Ser mãe no Chile: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe no Chile: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Isabela Vargas é de Porto Alegre e jornalista. Depois de cinco anos de namoro à distância, ela se casou com um chileno. Desde 2012 mora em Santiago e tem uma filha de 2 anos. Agradecemos a Isabela pelo seu depoimento. 

O que é bom?

O Chile é um dos países mais seguros da América do Sul. Moramos no centro de Santiago e gosto muito de andar a pé com a minha filha. Jamais tivemos ou vimos qualquer episódio de violência.

Santiago é uma cidade super arborizada e em todas as comunas (bairros) você encontra pracinhas para as crianças. Outro ponto bem favorável é o incentivo à cultura, com muitas atividades infantis.  Na nossa comuna, há festivais de música e de teatro gratuitos nos parques e basta conferir pela internet a programação.

A biblioteca de Santiago tem uma “guaguateca” (a palavra guagua, em mapudungun - língua Mapuche, dos povos originários do Chile - significa bebê), que é um espaço para crianças de 0 a 4 anos, ponto de encontro de muitas mães. Tem banheiro adaptado com trocadores, móveis pensado nas crianças (colorido e acessível para pegar os livros e ler), brinquedos, instrumentos e todos os dias tem "a hora do conto". Os museus têm entrada grátis nos domingos para os chilenos e ficam lotados!

O Chile é um país cada vez mais multicultural. Atrai imigrantes de países vizinhos como Haiti, Bolívia, Peru e Venezuela, por exemplo, e de outros continentes, como Índia, Europa e Ásia. Isto acontece por conta da estabilidade política, econômica e social do país. Considero isto super positivo porque quero que minha filha aprenda a conviver com outras culturas e a respeitar cada uma delas.

A oportunidade do bilinguismo. Meu marido fala em castelhano com a Gabi e eu, o português. Apesar dela passar a maior parte do tempo comigo, ela está formando cada vez mais frases em espanhol! Fico feliz porque ela entende tudo o que falamos nos dois idiomas.

Uma das coisas mais lindas aqui no Chile é a diversidade de paisagens. De Santiago é possível chegar em apenas duas horas à montanha (que fica nevada durante o inverno) e ao litoral, onde estão cidades charmosas como Valparaiso e Viña del Mar. É super prático fazer um passeio de fim de semana de bate e volta, ou até mesmo passar o dia fora de Santiago com as crianças e curtir uma paisagem diferente ao ar livre. Eu adoro.

O que é ruim?

O Chile é o país mais sísmico do mundo e, além disso, tem os dois vulcões mais ativos da América do Sul (Villarrica e LLaima). Eu estava aqui no último terremoto, em setembro de 2015, quando minha filha tinha seis meses. Eu moro no décimo nono andar, não chegou a ser tão traumático mas foi um grande susto! 

O sistema de saúde pública no Chile é precário, então, o ideal é ter um plano privado. Nós temos porque meu marido trabalha numa empresa que oferece o benefício, mas é caro. Outra questão é a dificuldade de encontrar um bom pediatra, mesmo para quem paga plano de saúde.

Já visitei uns dez profissionais e ainda não encontrei nenhum que fosse atencioso como eu gostaria. Uma pediatra que eu fui e nunca mais voltei queria que eu deixasse de amamentar minha filha quando ela completou um ano porque, segundo ela, o peito a deixaria birrenta (!). Percebo que é uma queixa geral das mães aqui: os pediatras não incentivam a amamentação e as consultas são super rápidas. 

A poluição é um problema bem grave não apenas em Santiago mas em outras regiões do país, por conta do uso de chaminés com lenha no inverno (sul) e de incêndios no verão (litoral). A qualidade do ar durante todo o inverno é monitorada e nessa época há rodízio de carros. As crianças penam com problemas respiratórios. Eu e Gabi somos alérgicas e sofremos bastante.

Encontrar uma escola no Chile é um drama porque aqui quem escolhe o aluno é a escola e não o contrário. Isto mesmo! Todo mundo sempre fala dos bons índices do Chile em comparação aos países vizinhos e, realmente, existem bons colégios, mas são caros. Desde o jardim de infância, os pais precisam fazer um verdadeiro lobby para conseguir vaga para os filhos. Você tem que conhecer alguém que te recomende para fazer a matrícula. No caso da Gabi, a creche fica junto à igreja dos imigrantes e conhecemos um padre brasileiro. Por isso, chegamos na creche com ele nos recomendando. O famoso q.i. (quem indica). Algumas escolas ainda exigem cartas de referência, comprovantes de renda familiar, histórico escolar dos pais e até entrevistam as crianças!

O fato do Chile ser um país atraente para os imigrantes gerou uma onda de xenofobia. Geralmente, os episódios mais violentos envolvem haitianos, mas também sobra para os outros. No meu caso, já ouvi comentários do tipo “ainda por cima, vem roubar nossos homens”. É complicado. Me faço de tonta para não me estressar porque sei que o problema não é comigo e sim da pessoa.

O que é mais ou menos?

Em cinco anos de Chile, fiz poucas amigas chilenas. Minha sorte foi ter encontrado grupos virtuais de mães brasileiras onde fiz grandes amigas. Mas muitas acabam sendo amigas virtuais, pois estão em outras cidades e complica se você precisa de uma ajuda “presencial”. Então, na hora do aperto, eu digo que precisamos contar mesmo é com os nossos maridos. 

O mercado de trabalho chileno não é muito receptivo para as brasileiras. Diferente de outras imigrantes, como argentinas e uruguaias, temos o problema do idioma que pesa na hora da contratação. Os salários são baixos (mulheres ganham aqui quase 30% a menos do que os homens!) e vejo que muitas mulheres preferem abrir mão de trabalhar fora, já que não compensa sair de casa e deixar os filhos com outra pessoa. Por outro lado, tenho observado que isso é um estímulo para que a gente busque alternativas. Eu mesma já dei aula de português para estrangeiros e também faço bolos para vender. Sou colunista de um site no Brasil e trabalho em casa monitorando redes sociais para uma agência de publicidade chilena com clientes brasileiros. Tive que me reiventar aqui para seguir na ativa. 

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