7 perguntas para a ativista Daniela Ligiero: "Precisamos quebrar o silêncio sobre a violência sexual contra crianças".

7 perguntas para a ativista Daniela Ligiero: "Precisamos quebrar o silêncio sobre a violência sexual contra crianças".

Daniela Ligiero é diretora executiva da “Together for Girls”, uma organização público-privada, com sede em Washington-DC, dedicada ao fim da violência contra as crianças, especialmente a violência sexual contra as meninas. Daniela sabe do assunto e também já foi uma vítima. A organização que ela comanda tem parceria com cinco agências das Nações Unidas, além de governos e organizações privadas de mais de 20 países. Ela recebeu o blog para nos contar sobre esta questão tão difícil que não pode ser ignorada. 

1 - Por que você considera que já está passando da hora de que a violência sexual contra as crianças seja discutida abertamente? 

Uma das coisas importantes para se entender seja a violência sexual contra mulheres, crianças ou adolescentes é que isto é algo que acontece no mundo todo. E, infelizmente, não existe nenhum país do mundo que conseguiu acabar com este problema. Estima-se que entre 20 e 30% das meninas menores de 18 anos em todo o mundo já foram vitimas de violência sexual (três vezes mais, em geral, do que os meninos). Os dados entre meninos estão entre 7 a 10%. Estes números, mesmo sendo chocantes, seriam muito maiores se não fosse o tabu e o silêncio.

2 - Como conseguir evitar a violência sexual contra crianças?

É preciso quebrar o silêncio. Precisamos dar espaço para que as vítimas consigam falar. Há estudos hoje em dia provando que desde muito cedo é preciso conversar com as crianças. A coisa de forçar a criança a dar beijo, por exemplo, não é legal. O corpo é dela. Mesmo crianças de 4, 5 anos precisam saber que ninguém pode tocar no corpo delas, elas precisam saber que o corpo delas pertence somente a elas e que elas podem contar pra alguém de confiança quando esse espaço for violado. Os estudos apontam que metade das crianças que passam por episódios de violência sexual não contam pra ninguém. Imagine então se aquelas que falam ainda recebem uma reação negativa? Quem ouve a criança geralmente não acredita nela e a primeira pergunta que surge é “O que você fez?”. Absolutamente nada que a criança tenha feito justifica o crime de violência sexual. Não dar crédito é frustrante. Os estudos mostram que o fato ser uma mentira acontece raramente, em apenas 5% dos casos. 

3 - Quem são os abusadores de crianças?

A violência sexual é uma questão de poder. Pessoas com mais poder vitimizando com menos poder. É muito importante as mulheres virem com isso à tona neste momento na mídia e nas redes sociais. As meninas que estão começando a adolescência estão muito vulneráveis, é fundamental haver um espaço de discussão sobre isso. Os estudos comprovam que 90% da violência sexual acontece com pessoas próximas, que a criança conhece. É o cuidador, o técnico do esporte, professores, parentes próximos, pessoas da comunidade religiosa. A coisa do estranho na rua abordar não é o mais comum. O “x” da questão é: Porque você ensina para a criança não entrar no carro de um estranho e não toma cuidado dentro de casa? É preciso abrir espaço para a criança ficar o mais a vontade possível para relatar qualquer coisa que a deixe incomodada. É um mito achar que a violência sexual contra crianças acontece somente entre a população de baixa renda. O que acontece é que a população de alta renda denuncia menos. 

4. Quais as consequências para uma criança que é abusada fisica ou sexualmente?

As sequelas dependem do tipo de abuso e por quanto tempo isso ocorreu. Não podemos generalizar. Mas há uma série de sequelas graves: depressão, sucídio, problemas de desempenho escolar. Além de gravidez e doenças sexuais. Há estudos que mostram que o cérebro de uma criança que sofreu violência muda pra sempre, ele não se desenvolve da mesma maneira. 

5. Qual a principal recomendação para que a gente proteja os nossos filhos?

A premissa é conversar. Se você se sente desconfortável para falar deste tipo de assunto com seus filhos, imagina o que é para uma criança encarar algo suspeito que esteja acontecendo com ela? A criança precisa ter uma rede de pessoas confiáveis para se sentir confortável e poder contar qualquer coisa desses temas “tabus”. Os pais também precisam saber conversar com os meninos para que eles saibam como se comportar com relação às meninas. É preciso conversar abertamente sobre consentimento, desde pequenos. Um menino não pode querer que uma menina faça nada que ela não queira. A violência sexual entre namorados, que forçam o sexo mesmo quando a adolescente não quer, é um tema que precisa entrar nas conversas da família com os adolescentes.  

6. Onde procurar ajuda no Brasil para crianças que são vítimas de violência?

Existe o número 100 para ligar. Eles tiram dúvidas, recebem denúncias anônimas, encaminham para instituições disponíveis na cidade da pessoa. Eles recebem mais de 100 denúncias por dia e fazem um trabalho muito sério.  

7. Pela sua experiência num assunto tão árduo, você tem alguma história pra nos contar que a sensibilizou?

No meu trabalho eu tenho contato com pessoas do mundo inteiro a respeito desse tema. Algumas me inspiram e me fazem acreditar nesta luta em defesa de crianças e adolescentes. Nós temos parceria com uma ativista na Bolívia, Brisa De Angulo, que foi abusada por um tio quando era criança. Foram anos de abuso sexual, pois o tal tio morava na casa dela. Ela cresceu, se tornou advogada e conseguiu a condenação do tio. E mais do que isto: ela revolucionou o sistema penal na Bolívia, tornando-o mais rigoroso na questão de violência sexual contra criança. A Bolivia deixou de punir apenas 3% dos casos e hoje cerca de 90% dos casos apurados chegam a condenação. E Brisa ainda criou uma organização em defesa da criança e do adolescente.

O feriado em que os americanos fazem questão de caprichar no jantar

O feriado em que os americanos fazem questão de caprichar no jantar

Uma carta para pais e mães de uma UTI Neonatal

Uma carta para pais e mães de uma UTI Neonatal