Morar fora é fácil, difícil é virar mãe longe do Brasil

Morar fora é fácil, difícil é virar mãe longe do Brasil

Outro dia li no Facebook o desabafo de uma mãe que mora fora do Brasil, dizendo que ela sempre esteve super feliz com sua vida no exterior até o primeiro filho nascer. Que agora, depois de ter virado mãe, ela só pensa em voltar para o Brasil.

Isso aconteceu comigo também, e pela quantidade de comentários em resposta ao desabafo dela, aconteceu comigo, com ela, e com a torcida do Corinthians inteira. Afinal, convenhamos, se virar mãe é um desafio para qualquer uma, coloca então nessa conta, virar mãe longe da sua família, em outra língua e longe de todas as sua referências culturais. 

Quando minha primogênita nasceu aqui na Alemanha, por motivos de saúde e de trabalho, ninguém da minha família estava aqui. Ela nasceu, eu liguei para os meus pais, para os meus irmãos, choramos emocionados no telefone, e depois de uns dias eu voltei para casa com um bebê recém-nascido no colo e sozinha eu fiquei. 

Claro que meu marido estava lá, mas ele tinha que trabalhar. Minha sogra também veio me ajudar muitas vezes, mas ela mora em outra cidade. E sinceramente, por mais gente boa que minha sogra seja (e ela é!), naquele momento eu queria mesmo era a minha mãe perto de mim. Eu queria dar minhas primeiras cabeçadas no mundo da maternidade no aconchego da minha amada família. 

Por sorte, eu não tive nenhum tipo de depressão pós parto, pelo contrário, eu tive uma espécie de “felicidade-enlouquecida” pós parto. Mas mesmo tão feliz, logo me dei conta que a minha experiência de mãe de primeira viagem ia ser um pouco mais hard core do que se eu ainda estivesse morando no Brasil. Eu ia ter muito pouco ajuda e de quebra ainda ia ter que aprender a rodar o “software materno” em outra cultura. Nada fácil para uma recém chegada. 

Mas se o que não tem remédio, remediado está, não me restava outra a não ser me adaptar.  Fiz amigas com filhos pequenos, tentei me enturmar nos grupinhos de mães alemãs (tenho histórias bizarras desta época), aceitei que minha casa nunca ia ser tão arrumada como a da minha irmã, e que nem por decreto um dia as roupas de bebê iriam aparecer dobradas e passadas dentro do armário. Me conformei que sair sem filhos significaria sempre uma fortuna em baby sitter.  E, claro, fiz tudo o que eu pude, de skype a DVD da Galinha Pintadinha, para que minha filha e meu filho, que nasceu dois anos depois, soubessem: vocês nasceram aqui, mas existe uma família, existe um pedaço enorme de vocês lá. 

Não vou falar que foi fácil, houve momentos de muita solidão mesmo. Momentos em que precisei muito de ajuda e não tive, e momentos de alegria que não puderam ser compartilhados. Acho que não poder dividir as coisas, era até pior do que não ter ajuda. Às vezes, eu só queria coisas simples, por exemplo, que meu pai e minha mãe pudessem ver como era fofo a Maria provando as primeiras papinhas e cuspindo tudo fora. 

Mas aos poucos, as coisas foram se ajustando. Ainda dói quando recebo as fotos das minha sobrinhas num passeio de Domingo com o vovô em São Paulo. Ou quando minha irmã escreve que esse final de semana eles vão para o Rio, curtir uma praia enquanto meu irmão ajuda com as meninas. Acho que isso vai doer para sempre. Mas aquela solidão horrorosa se apaziguou. 

Eu amadureci, minha vida entrou nos eixos, as crianças cresceram, e muito importante: eu estou menos cansada. O começo é difícil para todo mundo, na Alemanha, no Brasil ou no Japão. 

Mas, hoje quando eu vejo esses dois alemãezinhos enormes, cheios de saúde, falando português fluentemente aqui em casa, eu me dou conta de que ter virado mãe na Alemanha, um país que na época era totalmente estranho para mim, foi uma das coisas mas difíceis e corajosas que eu já fiz na vida. Sinto orgulho de mim. 

Hoje não há mais revolta, não há mais a sensação de estar no lugar errado. Há saudade, sim, muita saudade. Mas estou em paz com a minha realidade. Eu sou e provavelmente sempre serei uma mãe brasileira fora do Brasil. E como já dizia Caetano: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. 

Camila Furtado mora na Alemanha, e é mãe da Maria, de 8 e do Gael de 6 anos. Ela precisa parar de escrever esse texto agora e ir para cozinha pois prometeu para as crianças que ia ter feijão com arroz e farofa na hora do almoço. Ps- Ela sabe que apelou com a Galinha Pintadinha.

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