"Nos contentamos com migalhas": o relato de uma mulher que se libertou de apanhar do marido

"Nos contentamos com migalhas": o relato de uma mulher que se libertou de apanhar do marido

Há algum tempo recebemos esta história anônima e fizemos questão de publicá-la. Ela fala do que acontece com várias e várias mulheres, mas esta aqui nos mostra que  conseguiu se livrar de um marido abusador e agressivo. Que sirva de inspiração para muitas:

Tive um namorado que nunca foi carinhoso, pelo contrário, chegou a me bater algumas vezes. Mesmo assim me deixei engravidar de um cara desses e por conta disso fui morar com ele. Foi uma gestação triste pois passei 9 meses chorando. Ele não me acompanhou em nenhum exame e não tinha interesse, nem em mim, nem no bebê que eu estava gerando. Depois que nossa filha nasceu tudo piorou, ele me deixava sozinha em casa e saia para noitadas. Eu apanhava pelo menos uma vez por semana. Eu não tinha vida social. Ele tinha total controle sobre mim e eu permiti isso. Até o meu carro ele me tirou. Mas o pior foi perder a minha dignidade. 

Como é que alguém que se considera inteligente se envolve com um tipo desses? Eu respondo. Somos mulheres com baixa auto-estima, com comportamentos obsessivos compulsivos por relacionamento. Sim, somos carentes e colocamos a nossa felicidade no colo do companheiro como se isso fosse responsabilidade dele.

Somos mulheres que tivemos problemas na infância. No meu caso foi a solidão. Tive uma família que sempre me deu tudo financeiramente mas nunca me enxergou. Tive pais ausentes que nunca me acompanharam em nada. Uma mãe que só me criticava e me punha pra baixo. No dia das mães na escola ela dizia: “Que encheção de saco ter que ir. Porque eles não mandam a lembrancinha na mochila?” Ela também dizia: “Não quero presentes, a minha parte prefiro em sossego”. 

Mulheres como eu se contentam com migalhas. Sempre achamos que o outro vai mudar e não enxergamos que a mudança tem que partir de nós mesmas, ou seja, cair fora de relacionamentos assim. Achamos nossa vida insignificante, por isso precisamos de dor e sofrimento para nos sentirmos vivas.

Estava obcecada e achava que o que eu sentia era amor de verdade, que o amor era assim, sofrer, chorar, querer o outro o dia inteiro, 24 horas por dia. Não entendia que estava doente. Se alguém me falasse que não era assim eu logo pensava "essa pessoa nunca amou de verdade”. 

Escapar disso demora e é um processo extremamente doloroso desprender do outro. Ouvia muitos conselhos e sabia que era o certo, mas eu não conseguia. Sentia vergonha em voltar para casa dos meus pais, desempregada e com uma criança no colo, por isso aguentei até meu limite.

A gota d’água foi uma surra, entre socos e chutes, enquanto eu segurava minha filha com então 10 meses no colo. Depois de 3 anos naquele suplício, precisei da ajuda da polícia e do meu irmão para sair de casa com a minha bebê. Voltei para a casa dos meus pais. Não sei ao certo como consegui me livrar dele, acho que foi por Deus mesmo, que me deu uma luz e me fez pensar “ou você vai embora agora ou você perde a sua vida”. Eu estava esgotada e no fundo do poço. Chorei muito por vários meses seguidos. 

Há pouco tempo comecei a fazer terapia e a frequentar o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas). Uma pena ter demorado tanto pra descobrir este grupo, mas nunca é tarde. Tem me ajudado muito. E a minha psicóloga sempre repete: “A culpa é algo que te prende ao passado, livre-se dela”.

Mas me preocupo com a minha filha, hoje com 4 anos. Sempre ouvi que tudo o que a mãe sente passa para o bebê na gravidez. Ela é extremamente apegada a mim, tem medo de ficar sozinha, de dormir sozinha. O pai não tem interesse por ela e não a vê faz muito tempo. Ela tem amiguinhos na escola, porém não interage com nenhum adulto e nem com crianças que ela não conhece.

Não quero ver a minha filha repetindo os meus erros do passado. Eu dou muito carinho a ela, converso bastante, estou atenta caso seja necessária uma intervenção com psicólogos. Eu quero ser pra ela uma mãe amiga. Aquela que eu não tive. Estamos juntas construindo uma nova história. Estar em paz comigo mesma - e Deus tem me ajudado nisso - é algo muito precioso. A cada dia que ganho mais confiança em mim mesma, me sinto mais forte para ensinar a minha filha a se amar e a entender que a felicidade depende de nós mesmos e não dos outros. 

 

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