Ter uma rede de apoio é fundamental para quem cria os filhos longe da família

Ter uma rede de apoio é fundamental para quem cria os filhos longe da família

Quando vim morar nos Estados Unidos, há 6 anos, descobri um ditado africano muito repetido entre as americanas: “It takes a village to rise a child”. O que significa dizer que “é preciso uma vila para criar uma criança”. E depois que você vira mãe, você descobre que essa frase faz um enorme sentido.

Principalmente se você mora fora da sua cidade ou do seu país, longe de mãe, irmã ou daquela tia que sempre lhe deu a mão, formar uma vila, uma rede de apoio, é um grande desafio. Porque você parte literalmente do zero. Quantas e quantas vezes eu perdi o sono pensando: e se eu ficar doente enquanto meu marido está viajando, e se o carro pifar, e se eu ficar num engarrafamento, e se eu perder a chave (coisa que já me aconteceu!!!)... a gente vive num "e se" o tempo todo. 

Ninguém dá conta sozinha. Não tem jeito. Por mais que o mundo esteja globalizado, por mais que você até possa pagar quem te ajude, ainda que o Google te tire dúvidas e o pediatra do seu filho seja alguém disponível: a gente tem que ter um suporte! A gente precisa ter ao nosso lado gente para os pequenos e grandes apertos. Pessoas que não apenas falem: “pode contar comigo”, mas que realmente estejam na sua porta (ou atenda o telefone) quando a coisa complicar. Sejam amigos, com filhos, cheios de experiência ou aquela amiga descolada que mesmo sem saber fazer uma mamadeira está super a fim de segurar sua barra e passar a noite na sua casa.

Demorou para eu ter uma vila, não foi fácil criar uma rede de amigos numa cidade em que eu não conhecia praticamente ninguém. A língua foi uma barreira no início e tem ainda aquela coisa de que quando você está por conta de um bebê (minha filha tinha 4 meses quando cheguei aqui) você não consegue muito olhar em volta. Mas é preciso. É fundamental ter disposição para, por exemplo, marcar um café com aquela mãe gente boa que você conheceu no parquinho. Ou diante de uma mãe que você vê chegando atrasada e desesperada para pegar o filho na escola, você diga pra ela: "Da próxima vez, pode me ligar... Eu pego ele na escola pra você e depois você pega ele lá em casa, viu?"

Há duas situações que a gente tem que tentar abandonar na hora de montar nossa rede: a de ser retraída demais (eu imagino que para as pessoas mais tímidas é um super desafio) e se considerar auto-suficiente demais. Eu era do tipo auto-suficiente. Vivia repetindo que “não queria dar trabalho pra ninguém”. E pouco a pouco fui descobrindo que essa frase é a maior besteira que uma mãe pode dizer, ainda mais uma mãe fora da sua zona de conforto. Todo mundo precisa de alguém, do mesmo modo que este alguém um dia vai precisar de você. A rede é uma via de mão dupla. Sempre. 

Jamais vou esquecer quando algumas amigas da “minha vila” me deram um suporte incrível por conta da minha filha ter ido parar num hospital. Uma me levava comida quentinha a cada refeição, a outra colocava o celular em punho para gravar o que o médico dizia e passar para o meu marido (que estava viajando) e a terceira (que estava no trabalho) me mandava mensagens o tempo todo dizendo que estava pedindo a Deus para tudo dar certo. Outro dia foi a minha vez de avisar a uma amiga que acabou de ter neném que a minha casa está a disposição dela para ela ficar com o filho quando o marido viajar a trabalho.

E é assim que a vida materna vai ficando menos exaustiva e você vai lidando com os seus medos de “faltar” para os seus filhos. No final das contas, a rede que você consegue formar, seja de uma, duas ou dez pessoas, sejam estas pessoas da vizinhança, da igreja, de um grupo de brasileiros, da escolinha das crianças ou do seu trabalho: ela é a sua família fora da sua cidade natal. E pensar assim conforta e alivia. Eu tenho certeza de que se você observar melhor, vai aparecer quem esteja disposto a te estender a mão. Está cheio de gente bacana no mundo. Eu sou otimista. E se isso já aconteceu… conta pra mim: quem é a sua rede de apoio por aí?

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 12 anos, e de Alice, de 5 anos. Eles moram em Washington-DC. Ela jamais vai esquecer da cara do médico que atendeu a Alice no hospital: ele nunca viu tanta gente em volta - eram todos parte da rede ;)

 

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