Daniel Becker: "Experimentar o tédio é um dos melhores presentes que podemos oferecer aos nossos filhos"

Daniel Becker: "Experimentar o tédio é um dos melhores presentes que podemos oferecer aos nossos filhos"

O pediatra Daniel Becker faz yoga com a família em casa para fugir da loucura do dia a dia. Morando no Rio de Janeiro, seu meio de transporte é uma bicicleta. O inventor da “pediatria integral” é daqueles que se esforçam para manter a “mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Ele defende o que a primeira vista pode parecer estranho: precisamos deixar nossas crianças sentirem tédio e isto não tem nada de absurdo. Mais uma vez no blog, pra mim é sempre uma honra entrevistá-lo:

1. Por que deixar a criança ficar sem fazer nada é importante?

Experimentar o tédio é um dos melhores presentes que podemos oferecer aos nossos filhos. É claro que eu não estou falando para deixar a criança entediada o dia todo! Mas bombardeá-la com atividades e impedir que ela fique sem fazer nada é prejudicar uma parte essencial do desenvolvimento, da personalidade e da emocionalidade da criança. Este tédio é importante para ela aprender a conviver consigo mesma, ser uma boa companhia pra si mesma. Como ela vai conhecer a si própria se fica o tempo todo distraída? É também crucial pra desenvolver a capacidade de auto-estimulação, porque ela vai ter que sair da passividade e ser pró-ativa.

2. Você considera então que sentir tédio ajuda na motivação?

Uma criança motivada ela vai procurar novas experiências, mas uma criança ocupada o tempo todo não precisa. A criança entediada vai ter que criar alguma coisa pra fazer. Ela vai ter que sair do script que lhe é imposto nas brincadeiras, geralmente pelo pai ou pela mãe, sair do joguinho do tablet e criar sua própria atividade. Muita gente se queixa que o filho não é curioso o bastante. Experimente deixá-lo realmente à toa. E leve-o para fora de casa. Depois de um tempo, ele vai começar a mexer nas folhas, procurar pedrinhas, buscar coisas que o motivem. Uma criança que já está muito tempo mergulhada no mundo virtual, ela vai levar mais tempo pra sair desse amortecimento mental criado pelos eletrônicos.

3. Há estudos que provam que o ócio, mesmo infantil, pode ser criativo?

Sim, há estudos mostrando que brincadeiras de baixa intensidade (“low-key activities”), como brincar de ver a folhinha sendo levada pela água da chuva por exemplo, é muito importante para o funcionamento e bem estar mental. Em adultos, um estudo provou que se engajar em atividades que não demandam esforço mental, faz a mente criativa funcionar melhor e pode gerar ideias, solucionar problemas. Um ditado antigo diz que "mente ociosa é oficina do diabo". Eu prefiro dizer que a mente ociosa é uma oficina da imaginação. E já dizia Einstein que a imaginação é mais importante do que a ciência, porque toda grande descoberta científica vem precedida por uma imaginação sobre a questão em si. 

4. Muita gente confunde o brincar com jogos cheio de regras e limites para não se sujar, não fazer isto ou aquilo. O que deve ser realmente o brincar para a criança?

Não há dúvida que certas atividades estruturadas são importantes, o esporte, interação com os pais, aula na escola, tudo isto é importante. Mas o livre brincar também. Acostumar uma criança a se divertir ao ar livre desde cedo é fundamental, bem como brincar sem a participação do adulto. A criança não aprende apenas interagindo com o adulto, ela é capaz de aprender também sozinha. Os países mais avançados do mundo estão deixando mais tempo livre de recreio, invertendo o que acontece nos Estados Unidos e Brasil onde o recreio está sendo substituído por intervalos. Tem escola no Rio de Janeiro que proíbe criança de correr no recreio e elas ficam sentadas no meio-fio trocando whatsapp! O livre brincar permite que a criança explore o mundo, desenvolva habilidades físicas, a coordenação motora, crie empatia, desenvolva a coragem de enfrentar os pequenos desafios, de avaliar os riscos: “será que eu avanço mais um degrau neste trepa-trepa?”.

5. Sobre pais que estão sempre na retaguarda dos filhos: este excesso, mesmo bem intencionado, é ruim? 

Quando eu falo de pais interagindo, não é ficar brincando junto o tempo todo. A criança precisa de tempo sem pai e sem mãe cercando. A interação envolve acordar, dar bom dia, ajudar a escovar o dente, conversar no carro, colocar para dormir, fazer refeição juntos, caminhar até a escola, observar com ela o caminho. Além disso, a criança precisa experimentar frustração. Precisamos dos pequenos erros na infância para lidar com os grandes erros da vida adulta. Pais que não deixam a criança se ralar, por exemplo. A criança que rala o joelho vai ver que a dor aguda vai embora, que o antiséptico arde mas passa, que no outro dia vai aparecer uma casquinha e em alguns dias a pele volta ao normal. Olha quanto aprendizado biológico e emocional por causa de um machucadinho? A dor de ser superprotegido é muito maior. 

6. A gente usa eletrônicos para distrair os filhos porque tem hora que bate o desespero de entretê-los quando estamos ocupados. Como administrar isso?

É usado e dever ser. Os aparelhos digitais são parte importante da vida moderna e podem servir como “babá” eventualmente. Mas a vida não pode acontecer só nestes aparelhos - o mundo real também conta. O problema não é só colocar a criança no tablet para comer ou resolver questão de trabalho. É usar o tempo todo. O aparelho como distração não tem nenhum problema em alguns momentos do dia, alternando momentos de total atenção. Se você deixa 15 minutos no tablet e interage 45 minutos, ok. E se você precisa de mais tempo, por que não fazer o filho interagir com os carrinhos, castelos e bonecos, que é muito mais saudável? Antigamente as crianças brincavam com os seus brinquedos. É só dizer: o tablet quebrou, agora não tem tablet, não sei onde está, vai brincar com os seus brinquedos, vai desenhar. 

7. Como criar filhos mais conectados com o mundo real?

Precisamos ter uma visão muito consciente sobre a nossa atitude com relação aos eletrônicos quando a gente está com nossos filhos e na verdade não está. As crianças estão crescendo sem o olhar dos pais, que está mais no celular do que nelas. E elas percebem isso. É preciso escolher momentos de “não-tela”, de desligamento, de estar integralmente com a criança: em família, em refeições, em passeios. A gente reclama que o filho não sai do tablet, a filha não sai do celular. Mas nós respondemos email no banheiro, nós acordamos de noite verificando mensagem, nós dormimos com o celular na mão. Restringir o uso de telas pelas crianças - que é importantíssimo - tem que vir acompanhado de uma mudança de atitude da nossa relação com eletrônicos. Enxergar de verdade a filha que diz “olha papai, eu vou pular daqui e dar uma cambalhota”, em vez de ficar com meio olho nela e um olho e meio no celular. Esta é a real interação amorosa que temos que trazer pra dentro de nossas famílias. 

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