Dos 40 aos -40 graus: quando o frio é algo bem relativo

Dos 40 aos -40 graus: quando o frio é algo bem relativo

Foto: arquivo pessoal Giseli Freitas

Foto: arquivo pessoal Giseli Freitas

Como uma pessoa pode morar num lugar onde se enfrenta por dias seguidos a sensação térmica por volta de -40C tendo vivido até os 36 anos de idade num lugar em que temperatura chega a 40 graus? Pois é… eu sou essa pessoa. Sai do forno do Rio de Janeiro há quase seis anos para viver na geladeira de Oakvilke, no Canadá.

E eu descobri que a nossa sensação térmica com o passar do tempo vai se adaptando. Não me pergunte a ciência, se é que há alguma por trás disso, mas é fato que acontece. O ajuste é mais ou menos assim: quando se passa muito tempo nos -40C e a temperatura sobe pra -10C, isto significa uma BAITA variação e o que antes era frio extremo passa a parecer tolerável e QUALQUER coisa acima de 0 graus Celsius é tipo um verãozão com direito a janela aberta, bermuda e picolé.

Com o inverno canadense aprendi que a vida continua abaixo de zero: o bebê ainda deve ser colocado na cadeirinha do carro do mesmo jeito, ainda que esteja -30C ou-40C. O supermercado, a maioria com estacionamento aberto, tem que ser feito, as compras colocadas no porta-malas e o carrinho colocado depois no lugar dele (do lado de fora da loja). Temos que abastecer o carro nós mesmos porque não tem frentista aqui e o cachorro continua tendo que ser levado lá fora pra fazer o que não pode esperar a nevasca passar. 

Eu vejo gente (pouca gente, é verdade) praticando corrida, ainda que tenha muito gelo no chão e muita neve caindo, em temperaturas inacreditáveis. Há pistas de corrida indoor pra quem preferir, mas tem quem prefira o ar livre (congelante). Viu só? É tudo uma questão de referência e talvez o conceito de frio desse corredor de rua seja diferente do meu, que jamais pensei em ir correr lá fora em pleno inverno. 

Um dia, logo que cheguei, com vários centímetros de neve no chão, eu senti cheiro de churrasco e pensei que estava delirando, mas não: era só um vizinho fazendo mesmo o churrasquinho dele na laje! risos… Não foi a única vez que vi isto acontecendo. É muito comum. O churrasco não pode esperar o seu frio passar, então vamos a ele!

Na escola onde minhas filhas estudam há 2 intervalos de 20 minutos pra brincar do lado de fora todos os dias e só se estiver abaixo de -20C , eles são “poupados” de ir lá fora e o recreio é na parte interna. Nos últimos seis invernos, mesmo com dois deles bem rigorosos, a escola só ficou fechada em duas situações.

Tudo bem que há roupas, casacos, botas… tudo apropriado para o clima. Mas se você não mandar as crianças com as roupas certas numa tentativa de driblar a escola e fazer eles deixarem seu filho ficar num lugar fechado... bem, isso NÃO vai acontecer de jeito nenhum. Provavelmente a escola vai te ligar e arrumar dezenas de opções para você conseguir de graça ou bem baratinho bons casacos e botas. Isso aconteceu comigo! 

Minhas filhas amam o inverno rigoroso. Ficam chateadas se eu me recuso a levá-las pra brincar na neve e querem ficar o máximo de tempo possível. Sempre insistem pra ficar “só mais um pouquinho” brincando de descer morros no trenó. E para eu conseguir que a de 11 anos use algum gorro, é uma luta. Ela só aceita colocar se está abaixo de -10 graus Celsius e olhe lá (porque eu tenho quase absoluta certeza de que ela deixa o gorro na mochila na hora do recreio da escola).

O pediatra também é muito engraçado por aqui. O médico com certeza vai sempre lhe perguntar se a sua criança tem tido tempo ao ar livre (mesmo que isso signifique que estejamos enfrentando temperaturas negativas nas quais você jamais imaginou ser capaz de sobreviver). E ele vai recomendar pelo menos 30 minutos “outside” todo dia. 

Quando a minha mãe vem me visitar, geralmente na primavera, ela sai sempre de botas, cachecol, touca e luvas quando faz +15 graus Celsius, e eu de tênis e no máximo um cardigan leve. Ela não entende como eu consigo (e vice-versa) e fica horrorizada de ver como as netas estão (pouco) vestidas “nesse frio todo!”. Afinal, ela nunca passou um inverno aqui e não está aclimatada a ele. O único frio que ela pegou na vida é 15 graus no pior dos invernos cariocas, então pra ela isso é frio! Enquanto pra nós que estamos saindo de quase 4 meses seguidos abaixo de zero: +15C é uma delícia! 

Eu resolvi escrever a respeito da minha experiência, a pedido das meninas do blog, depois que elas colocaram na página do Facebook um vídeo em que as mães davam um banho de balde com água congelante ao ar livre nos bebezinhos, em pleno inverno. E houve uma disparada de comentários execrando as mães: a maioria considerando-as completamente loucas e sem noção. Claro que euzinha não faria isso com as minhas filhas. Mas desde que me mudei para um lugar que nunca imaginei que existia de tão frio, o meu conceito sobre ficar horrorizada com baixas temperaturas mudou bastante. O que me faz concluir que o tal de “sentir frio” (e suportá-lo) é absolutamente relativo!

Giseli Coelho é leitora do blog, dona de casa e mãe de Giulia, de 11 anos, e Olivia, de 4 anos. A cidade dela no Canadá faz parte da Grande Toronto e é considerada uma das mais frias do país. Agradecemos à Giseli por dividir com a gente a sua experiência de "pinguim" brasileira.

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