Ser mãe nos Estados Unidos: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe nos Estados Unidos: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Nada nesta vida é só bom ou só ruim, e a experiência da maternidade em um país estrangeiro também não ia ser diferente. Usando o mote “bom, ruim e mais ou menos”, vamos começar uma série sobre a maternidade em vários países do mundo. E claro, os primeiros depoimentos serão sobre os Estados Unidos, que eu escrevo aqui,  e sobre a Alemanha, assunto para a Camila num próximo texto.

O que é bom?

Meus filhos têm amigos de todas as raças, religiões e convicções. Isto pra mim vale muito. Eles aprenderem na prática que cada um tem seu jeito e que todos devem ser respeitados como são é muito importante. Claro que eu morar numa região bem multicultural do país facilita as coisas. O melhor amigo do meu filho é negro, no próximo mês ele vai como convidado participar de uma cerimônia do Bar Mitzvah de um colega da escola e outro dia ele foi jantar na casa de um colega mulçumano. Meus filhos não vêem a mínima lógica de existir, por exemplo, gente racista no mundo e eu tenho muito orgulho disto. 

A liberdade de ir e vir pela vizinhança não tem preço. Eu moro num bairro relativamente pequeno e com muitas crianças. Elas transitam a pé, de bicicleta, ou de patinete até a casa dos amigos vizinhos ou até o parque e estão em segurança. Elas não sentem medo de brincarem na rua. 

Meus filhos têm uma escola pública de qualidade. As escolas públicas daqui podem ser péssimas ou muito boas. Tudo depende da área que você mora. Na região em que eu moro, as escolas têm um ranking com notas 9 e 10. A Associação de Pais e Mestres tem uma força incrível. Todos os pais fazem doações para manter os projetos da escola. Mas em termos de obrigação, a gente não desembolsa mais do que 200 reais por filho para comprar o material escolar anual, sendo que o material didático é fornecido pelo Governo. 

O bilinguismo! Tinha me esquecido de falar sobre isso até que alguém citou nos comentários aí abaixo. Claro! Falar dois idiomas é maravilhoso, mil pesquisas confirmam isso, e meus filhos são fluentes em português (porque a regra em casa é só falar português) e inglês. Além do mais, eles não ficam parecendo ETs quando vão ao Brasil pois se comunicam perfeitamente.

O senso de voluntariado e o "faça você mesmo" são muito fortes. Desde muito pequenas as crianças têm responsabilidades: numa escola por exemplo, quando acaba as aulas, não existe sujeira no chão, nem cadeiras espalhadas. Cada criança limpa seu espaço e guarda sua cadeirinha em cima da mesa, mesmo os de 5 anos de idade! As responsabilidades dependendo de cada idade servem para criar um senso comum de que ninguém deve depender de “empregados”. A cena de pedir para alguém lhe servir um copo d’água é surreal na maioria das casas. O lixo lá fora, o arrumar a cama, o catar folhas no outono é algo natural que a maioria das famílias imprime nos filhos desde pequenos. Para ganhar créditos para o acesso à universidade, os estudantes da ”high school”  têm obrigatoriamente que fazer trabalhos voluntários. E independente disso, os americanos são bons em ajudas comunitárias: vaquinha para várias coisas, maratonas beneficentes. 

O que é ruim?

Faltam abraços e beijos. Especialmente minha filha menor sente muita falta. Não tem jeito. Nós, brasileiros, somos um povo afetuoso e o americano, com algumas exceções, não demonstra que gosta de você dessa forma. Na maioria das escolas, a regra do “não contato” é levada bem a sério, porque eles têm muito medo de qualquer sinal que possa supor uma situação de abuso. É claro que eu não estou querendo que os meus filhos saiam abraçando estranhos, mas não conseguir ser afetuoso nem mesmo com quem você já conhece é chato pra mim.

O temor por conta de atentados. Não há como se sentir confortável com isso. Meus filhos enfrentam anualmente na escola uma rotina de treinamentos de como se comportar no caso de um atentado. Há americanos ricos que já compraram bunkers no caso de existir uma guerra nuclear. Tudo parece muito difícil de acontecer, mas não é algo impossível.

Eu não tenho amigas americanas. Eu tenho conhecidas, pessoas bacanas, pessoas que convivo, mas amigas, amigas… Estou aqui há 6 anos e logo depois do primeiro ano caiu a ficha de que eu precisava de uma comunidade brasileira. Portanto hoje, eu não sei se acontece com todo mundo, mas as minhas melhores amigas, aquelas que eu posso realmente contar na hora do sufoco: são brasileiras. Eu não sei explicar porque isso acontece comigo, já tentei entender. Mas talvez falte, pra mim, uma química de cumplicidade que eu só consigo ter com as brasileiras.

O que é mais ou menos?

O clima frio dá pra aguentar. Washington-DC tem uma característica interessante quanto ao clima. Temos desde um calorão de 40 graus a la Rio de Janeiro (no meio do ano) a um frio que pode ser do cão entre dezembro e março. Há alguns anos eu diria que o frio é algo terrível, afinal vim de um país tropical. Hoje eu já cheguei ao estágio de considerar isto mais ou menos. A gente acaba se adaptando ano após ano. Então aquele aborrecimento imenso que eu já tive de ter que me armar de gorro, luva, cachecol, bota, casaco… agora já levo com menos irritação e até curto a moda inverno. Mas claro que prefiro o calor.

As pessoas serem ignorantes quanto ao Brasil. Invariavelmente quando eu digo a alguém que sou brasileira, eles dizem: “Oh, Brazil!”. É mais ou menos irritante ver que a pessoa não tem ideia do que existe no nosso país, acha que é um lugar apenas do “samba e carnaval” e ainda pensa que eu falo espanhol. Ok, não é algo grave. Hoje eu já tento tirar de letra e até ajudar a pessoa a entender o Brasil do qual eu vim. Mas não deixa de ser chatinho as pessoas saberem tanto do Brasil quanto sabem de Marte.

Tudo é contado, na maioria das vezes. Sabe aqueles almoços de família de domingo ou aquele aniversário no Brasil, onde falta espaço na mesa pra tanta comida gostosa? Pois é, pois por aqui tudo é c-o-n-t-a-d-i-n-h-o. Não que eu vá concordar com desperdício, mas eu sinto falta das opções. Festinha de criança é 1 cupcake + 1 fatia de pizza + 1 bebida pra cada uma das crianças. Se os donos da festa forem muito camaradas até perguntam se os pais que acompanham os filhos querem um pedaço de pizza, mas tudo parece tão numerado, que na maioria das vezes os pais recusam. Como se fosse uma heresia comer do que tem na festinha da criança. Aí não tem como eu não ficar sonhando com: coxinha, empadinha, quibe e nossa variedade de docinhos… (puxa, um cajuzinho!).

Não ser daqui e não estar mais lá. Eu jamais vou deixar de ser brasileira, mas não estou lá no dia-a-dia. E ao mesmo tempo, mesmo vivendo a realidade daqui, não sou uma cidadã americana. Meu status aqui, por conta do trabalho do meu marido, é um status diplomático. Tipo: eu não voto, mas vivencio as consequências de quem está no Governo aqui. Essa sensação de pertencer a um lugar mas estar em outro não é um drama pra mim, mas é algo mais ou menos. Vamos dizer que isso melhora quando vou ao Brasil uma vez por ano ou recebo a minha família por aqui (e tenho a sorte deles nos visitarem sempre) e piora quando a saudade aperta!

Fabiana Santos é de Brasilia e hoje mora em Washington-DC. É casada, mãe de Felipe, de 12 anos, e de Alice, de 6 anos. Ah… ela esqueceu de contar algo muito bom: tem uma lojinha brasileira há 20 minutos da casa dela. Ontem ela foi lá e se esbaldou com um guaraná, uma coxinha e um pastel. 

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