Para tirar a fralda: não existe milagre, existe paciência.

Para tirar a fralda: não existe milagre, existe paciência.

Chegou a vez da Alice largar as fraldas. Quando eu morava no Brasil, com o meu filho mais velho foi de um jeito tão tranquilo que nem me lembro. Mas aqui nos Estados Unidos, eu percebi que a coisa é mais "profissional", quase um treinamento do exército. Existe uma verdeira indústria de apetrechos e ensinamentos no que diz respeito ao potty training. E como o meu lema sempre foi aproveitar o que pode ser bom (e descartar o que nada tem de parecido comigo) resolvi testar algumas coisas e divido aqui o meu ponto de vista com vocês.

Americanos adoram uma privadinha portátil

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A primeira vez que vi a tal maletinha que se transforma numa privada (Travel Potty) levei um susto: estava no meio da minha ginástica de mães e filhos quando a minha professora sacou a maleta dela e colocou o filho para fazer cocô ao nosso lado enquanto malhávamos. “Ele começou o potty training”, me explicou ela quando viu a minha cara assustada. Numa biblioteca só para crianças perto da minha casa  há até um espaço, num canto perto das estantes de livro, para as privadinhas que cada mãe carrega: um verdadeiro estacionamento de privadas! Pois eu me rendi e digo que esta maleta foi uma das melhores invenções que já vi. Ela se transforma numa cadeirinha com um buraquinho imitando a tampa da privada em que você encaixa um saquinho descartável. Depois do “serviço executado” basta dar um nó no saquinho, arranjar um lixo e fechar a maleta. Não importa onde você esteja, no parque, zoológico e até numa garagem: se o banheiro não existe ou está longe demais, a missão xixi ou cocô vai estar garantida! Justamente porque a ideia é não interromper o processo (catar uma fralda e colocar na criança cria nela a maior confusão).

Americanos têm pressa

Deu três anos, todo mundo fica meio incomodado de ver uma criança ainda usando fraldas (pelo menos de dia, porque de noite se espera mais um pouco). Eu acho que isso coincide com a constante pressa americana de criar filho o mais independente possível (afinal, com 18 anos eles caem fora rumo ao College) e também com a idéia ecologicamente (e economicamente) correta de não ficar consumindo fraldas e mais fraldas. Apesar da afobação de alguns,  a orientação da American Academy of Pediatrics (AAP) é jamais forçar o processo, pois cada criança tem o seu próprio ritmo, e fazer pressão antes do tempo certo pode ser contraproducente.

O incrível mercado do potty training

Um dos produtos disponíveis no mercado infantil pós-fralda é um Ipotty...isso mesmo: uma privadinha com adaptador para encaixar um Ipad. O mais engraçado (ou bizarro?) é que vem com um “splash guard”, ou seja, um protetor para não molhar o Ipad. Eu jamais compraria, mas enfim. Cursos e livros existem aos montes. Cheguei a receber um email de um curso para pais com duração de uma hora e meia. Uma amiga garante que deu certo o programa que ela comprou pela Internet chamado “"Potty training in only 3 days or less" (?!). Pois é... o programa garante que leva o cocô e xixi amado para o lugar certo em três dias... risos. Eu até assisti o vídeo pois estava curiosa e uma das conclusões é que “acidentes” são normais de continuar acontecendo por um bom tempo... Ahhh... então tá. 

Quando chega a hora, muitas crianças usam pull-ups

As chamadas fraldas pull-ups ou easy-ups são usadas por muitas crianças numa espécie de fase intermediária do aprendizado. Eu, particularmente, discordo. Se a idéia é ensinar que é preciso usar a privada pra fazer xixi ou cocô, mas a criança tem o “conforto”de estar com uma calcinha-fralda ou cueca-fralda, que não deixa ela ficar molhada/incomodada, como é que ela vai aprender? Eu considerei então que a tal pull-ups não poderia ficar indo e vindo a mercê da minha conveniência. No primeiro dia de “treinamento” da Alice, jogamos juntas no lixo a fralda que ela estava usando e fiz ela repetir: "tchau fralda durante o dia!". Ela escolheu uma das calcinhas coloridas recém-compradas, vestiu e ficou toda orgulhosa. O que pra mim já foi um primeiro ponto positivo.

Quem acerta o pinico, ganha stickers

Além de paciência (só no primeiro dia Alice gastou oito calcinhas), a tirada de fralda em qualquer lugar do mundo requer alguma dose de incentivo, né? Já que a Alice ameaçou inaugurar um processo-chilique cada vez que eu sugeria a ida ao banheiro, adotei de bom grado uma estratégia de persuasão americana muito comum. A cada ida ao banheiro, Alice ganhava um sticker (adesivo) para pregar numa mini tabela colada na parede do banheiro. A cada cinco stickers pregados, ela ganhava uma surpresinha, que se traduzia num sticker grande e reluzente de um dos personagens do desenho favorito e ela tinha o direito de pregar onde quisesse. Aos poucos ela entendeu o processo e se animou em colar adesivos e contar quantos faltavam para completar os cinco! Minha casa ficou por um bom tempo parecendo um álbum de figurinhas... mas valeu.


Americanos usam o bom humor quando algo sai errado

Ok... Nessa etapa da vida de um filho, a gente já deixou pra trás o nojo de muita coisa. E não vai ser o cocô que extrapolou da calcinha ou o xixi que se esparramou fora da privada que vai tirar o bom humor de uma mãe (ou pai). Vira e mexe um comercial na TV  mostra com graça o assunto. A primeira vez que a Alice sentou na privada (mesmo com o acento específico de criança), talvez estivesse com as perninhas muito abertas, mas o xixi caiu para todos os lados, menos na privada, inclusive me molhando!  Envergonhar a criança quando algo sai errado é a pior coisa a ser feita. (Este site americano tem umas dicas sobre os principais erros dos pais). Pense bem o que é um vaso sanitário para uma criança de dois anos? Uma coisa enorme, que faz barulho e que simplesmente desaparece com o que você põe nele. Não dá pra ser a coisa mais natural do mundo logo de cara.

 Fabiana Santos é jornalista, casada e mora em Washington-DC. Mãe de Alice, de 5 anos, e de Felipe, de 12 anos. Ela sente a maior saudade dessa fase quando vê alguma amiga desfraldando o filho. Dá uma certa canseira mas ficam muitas histórias!

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