A gente dá mais valor à vida depois de uma UTI Neonatal

A gente dá mais valor à vida depois de uma UTI Neonatal

Eu e Alice (Arquivo Pessoal)

Eu e Alice (Arquivo Pessoal)

A ansiedade faz parte da minha essência. Sou daquelas impacientes com gente que fala devagar. Sou do tipo que recebe multas de trânsito por ultrapassar a velocidade permitida (sim, isso é horrível). E que muitas vezes age por impulso e depois vê que se tivesse refletido um pouco, seria mais feliz.

Num dos lugares em que trabalhei, uma colega me colocou o apelido de "prematura" e todos achavam graça (inclusive eu).

Mas um dia a prematura aqui teve uma filha que nasceu antes da hora prevista. Um bebezinho de 32 semanas, com pouco mais de um quilo, absolutamente vulnerável, tanto quanto eu e meu marido naquele momento. Alice teve algumas complicações relacionadas à prematuridade e passou por 3 cirurgias enquanto ficou internada por exatos 2 meses.

Nesse tempo de verdadeira gestação dentro do hospital, tive que trancar a minha impaciência num baú e perder a chave. Respirar fundo a cada manhã para simplesmente esperar. Não faço idéia de como os outros fazem para suportar, mas a minha fé em Deus foi fundamental para ficar de pé. Há algo de sobrenatural naquele lugar capaz de revestir as mães de uma coragem inexplicável. 

Foram os dois meses mais intensos da minha vida. Vi mães perdendo bebês que eram vizinhos da minha filha na Unidade de Terapia Intensiva. Vi outros bebês simplesmente parando de respirar e sendo reanimados pelas enfermeiras. Vi minha filha lutando como uma leoazinha para ficar viva.

Logo na primeira semana em que ela nasceu, eu perguntei para o médico da Unidade Neonatal quando minha filha teria alta. Ele deu um sorriso, num misto de camaradagem e experiência, e disse:  "Esta pergunta jamais pode ser feita por pais de bebês prematuros. Simplesmente porque não existe uma resposta certa e imediata". Foi como uma facada para alguém que gosta tanto de agilidade.

Foi dolorido ir pra casa sem ela. Aguardar... e aguardar. Minha rotina era ir três vezes ao dia no hospital. Eu batia ponto por lá pela manhã, tarde e noite. A cada visita eu cantarolava baixinho no ouvido dela: "Alice... Mamãe te ama!". Era o que eu podia fazer por ela. Não adiantava eu espernear.

Me tornei uma espécie de "relações públicas" da Unidade. Orientava os pais que chegavam, escrevia textos de encorajamento e até fiz um abaixo-assinado para que o hospital tivesse um espaço reservado para os pais aguardarem sentados o horário de visita. Pleito que foi atendido.

Tudo isso eu fazia mais por mim do que pelos outros. Na verdade, precisava me sentir útil e ocupada, já que o tempo demorava a passar. Precisava destilar a minha ansiedade em algum lugar.

Cada mínimo progresso da minha filha era comemorado, cada grama que ela ganhava dia a dia representava um passo à frente a fim de receber o sinal verde. Cada mililitro de leite materno, que eu tirava sozinha pela bomba nas minhas madrugadas e ela recebia de conta gotas na incubadora, era uma alegria infinita. 

Para testar ainda mais um pouquinho a minha resistência e paciência, no dia marcado para Alice ir para a casa, ela simplesmente não foi. No último exame de rotina, o pediatra descobriu nela uma hérnia na virilha. Foi preciso operá-la e aguardamos mais três dias até a saída definitiva.

Chegar em casa com Alice nos braços foi um conto de fadas. Quase como se estivéssemos saído do hospital voando no tapete do Aladin. Tão mágica e surreal a sensação de liberdade. Nunca mais hora certa para vê-la. Nunca mais ter que me despedir quando acaba o horário. Daquelas coisas que se tornam absolutamente fantásticas só porque você queria muito e parecia impossível de acontecer.

Eu não aprendi a deixar de ser impaciente. Apenas resisti bravamente. Não pensem que eu me  tornei um exemplo de equilíbrio e calma. Eu continuo não contando até dez, mas ainda assim alguma coisa mudou em mim. Pelo menos, cada vez que divido esta história com alguém, me lembro que - por amor - eu corajosamente aguardei. Pelos filhos a gente faz mesmo o impossível, não é mesmo?

Fabiana Santos é jornalista, mora em Washington-DC. É mãe de Felipe, de 12 anos, e do "milagrinho" Alice, prestes a fazer 6 anos. A bebê que nasceu com pouco mais de um quilo é hoje uma menina espertíssima: bilíngue, nadadora, karateca, cheia de amigos e ávida leitora.   

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