Apesar de tudo, nós sabemos ser um povo delicado

Apesar de tudo, nós sabemos ser um povo delicado

Li um texto publicado pelo jornal “Extra” que muito me impactou. Foi escrito por um estrangeiro - espanhol - que quase foi linchado na porta do Maracanã porque torcedores brasileiros (se é que podem ser chamados de torcedores) acharam que ele era argentino. Ele correu o risco de ser morto. Foi salvo por um policial. 

O texto é anônimo, há quem diga que possa ter sido inventado. Mas, infelizmente, eu acho bastante provável que isto tenha acontecido: estamos num momento difícil. Falta civilidade, falta bom senso, sobram agressões verbais e físicas pelos motivos mais fúteis (e desde quando agressão se justifica por algum motivo, né?). A história me tocou, não só pelo absurdo, mas por eu também ser estrangeira no país em que eu moro. E uma das coisas que eu pensei foi: Deus me livre ser destratada por quem quer que seja por aqui. 

No mesmo dia que tinha lido o relato do espanhol confundido com argentino no Maracanã, eu conheci uma brasileira numa festa. E não sei porquê a nossa conversa enveredou sobre o jeito diferente e bacana - quando quer - do brasileiro se mostrar. 

Explicando: ela me contou que uma colega brasileira, que ia mudar de área, deixou uma rosa com um bilhetinho para cada colega da antiga repartição do escritório em Washington-DC, agradecendo o tempo juntos e dando seus contatos. Ela também me disse que no Thanksgiving, fez questão de trazer para cada colega do mesmo andar, um sabonete de uma famosa marca brasileira. E que um amigo (também brasileiro) tinha presenteado cada colega, na mesma data, com um "bem-casado" que a mulher dele caprichosamente fez e embrulhou.   

A minha nova amiga me relatou que o comportamento boa-praça dos brasileiros, dados a este tipo de gentileza, surpreende não só os americanos que trabalham com ela, mas também pessoas de outras nacionalidades, incluindo da América Latina. Ela me disse que invariavelmente alguém pergunta pra ela: “Por que vocês (brasileiros) fazem assim?”. Ela me deu a resposta-chave: isto se chama delicadeza.

Realmente, se eu for parar pra pensar, nós, os brasileiros, conseguimos sim sermos absolutamente delicados quando queremos, a despeito do comportamento bizarro num estádio. Ou alguém se esqueceu de que nas Olimpíadas os estrangeiros saíram encantados com a simpatia dos brasileiros? 

Antes desta conversa, eu estava na dúvida sobre qual lembrancinha de Natal eu daria para o pessoal da escola da minha filha. Eles foram muito importantes neste ano para a Alice. Queria algo original e que pudesse demonstrar minha gratidão. Ao mesmo tempo tinha receio de fazer algo caseiro, pois os americanos têm uma certa neura de produtos que não são “comprados prontos”.

Mas investindo com tudo no quesito "delicadeza", resolvi fazer brigadeiros caprichados, numa caixinha de Natal, para cada um. Sem esquecer um pequeno bilhete explicando que além dos devidos ingredientes, eu havia acrescentado “amor”. Entreguei as caixinhas pessoalmente. Teve quem me falou surpreso: "Mas você não precisava ter tido este trabalho". E alguns se emocionaram de verdade.

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC, é mãe de Felipe, de 12 anos, e de Alice, de 6 anos. Ela deseja de coração que delicadeza seja um ingrediente constante na vida de todos (brasileiros ou não) em 2018!

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