e que você poderia esclarecer?

Geralmente a maior dúvida da paciente é se ela vai ter a famosa “passagem” e se vai sentir muita dor. Eu costumo dizer que a passagem, na verdade, a paciente só vai saber se entrar em trabalho de parto. A gente precisa acompanhar a dilatação do colo do útero, a descida do bebê pra saber se ele apresenta estrutura que passe na pélvis. É muito difícil o bebê não passar na pélvis. Nós estamos falando de 95% das vezes a paciente tem passagem, o que pode faltar é um pouco de paciência de quem está lidando com o parto de aguardar que as coisas aconteçam dentro do seu tempo. Cada bebê tem o seu tempo para nascer. Com relação a dor, a gente tem medidas farmacológicas e não farmacológicas pra alívio. E aí eu falo sempre para a paciente que depende do que ela quer como proposta de parto. Ela quer um parto onde ela permita uma analgesia com remédio ou ela quer um parto natural sem medicação? E aí nós vamos trabalhando no que ela se propõe.

6- Muitas mulheres sonham com o parto normal. Mas há algumas que, por questões de saúde dela própria ou da criança, não conseguem. O que você pode dizer para estas mulheres não se sentirem frustradas? 

Eu costumo dizer para as minhas pacientes que se aquela gestação precisa ser cesariana, já que o bebê pode correr risco ou ela própria, é aquilo que está reservado para a vida dela, se ela acredita em Deus é o que Ele reservou para ela. Então, em outra oportunidade ela pode tentar um parto normal. Eu acredito que Deus sabe o que cada mulher precisa para o próprio crescimento pessoal. 

7- Para aquelas que evitam o parto normal sem nenhum motivo, o que você pode dizer a estas mulheres?

As mulheres que querem cesariana eletiva, eu peço para que elas repensem. Eu acho que a natureza é sabia, então se ela tem condições de ter parto normal, eu acho que ela tem que pensar. Porque a recuperação é fantástica, a amamentação depois é muito melhor. E na cesariana existem muitas complicações, ela tem que ser aplicada em casos emergenciais e naqueles casos em que você realmente não tem como trabalhar com o parto vaginal.

Para quem não viu, esta é a dancinha mais recente do Dr. Fernando com uma paciente, a Camila, antes do filho, João, nascer. Agradecemos ao nosso entrevistado por ter nos autorizado a divulgação do vídeo aqui. 

 

 

 

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