Ser mãe na Itália: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Ser mãe na Itália: o que é bom, o que é ruim e o que é mais ou menos

Joana Mendes é carioca, formada em Letras e Artes Cênicas e tem 34 anos. Ela mora na Itália desde 2013. É casada, mãe de Aurora, de 4 anos, e está grávida do segundo filho. Ela trabalha como editora de livros infantis, escritora e educadora em Alfabetização e Português como Língua de Herança, e tem também o blog “O Diário de Aurora”. Agradecemos a Joana pelo seu depoimento.

Aqui uma ressalva dela: “A Itália é um país super diversificado em vários aspectos e, às vezes, o que acontece em uma região é o oposto do que acontece em outra. Assim, tenham em mente o fato de que estou falando a partir de uma micro-cidade do interior da região Toscana, no Centro-norte do país.”

O que é bom?

Na região onde moro todo o acompanhamento da gestante (exames, consultas e alguns remédios) até o parto é gratuito e de boa qualidade. Na gravidez da minha primeira filha fiz um curso pré-parto, com obstetras que explicavam tudo, até o que comprar para o enxoval do bebê, a mala da maternidade e várias coisas das quais eu não tinha a menor ideia. Me ajudou muito pois eu tinha acabado de chegar ao país, estava completamente sozinha, sem família, amigos, ninguém para me ajudar ou orientar. Foi a minha salvação!

O sistema de saúde pública funciona. Todos têm um médico de família e as crianças têm o pediatra que as acompanha regularmente. Mesmo nos dias e horários em que o pediatra não atende, há sempre um pediatra de plantão no hospital e, nas poucas vezes em que precisamos, nossa filha foi super bem atendida.

Outro serviço público de boa qualidade é a educação. Na escolinha da Aurora há vários projetos interessantes, como o lanche coletivo. Os pais pagam uma taxa anual e elegem representante de cada turma e eles fazem as compras com fornecedores locais, que enviam o lanche diretamente para a escola. O cardápio é variado e inclui: iogurte, frutas, biscoito integral. Há também laboratórios de música, artes, ginástica e informática para os pequenos, uma vez por semana.

O terceiro serviço público que funciona bem é a segurança. Na cidade onde moro, que é bem pequena, quase não se vê gente na rua e o máximo que acontece de violência são assaltos às lojas e bares à noite (mesmo assim, não é muito comum). Mas sempre vemos policiais rodando pela cidade e fazendo o controle de tudo.

Temos acesso a uma alimentação saudável, um ambiente super verde e bem cuidado, e para crianças maiores, uma grande quantidade de museus e lugares históricos para visitar e aprender. A Itália é o país com o maior número de cidades que se tornaram “Patrimônio Cultural da Humanidade”, pela UNESCO. Muitas são verdadeiros “museus a céu aberto”.

O que é ruim?

A pior coisa que enfrento aqui é a discriminação. Não sei se as brasileiras de pele branca passam por isso, mas como sou negra e tenho o perfil de estrangeira bem marcado, sempre que boto o pé fora de casa encontro alguém que me trata com ignorância. Também não sei se a discriminação ocorre pelo fato de ser estrangeira, ou porque minha filha é muito pequena e não segue o esquema de “regras” daqui.

Já passei por uma situação em que estava caminhando com Aurora na calçada e uma senhora, quando me avistou, segurou a bolsa e saiu correndo com medo de mim. Também já cheguei com minha filha em um parquinho e vi as outras mães arrancando os filhos dos brinquedos e indo embora (isso não acontece quando meu marido está junto).

Dizem que os italianos daqui são diferentes dos italianos do Sul, que aqui são mesmo mais “fechados” e têm um complexo de superioridade em relação aos estrangeiros. Com o tempo a gente vai aprendendo a não se deixar abater, mas no início é bem complicado.

Outra questão complicada é a expectativa quanto o comportamento das crianças. As crianças daqui parecem “mini-adultas”. Uma vez fui a um evento de “Contação de Histórias” numa livraria e minha filha, que na época tinha uns 2 anos e meio, não parou um minuto. As outras crianças pareciam robôs, todas sentadinhas e quietas. As mães presentes ficavam me olhando de um modo super acusador, como se estivessem me apontando uma arma. Certa vez, na missa de sétimo dia de falecimento do meu sogro, uma senhora desagradável falou em alto e bom som pra gente se retirar, porque “a criança estava atrapalhando a missa”.

Esse é um dos pontos de que mais sinto falta do Brasil, onde as crianças podem ser “crianças”, na igreja ou no teatro, ninguém repreende uma mãe pelo barulho do filho. Falo isso porque já viajei ao Brasil três vezes com minha filha e sempre aproveito para ir a vários eventos com ela, em museus, teatros, igrejas, livrarias etc, e sempre somos bem tratadas.

O que é mais ou menos?

As opções de lazer com crianças pequenas se reduzem a pracinhas e “parquinhos”, públicos ou privados. Há os centros comerciais também, mas não sou muito fã de shopping, então não gosto de frequentar. 

As pessoas se movimentam prioritariamente de carro e o transporte público inexiste depois das oito da noite, o que dificulta a locomoção de quem não tem carteira de motorista como eu. Assim, para quem não trabalha fora - porque não tem com quem deixar o filho - e não tem habilitação e carro, a vida com crianças pequenas acaba sendo “dentro de casa” e os programas em família são “pizzaria” e “sorveteria” - pelo menos de boa qualidade!

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