Ser mãe na Noruega: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe na Noruega: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Juliana Linares Øverland tem uma filha de 2 anos, Beatriz, é casada com um norueguês e eles moram há cinco anos em Stavanger, na costa oeste da Noruega. Ela é de Belo Horizonte, mas viveu muitos anos no Rio de Janeiro. É atriz e advogada além de professora de inglês, português e teatro. Agradecemos a Juliana por compartilhar suas impressões de mãe fora do Brasil. 

O que é bom?

Parto Humanizado é a especialidade daqui.  No início eu tive medo de parir com uma parteira desconhecida de plantão (pois aqui funciona assim), mas depois entendi que eles sabem o que fazem. A sala de parto é aconchegante com cama de casal para o pai participar. Fiquei na banheira até acabar de dilatar e pari a minha filha na cama. Ela ficou em cima de mim por um bom tempo, sentindo meu cheiro, procurando e encontrando o peito. Só depois ela foi pesada e medida, ao lado da minha cama.

Apoio de outras mães. O Posto de Saúde promove palestras para as mães que tiveram bebês recentemente. A partir daí, formamos um grupo de mães e nos reunimos para almoçar na casa de uma de nós uma vez por semana. Isto foi a minha salvação. Poder compartilhar experiências, tirar duvidas com mães mais experientes, ter apoio emocional, sair de casa. Até para os bebês esta interação é boa. Somos amigas até hoje. 

Licença Maternidade e Paternidade. O maior foco da Noruega é a família. As mães podem tirar até um ano de licença maternidade e os pais têm 10 semanas de licença, a partir do momento que as mães voltam ao trabalho. Por isso é tão comum ver os papais com carrinhos de bebês, passeando pela cidade com os filhos a tira colo. Isto fortalece os laços afetivos, sem contar que eles compreendem bem melhor na prática o trabalho que um filho dá.

O sistema nas creches é excelente. Há três funcionárias num grupo de 9 a 12 crianças. Higiene é fundamental. Uma creche foi fechada pelo governo recentemente porque as funcionárias não conseguiam tranquilizar e confortar as crianças que choravam, além de não estimular o desenvolvimento motor delas com o uso de talheres, por exemplo. Creches são pagas, mesmo as públicas os pais contribuem com uma parte.  

Segurança. Aqui as crianças maiores vão andando pra escola sozinhas e têm liberdade pra brincar na rua. Eu, por exemplo, não tenho medo nenhum de passear com a minha filha pelas florestas. Muito comum as mães deixarem os bebês dormindo dentro do carrinho, em sacos de dormir apropriados, do lado de fora da casa, por exemplo. Todas nós fazemos isto por praticidade: evitar que a criança acorde ao ser tirada do carrinho e também porque os carrinhos, com as rodas sujas da rua, não entram em casa.

A máxima entre os noruegueses é “não existe tempo ruim, apenas roupas inapropriadas”. Por isso eles prezam tanto aproveitar o tempo ao ar livre, faça chuva (e frio) ou faça sol. 

O que é ruim?

Aqui chove e venta muito e é escuro no outono e inverno. O sol nasce as 9 da manhã e se põe às 4 da tarde. A gente tem que fazer um esforço pra não se deprimir. Investir numa casa aconchegante, convidar os amigos, cozinhar. 

No verão, com temperatura em torno de 15 graus, não passando de 27 graus, há muita luz. O problema é que o sol se põe lá pelas onze da noite. Imagina convencer a minha filha que está na hora de dormir 19:30, com o maior dia lá fora? Lá pelas 4:30 da manhã lá vem o sol de novo. Isso eu acho chato e ainda não me acostumei.

Apesar de todo o serviço de saúde ser público, não existe um pediatra que acompanhe a infância da minha filha. Há uma enfermeira pediátrica que dá as vacinas e orienta sobre amamentação, alimentação, crescimento, desenvolvimento. Mas se a criança está doente leva-se ao clínico geral. E direto para o hospital se é feriado ou fim de semana, porque não existe ter o celular de nenhum médico. As farmácias só abrem durante os dias da semana, depois só fica uma de plantão em horário limitado.

A distância da família dói. Meus pais moram no Brasil e dariam tudo pra poder conviver com a gente e ver minha filha crescer. Sinto muita falta deles, dos primos, tios e meus amigos amados. Sinto falta do sol do Brasil, do calor humano, de jogar conversa fora com desconhecidos na fila do supermercado ou no elevador, de ouvir o vendedor de sucos dizer que estou sumida, me chamar pelo nome e me oferecer meu açaí favorito.

O que é mais ou menos?

As várias camadas de roupas. Ainda não sei como consigo levar a minha filha na escolinha ou no médico, por exemplo, no horário marcado. Eu preciso colocar nela blusa, calça, meias, cachecol, gorro, botas de chuva, casaco, e ainda por na mochila luvas a prova d´água. Eu mesma muitas vezes deixo ela pronta pra sair e esqueço de mim (saio sem cachecol ou sem gorro e, no inverno, se sair sem luvas, as mãos congelam!). Eu costumava voltar da porta umas 6 vezes pra pegar algo que esqueci, mas estou melhorando… 

A frieza(?) das pessoas. Aqui não é comum abrirem a porta pra você quando alguém está saindo ou entrando. Eles são muito práticos. Cada mãe que dê conta de empurrar loja adentro seu carrinho de bebê. Fui aprendendo a mudar isto com um sorriso pidão ou mesmo falando “por favor”. Aí eles ajudam com boa vontade. Apenas não é automático, você precisa realmente pedir. 

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