7 perguntas para a ativista Gabrielle Faria: "As feministas podem ser o que quiserem, inclusive mulherzinhas".

7 perguntas para a ativista Gabrielle Faria: "As feministas podem ser o que quiserem, inclusive mulherzinhas".

Untitled design-9.png

Ela tem a voz docinha, com aquele sotaque mineiro adorável. Mas experimenta apresentar alguma causa em favor das mulheres? Ela vira bicho até conseguir ajudar. Gabrielle Faria é solteira, tem 30 anos e dois filhos: Ísis, de 10, e Hugo, de 4 anos. Empresária, criadora do Nosso Segredo (grupo que fala sobre sexualidade, feminismo, mundo feminino, política e direitos da mulher), coordenadora do Grupo Gestar (Grupo de Apoio a Gestante), coordenadora da “A Hora do Mamaço" em Belo Horizonte e facilitadora da AMS (que trata aleitamento materno). Uma feminista que não foge à luta, com ternura, e quer levar muitas com ela. 

1- Que história bacana de superação você tem pra me contar de alguma mulher que sofreu violência ou abuso?

Tem uma história que mexe comigo de uma moça que me procurou porque era obrigada pelo marido a fazer sexo com ele todos os dias e várias vezes ao dia. Ela se sentia um objeto nas mãos do marido e foi um tanto quanto difícil ela entender que sofria, na verdade, estupro!  É muito mais comum do que se imagina mulheres que fazem sexo sem vontade, por pressão do parceiro, com medo de que eles procurem outra na rua. Pouco a pouco, com muitas conversas, esclarecimentos e artigos sobre o assunto,  ela se deu conta do abuso sexual que sofria dentro do próprio casamento. Ela se tornou dona do próprio corpo e da própria vontade, conseguiu colocar as cartas na mesa pra ele. Foi uma mudança linda de acompanhar. Hoje eles estão bem, numa relação estável. 

2- É difícil uma mulher se reconhecer no papel de agredida? Isso tem mudado?

Ninguém entra em uma relação imaginando o que pode acontecer de ruim. As pessoas entram em uma relação idealizando a fantasia do amor contínuo e verdadeiro, o que é normal e saudável. Mas o convívio com um agressor se torna um ciclo vicioso. É difícil identificar de cara, porque o sentimento se torna algo superior à realidade. Vem o medo de se sentir sozinha, a rotação do ciclo de ser agredida, acarinhada, agredida e "cuidada". O homem quando percebe que a mulher está saindo da relação, ele volta a agir de forma "fofinha", promete mudanças, mas logo volta a ser o ogro de sempre. O processo de transformação do cenário é mínima, as políticas públicas para mulheres no campo da violência são poucas e falhas, mesmo com a lei Maria da Penha. Ainda temos muito que avançar e não vejo uma mudança rápida.

3- Muitas de nós já se tornaram confidentes de uma mulher que sofre algum tipo de abuso, seja do marido ou de algum homem. Como ajudar?

Ouvir, precisamos saber ouvir, respeitar cada momento do processo, que é lento. Essa mulher vítima de agressão precisa saber que pode ter alguém para contar, que terá sempre alguém apoiando independente da decisão que tomar. Isto é importante. Não se pode nunca interferir de forma veemente, o momento pede colo, atenção e cuidados. É preciso dar um passo de cada vez, mesmo que lento, para mostrar aos poucos que ela tem o poder sobre sua vida, que ela pode ser livre, amada de verdade e acima de tudo respeitada.

4- Me explique sobre o seu ponto de vista o que é o feminismo?

Feminismo para mim é a igualdade de direitos e deveres. Oportunidades iguais de trabalho entre homens e mulheres, respeito e liberdade. Na minha visão, eu busco a igualdade de direitos e deveres não limitando a igualdade de gênero, mas existe sim um lado do feminismo mais radical que luta pela colocação da mulher acima de tudo e todos. Eu não vejo o feminismo classista dessa forma, que é um movimento alinhado ao marxismo. Concordo com a agregação, luto pela quebra do patriarcado. Feminista tem o direito de ser quem ela quiser, como ela quiser e na hora que ela quiser. A ideia de feminista como uma mulher bruta e idealizada como a semelhança do homem é totalmente errônea. Feminista pode ser o que ela quiser, inclusive mulherzinha.

5-  Ainda é um peso não cumprir com a tarefa de amamentar? Como ajudar uma mãe com dificuldades na amamentação?

É preciso respeito acima de tudo, a mulher que opta por não amamentar porque ela não quer ou não consegue é um direito que ela tem, afinal o corpo é dela. Mas ela precisa saber da importância do ato de amamentar tanto para ela quanto para o bebê. Ela ser enganada sobre o assunto me consome! Já telefonei demais para pediatras, já fui em consultas com as mães e já questionei discursos mentirosos de médicos. São muitos os mitos e contradições que assustam essas mulheres que querem amamentar mas não amamentam por serem enganadas. A orientação é a base de tudo, quando você tem a informação correta, baseada em estudos científicos, ninguém te segura. 

6- Me fale francamente: como uma mulher pode se empoderar ao se olhar no espelho, se sentir sexy, a despeito do peso, estrias ou cicatrizes?

Eu não tenho o corpo de modelo, daquele que é o padrão das lojas, vendido nas revistas e na televisão. Mas pensa comigo, se eu não me achar gostosa, linda, maravilhosa e por que não sensacional, quem vai? O amor é algo que temos e a gente só dá o que tem. Eu preciso me amar, seja com minha barriga nada negativa, com minhas estrias, com minhas imperfeições que me tornam perfeitas. Sem isso, eu não vou conseguir amar ninguém. Se todas as mulheres parassem e se olhassem no espelho, nuas mesmo, começassem a se tocar, a se sentir, a descobrir cada parte do seu corpo como único e especial, a visão sobre si mudaria. Falar eu te amo para si e acreditar no que se fala. Nunca deixar que ninguém diga que você não é linda, não importa o que pensam. Se acharem que há algo pra mudar: mude para si, jamais para outro alguém. Se você tem amor para si, pode ser a gordinha, magrinha, deficiente, negra, ruiva, branquela, a com aparelho ou óculos, o que você vai transmitir é poder, é a capacidade de atrair só aquilo que realmente agrega. 

7- Para as mulheres que estão solteiras, vale o “antes só do que mal acompanhada”. E estando só, como ser feliz sozinha? Os homens ainda têm medo de mulheres independentes?

Se eu não gostar da minha companhia, se eu não gostar de estar comigo, como outro alguém vai gostar? Eu tenho que me bastar. Não acredito em metade da laranja, acredito em reciprocidade, ninguém é metade de ninguém. Temos que ser sempre completas! Gosto muito do trecho do Bernardo do Espinhaço - compositor e músico mineiro - que fala assim: "As mulheres donas de si, a uns dão medo, a outros vontades”. Sempre tem os que sentem vontade, o que sente medo não é o cara certo para estar comigo. Partindo da premissa que sou inteira: ou soma ou some.

A gente dá mais valor à vida depois de uma UTI Neonatal

A gente dá mais valor à vida depois de uma UTI Neonatal

Não sou monge mas passei 10 dias meditando 10 horas por dia

Não sou monge mas passei 10 dias meditando 10 horas por dia