Minha filha com TDAH: eu vejo nela um poder secreto que vai além das habilidades convencionais

Minha filha com TDAH: eu vejo nela um poder secreto que vai além das habilidades convencionais

Emma e a filha Alice, de 11 anos. (Arquivo pessoal)

Emma e a filha Alice, de 11 anos. (Arquivo pessoal)

Minha filha mais velha nunca fica satisfeita. Ela anda sempre em êxtase. Ela nunca está preocupada, ela entra em pânico. Ela vive completamente cada momento, concentrando-se apenas no que a interessa naquela hora. Ela tem dificuldade em ficar quieta e prestar atenção na professora ou num programa de TV. Quando uma idéia aparece em sua cabeça, ela imediatamente quer colocá-la em prática. Sim, esta é a minha experiência com a minha filha, que bem pode parecer com a de outros pais de uma criança com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou outros distúrbios neurocomportamentais.

Eu digo que a vida é muitas vezes frustrante. É cansativo ter que repetir várias instruções simples, várias vezes. Isto acontece, por exemplo, quando ela constantemente perde coisas (ano passado, ela perdeu cinco casacos de inverno e três lancheiras). É embaraçoso quando ela dá um chilique em público e preocupante quando ela está com problemas na escola.

Ao mesmo tempo, ser mãe de uma criança com TDAH também pode ser maravilhoso. Ela coloca energia e um foco completo no presente, que nós, o resto da família, simplesmente não temos. Sua intensa excitação até pelas coisas mais simples, como uma pedra no meio do caminho ou a música favorita no rádio, é completamente contagiosa. Sua imaginação borbulhante é uma fonte infinita de novas invenções (recentemente foi uma montanha-russa caseira que eu, no último momento, salvei seu porquinho da índia da viagem inaugural).

Infelizmente, ao longo dos anos, muitos professores da minha filha ignoraram seus desafios. Um deles passou um ano sem nunca conseguir ver além dos cortes de papel que ela produzia como resultado de seu Transtorno Obsessivo Compulsivo. Para ele eram apenas papéis recortados aleatoriamente, mas com um pouco mais de atenção ele poderia ter enxergado um possível talento, uma possível utilidade para aquilo. 

Ao longo dos últimos anos, os estudos esclareceram a importância de promover não só habilidades cognitivas dos alunos, mas também suas habilidades sócio-emocionais ( como por exemplo, auto-regulação, oportunidades, trabalho em equipe).  Mas, e as crianças que lutam em ambas as frentes? O futuro delas está condenado? Minha colega, a especialista em Educação, Maria Fernanda Prada, responde a essa pergunta com um ressonante não. De acordo com sua pesquisa, a capacidade é multidimensional, ela não possui apenas uma única dimensão. É algo muito mais complexo do que isso e há algns tipos de habilidade que jamais foram examinadas ou exploradas corretamente, como por exemplo, a capacidade mecânica.

Com base em um levantamento entre jovens nos Estados Unidos, a conclusão é que as habilidades mecânicas (relacionadas à destreza manual, habilidades motoras e visuais) aumentam os ganhos totais de um indivíduo. Isto abre a porta para que outros pesquisadores sigam o exemplo e explorem a capacidade como algo com muitas dimensões.

Enquanto crianças como minha filha ainda enfrentarão momentos difíceis, navegando em um mundo que valoriza tantas habilidades com as quais estas crianças lutam (como controle de emoções, organização, planejamento, tomada de decisão e capacidade de seguir instruções), uma nova pesquisa mostrando que a habilidade é multidimensional é reconfortante. 

A imaginação e a capacidade da minha filha de estar super focada ao construir uma invenção podem se tornar seus poderes secretos. Estas são habilidades que crianças como ela podem usar como blocos de construção para explorar, aprender e contribuir ativamente para suas escolas e comunidades.

Perceber crianças com distúrbios neurocomportamentais e cognitivos como dotadas de habilidades especiais podem ajudá-las a prosperar. Se você é uma mãe, um pai, um avô ou um professor de uma criança com um transtorno neurocomportamental ou cognitivo, procure além dos problemas e desafios e aproveite o tempo para ajudá-las a encontrar seus poderes especiais. Habilidades que elas podem construir e que podem levá-las a se destacar na escola e na vida.

Emma Naslund-Hadley é especialista em Educação. Ela é sueca, mas mora em Washington-DC  há 15 anos. Emma tem 3 filhos: Alice e Clara, de 11 anos, e Noah, de 8 anos. Este artigo foi originalmente escrito em inglês. Agradecemos à Emma por nos autorizar a tradução para o português. 

Nota do blog: A gente achou incrível esta possibilidade de não enquadrar a criança apenas nas habilidades esperadas. Que ela tire boas notas nas disciplinas, que ela saiba prestar atenção... mas que seus talentos, que a primeira vista parecem um problema, possam se reconhecidos como arte, por exemplo, ou como algo útil. Será que o seu filho possui algum desses poderes secretos, ou seja, habilidades não-convencionais? Comente a respeito e quem sabe este texto possa ser útil pra mais gente.

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