Sendo uma mãe estrategista: quando se render e quando não ceder

Sendo uma mãe estrategista: quando se render e quando não ceder

Por estes dias eu estava pensando como nós, mães, somos em relação a negociar as coisas com nossos filhos. Existem as que dizem sempre sim, porque preferem abrir mão e não se aborrecer - entregam os pontos e pronto. Tem as que negociam pra caramba de um jeito que a falação dura uma eternidade - é tanto diálogo que confunde a criança. Já as que parecem generais dizem "não" antes da criança terminar de falar, a negociação é zero (assim como a paciência). E existem as que tem jogo de cintura. São as que sabem ceder e também sabem dizer um bom não - na hora certa. 

Eu admiro demais as mães que não ficam vendidas nas mãos das crianças, justamente as que tem jogo de cintura. Porque antes de qualquer coisa eu acredito que a gente tem que conseguir demonstrar que quem dá as cartas somos nós. Porque criança é de uma inteligência incrível e o que elas mais sabem fazer é tentar nos dobrar. Eu me esforço para ter este “equilíbrio emocional materno”, sabendo exatamente quando ceder e quando ser firme na negativa. Mas óbvio que não é simples, nem automático.

Outro dia a Alice pediu para levar de almoço “sanduíche com geléia”, super comum entre as americaninhas. Por um segundo eu pensei “eu quero tanto que ela se alimente direito com comida de verdade”. Mas em seguida eu tive um insight: “Se eu não ceder agora, isso vai virar uma batalha todas as manhãs. Ela vai criar caso com a comida que eu faço pra ela levar e vai repetir a história do sanduíche até eu enlouquecer”. E foi então que eu fiz feliz o sanduíche, só deixando claro que isso não seria todos os dias. A minha posição em ceder foi super certeira para não fazer daquilo a coisa mais importante do planeta pra ela. E o que eu posso dizer é que ela nem pediu mais depois desse dia. É a tal tática: retroceder agora, para avançar depois.

Eu sei que dependendo da criança, muitas são um terror no supermercado, dando chiliques para a mãe comprar sempre alguma coisa. E eu acho que tudo depende de uma primeira postura. Eu jamais cedi a comprar besteira no mercado. Desde sempre nunca rolou. Se você pensar assim desde a primeira vez que você entrar no mercado com uma criança, ela vai ser condicionada pelo seu comportamento. O pedido-chilique pode até rolar algumas vezes, mas uma hora a criança percebe que não funciona. Claro que eu não estou dizendo que você nunca pode dar o que criança tanto gosta de vez em quando. Não é isso de jeito nenhum. Eu só acho que um agrado não pode estar vinculado a todas as vezes que a gente entra no mercado com a criança pedindo. Porque aí não se trata de agrado, mas de se render à chantagem.

Tem ainda aquela clássica história no parquinho. Você avisa que vocês vão embora em dez minutos. Chega a hora de ir e seu filho começa a reclamar, chorar, espernear, que quer ficar mais. “Só mais um pouquinho?” Parece uma grande besteira não deixar este “só mais um pouquinho”. Mas veja bem: cadê a sua palavra? Cadê aquele aviso que você já tinha dado? Eu sinceramente acho que tem horas que quebrar combinado porque “não tem nada demais” traz um estrago tremendo em combinados futuros. Acabou o tempo, acabou. A gente precisa manter a palavra. Vai chiar? Vai. Mas vai compreender que “mamãe tem palavra”. Assim como ela terá palavra para qualquer outra coisa que combinar comigo. Porque se há uma coisa que criança tem boa é memória. E se você quer ter sempre sucesso nas suas negociações, cumpra o que você diz. Sendo "ruim ou bom" pra criança. Ou seja: indo embora do parque depois dos 10 minutos estipulados ou trazendo da rua o chocolate que você prometeu sei lá porquê.

Eu tenho uma amiga que faz uma ginástica de mães onde os filhos ficam nos carrinhos durante os exercícios. Ela estava tendo o maior trabalho de convencer a filha de 3 anos a ficar no carrinho. Ela estava agindo como aquela mãe do tipo super hiper negociadora. É claro que a filha estava adorando todo aquele tempo perdido da mãe só com ela. Eu sugeri que ela evitasse esse tempo de implorar pra ela se sentar tendo como plateia a turma da ginástica. Ainda no estacionamento, por que não tirá-la da cadeirinha do carro e já colocá-la direto no carrinho? Tipo: a regra por causa da ginástica é carrinho desde que sai do carro. Depois de algumas vezes com essa rotina, ela entendeu como são as regras do jogo estipuladas pela mãe (e não por ela!). 

Eu não sou ingênua de achar que a gente consegue ser o tempo todo esse supra-sumo da negociação, sabendo sempre como agir. Vamos combinar que é muita prova de fogo aguentar filho dando chilique na frentre dos outros enquanto você tenta ser firme. Quando nasce uma mãe, esta especialidade de estrategista não vem embutida em nós. É algo que a gente vai elaborando com a experiência. Eu não quero ensinar ninguém. Mas se este texto já servir pra você arranjar seus próprios truques de mostrar ao seu filho quem é que manda no pedaço - eu fico feliz por você!

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC, mãe de Felipe, de 12 anos, e de Alice, de 5 anos. Ela tem aprendido na marra que seja qual for a estratégia materna, se ela for acompanhada com gritos: já era. Gritou, perdeu. Mas isso já é tema para outra história...

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