Ensine seu filho que ninguém nasce sabendo

Ensine seu filho que ninguém nasce sabendo

Elogiar nossos filhos: “você é inteligente”, “você é muito criativa”,  “você sabe dançar super bem”.  Nós fazemos com a maior das boas intenções. Tudo que a gente quer é que eles virem adultos com a autoestima forte, que acreditem neles mesmos e se sintam capazes de fazer qualquer coisa que eles coloquem na cabeça. Mas infelizmente nossa abordagem pode ser um tiro pela culatra. 

Como assim? Não pode mais elogiar o filho? Temos que agora conter nosso orgulho quando o pequeno volta para casa cheio de notas boas? Sim, claro que pode, mas segundo a psicóloga e pesquisadora americana Carol Dweck, nós temos que estar atentos ao tipo de mensagem que estamos passando com esses elogios.  

Elogios que julguem o talento ou a inteligência das crianças devem ser evitados. Muito mais acertado é que as crianças sejam elogiadas pelo esforço e a dedicação que eles colocaram para atingir um determinado resultado. 

Para o tema ficar mais claro, vou contar uma história pessoal. Meu filho de 5 anos é ótimo de futebol. É um interesse que veio dele mesmo. Depois de ver ele quebrando metade do apartamento batendo bola sozinho, nós não vimos outra alternativa a não ser matriculá-lo em um clube e começar a levar a coisa a sério. Dito e feito. O Gael entrou em dos principais clubes da nossa cidade e não demorou muito para que todo mundo percebesse que a misturinha Brasil-Alemanha do meu pequeno era, de fato, bombástica. Um talento nato.

Mas ninguém estava preparado para o que ia acontecer nos próximos meses. Ele simplesmente não conseguia perder. Sim, porque depois de escutar de mim, do pai, do avô e do treinador o quanto ele era bom, ele simplesmente não conseguia entender como era possível perder e cometer erros se ele era tão extraordinário. Perder começou a provocar nele uma revolta enorme, seguida de uma desmotivação avassaladora. 

Meu pequeno está sofrendo do que a psicóloga americana definou como “fixed mindset”, ou seja uma mentalidade fixa, na qual os talentos das pessoas são o que são. Ou seja, você não pode se dar ao luxo de se tornar bom ou melhor, você já tem que ter nascido assim. E infelizmente a maneira como nós estávamos elogiando ele, contribuiu para essa visão equivocada dele mesmo. Eu sou bom, então eu ganho. Se eu não ganho - o que eu sou então? Um fracassado? Não é à toa que ele estava revoltado. 

No seu livro “Mindset - A Nova Psicologia Do Sucesso”, Dweck exemplifica seu ponto de vista, contando como atletas brilhantes, gente como Michael Jordan, por exemplo, iniciaram suas carreiras de forma medíocre e o que fez a diferença foi trabalho duro, determinação em aprender e também o fato de eles terem sido guiados por treinadores que acreditavam profundamente que habilidades podem ser desenvolvidas, seja lá qual for o ponto de partida.

Nem no futebol, nem na vida será possível não perder nunca. Erros e fracassos farão sempre parte do nosso caminho, e são uma oportunidade para aprender. A verdadeira autoestima não é construída baseando-se na crença de que você é um semi Deus. A autoestima sólida é muito mais humilde, é baseada na crença de que com o devido empenho, usando diferentes estratégias, buscando ajuda para aprender o que você não sabe, você pode sim, atingir seus objetivos.

Neste contexto, um elogio do tipo, “você aprendeu tão rápido, você é muito inteligente” é uma catástrofe porque passa a mensagem de que quando não for possível aprender rápido, é porque você é burro.

Em vez desse tipo de elogio que julga o talento e coloca um ponto final no que nossos filhos são ou não são,  nós devemos mostrar nosso interesse e admiração pelo processo, pelas estratégias escolhidas pelas crianças. “Eu acho legal como você está tentando aprender sobre esse tema”, “ Que cores bonitas tem o seu desenho, como foi que você escolheu elas?”, “Você resolveu esse exercício de matemática rápido demais, parabéns, mas será que não está na hora de você tentar alguma coisa mais desafiadora?”

Da próxima vez que você sentir um ímpeto de elogiar seu filho, pergunte-se se este elogio está ajudando a construir a mentalidade certa: a do crescimento.  Nós temos que libertar nossas crianças (e nós mesmos) dessa mentalidade fixa e pobre sobre o que somos capazes e começar a alimentar a verdade: o cérebro é um músculo, e quanto mais exercitado, mais afiado ele fica. E se é assim: mãos à obra! 

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria de 8 anos e do Gael de 5 anos. Ela leu o livro citado acima, adorou e recomenda a todos que estão empenhados em ajudar suas crianças (ou a si mesmos) a virarem adultos confiantes. 

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