Ser mãe em Israel: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe em Israel: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ilana Lerner Kalmanovich é carioca, tem 39 anos e vive em Israel há 10 anos, numa cidade no centro do país chamada Kfar Saba, a 15 minutos de carro de Tel Aviv. No Brasil, ela se formou em Educação Física e Nutrição. Morar em Israel sempre foi seu sonho. Tem 3 filhos: Doreen, de 5 anos, Erik, de 4, e Nicole, de 5 meses. O marido, Shai, é israelense, mas fala bem português. Agradecemos a Ilana pelo seu depoimento.

O que é bom?

O imigrante judeu ganha direito a cidadania no momento que aterrisa no aeroporto, incluindo as crianças. O governo dá curso de hebraico, apartamento num centro de recepção até você arrumar casa, ajuda de custo e você pode fazer curso universitário e até mestrado gratuitos. As escolas possuem um departamento de atendimento a imigrantes, que oferece ajuda de adaptação e aulas extras do idioma (hebraico). Em alguns lugares há voluntários que vão a sua casa contar histórias infantis da cultura israelense para seus filhos.

Muita coisa é feita para crianças. As prefeituras oferecem programações infantis gratuitas. Na minha cidade, os eventos acontecem na praça municipal bem do lado da minha casa. Três vezes por semana, tem teatro, shows ou workshop de artesanato. No verão, a prefeitura monta sempre uma "praia" na praça pública: descarrega quilos de areia, coloca cadeiras, guarda-sol, piscininhas de plástico e brinquedos. Tem também uma coisa interessante: casas e apartamentos são construídos com as tomadas a pelo menos um metro do chão para que bebês que engatinham não enfiem o dedo. São detalhes que fazem diferença.

O sistema de saúde e de educação são totalmente públicos e de excelência (não é a toa que há vários prêmios Nobel). As marcações de médicos são feitas pela internet. O sistema de educação público começa aos 3 anos de idade e vai até o final do ensino médio. É a mesma qualidade em todas as cidades, sendo assim, não há preocupação de procurar uma escola boa. A única coisa que as difere é o nível de religiosidade. Quando inscrevemos os filhos pela internet no novo ano escolar pelo site da prefeitura, escolhemos se queremos ou não ensino religioso.

Em Israel se preza muito pela maternidade/paternidade. Dependendo da empresa, o pai também ganha licença. A mãe quando volta a trabalhar, ganha o direito de “uma hora de amamentação” por dia, garantida pelo governo até os 7 meses do bebê. Em geral, as empresas também entendem a dinâmica de uma pessoa com família e oferecem menos horas semanais e horários flexíveis de entrada e saída, bem como licença no caso de filho doente.

Israel fica na fronteira entre Europa, Ásia e África. Sendo assim fica relativamente barato conseguir fazer viagens interessantes e curtas com toda a família. Este ano já viajamos todos juntos para a Lituânia e também para Romênia (minha bebê já conheceu dois países no exterior).

O que é ruim?

Como qualquer pessoa que mora no exterior, estar longe da família é muito ruim. Cada vez que penso que meus filhos estão crescendo longe da avó, dos tios e das primas de quase a mesma idade, me dá um aperto no coração... também não estar nos jogos de futebol do meu time é bem amargo para mim. Eu amo futebol e sou botafoguense doente! 

Uma coisa muito difícil é você entrar no mercado de trabalho se você vem de área de saúde (como eu). É obrigatório passar por uma prova do Ministério da Saúde depois que seus documentos são todos checados e aprovados (diploma, estágios, etc). Só então você pode começar a procurar emprego na área pública.

Há muito julgamento e o povo se mete muito na criação dos seus filhos. Não só amigas, mas pessoas na rua, do nada. A verdade que Israel é uma “mega aldeia” onde todos são “irmãos”, então, todo mundo se acha no direito de se meter, principalmente na educação dos pequenos. “Por que sua bebê está chorando? Ela deve estar com fome, você não vai dar comida?”. Aprendi a balançar a cabeça, abstrair e fingir demência, senão eu ia mandar muita gente pastar diariamente e não ia sobrar espaço para as vacas!

O que é mais ou menos?

Todos são obrigados a servir o Exército a partir de 18 anos, moças (por 2 anos) e rapazes (por 3 anos). Muitos seguem a carreira militar depois. Eu acho que temos que nos doar um pouco para o país que nos abraça com tanto carinho, por outro lado, são nossos filhos que estão treinando para nos defender e a possibilidade de uma guerra? Isto é apavorante.

Ainda assim, o terrorismo é um tema muito abordado pelos meus amigos no Brasil. Mas nós não vivemos angustiados com isso, vivemos uma vida normal. Não sentimos que vivemos num país tão mal falado pela mídia neste sentido. A cada atentado que tem no país, todos se comovem bastante, mas no dia seguinte a vida segue normal. Não me interpretem mal, é triste a questão, mas estando aqui somos obrigados a continuar, né?

Aqui não tem a cultura da “empregada doméstica”. Cada um cuida da sua casa, das suas coisas. Desde cedo as crianças aprendem a arrumar quarto, cama, limpeza. Na creche já aprendem a “cozinhar”. Independência é uma palavra muito comum aqui – e para mim como mãe, meio assustadora!

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