Como criar filhos resilientes, mesmo depois de uma perda

Como criar filhos resilientes, mesmo depois de uma perda

Ilustração da artista Brooke Smart

Ilustração da artista Brooke Smart

Dois anos atrás, em um instante, tudo mudou para minha família e para mim. Enquanto meu marido, Dave, e eu estávamos de férias, ele morreu de repente de uma arritmia cardíaca.

Voar para casa para dizer a minha filha, de 7 anos, e para o meu filho, de 10, que seu pai tinha morrido foi a pior experiência da minha vida. Durante aquela viagem inimaginável, voltei-me para um conselho dado por uma amiga que aconselha crianças que sofrem. Ela disse que a coisa mais importante era dizer aos meus filhos, o máximo possível, o quanto eu os amava e que eles não estavam sozinhos.

No nevoeiro daquelas primeiras e brutais semanas, tentei usar a orientação que ela me deu. Meu maior medo era que a felicidade de meus filhos fosse destruída por nossa perda devastadora. Eu precisava saber o que fazer para mantê-los acima disso.

Como pais, professores e cuidadores, todos nós queremos criar crianças resilientes - que desenvolvam força para superar obstáculos grandes e pequenos. Resiliência traz uma melhor saúde, maior felicidade e mais sucesso. A boa notícia é que a resiliência não é um traço de personalidade estática. Nós não nascemos com uma quantidade fixa dela. Resiliência é um músculo que podemos ajudar as crianças a construir!

E cada criança enfrenta desafios. Alguns tropeços fazem parte do crescimento: não se dar bem num jogo, falhar num teste, perder a vaga num time, se decepcionar com um amigo. Outras dificuldades são muito piores. Crianças, por exemplo, que têm um pai na prisão, outras que sofrem de doença grave, negligência ou abuso.

A primeira ação para dar segurança e apoio em qualquer circunstância a uma criança é mostrar que nos importamos com ela. Os sociólogos definem "importar" como a crença de que as outras pessoas lhe observam, se preocupam com você e confiam em você. É a resposta a uma pergunta vital que todas as crianças perguntam sobre seu lugar no mundo começando como crianças pequenas, e continuando para e além da adolescência: eu faço a diferença para os outros?

Quando a resposta é não, as crianças se sentem rejeitadas e sozinhas. Elas se tornam mais propensas a serem auto-destrutiva ("Ferir-me não é um grande problema, já que eu não conto com ninguém de qualquer maneira.”) e terem comportamentos anti-sociais ("Eu faço algo errado, mas pelo menos eu tenho sua atenção.” ).

Adolescentes que sentem que eles são importantes são menos propensos a sofrer de depressão, baixa auto-estima e pensamentos suicidas. Eles são menos propensos a atacar suas famílias e se envolver em comportamentos rebeldes, ilegais e nocivos.

Como pais, às vezes nos sentimos impotentes porque é impossível resolver todos os problemas de nossos filhos. Ainda assim, podemos oferecer apoio na forma de "companheirismo" - caminhar ao lado deles e ouvir.

Certa tarde, sentei-me com meus filhos para escrevermos juntos as "regras de família" para nos lembrar dos mecanismos de enfrentamento de que precisaríamos.  Definimos tudo o que era OK de ser feito: estar triste e fazer uma pausa de qualquer atividade para chorar;. ser feliz e rir; estar com raiva e ciúmes de amigos e primos que ainda têm o pai vivo; dizer a qualquer um que não queremos falar sobre isso agora; saber a hora de pedir ajuda. O cartaz que fizemos ainda está pendurado em nossa sala para que possamos olhar para ele todos os dias. Isso nos lembra que nossos sentimentos são importantes e que não estamos sozinhos.

Meu marido e eu tínhamos uma tradição na mesa do jantar com os nossos filhos em que cada um compartilhava os melhores e piores momentos do nosso dia. Dar às crianças a atenção integral - algo que todos sabemos que é importante, mas muitas vezes não conseguimos - é outro dos passos fundamentais para a construção da resiliência. Meus filhos e eu continuamos esta tradição, e agora também compartilhamos algo que nos faz sentir gratos por nos lembrar de que mesmo depois da perda, ainda há muito o que apreciar na vida.

Eu também aprendi que falar sobre o passado pode construir resiliência. Quando as crianças crescem com uma forte compreensão da história de sua família - onde seus avós cresceram, como era a infância de seus pais - eles têm melhores habilidades de enfrentamento e um sentido mais forte de importar e pertencer. Estudos comprovam que expressar memórias dolorosas pode ser desconfortável no momento, mas melhora a saúde mental e até física ao longo do tempo.

Para manter viva a memória do meu marido, fiz um vídeo sobre ele com dezenas de depoimentos nossos, de seus familiares mais próximos, amigos e colegas. No ano passado, minha filha estava triste dizendo que estava esquecendo o papai pois não o via fazia muito tempo. Nós assistimos o vídeo, em que ela também aparecia, e isso lhe deu algum conforto.

Minha esperança é nos lembrarmos do meu marido como ele realmente era: amoroso, generoso, brilhante, engraçado e também muito desajeitado. Agora, quando estamos passando por algo tenso em casa, mas meu filho permanece calmo, eu lhe digo: "Você é como seu pai." Quando minha filha defende um colega que está sendo injustiçado, eu digo: “seu pai”. E quando um deles quebra um copo, eu digo, “ igual a ele”.

 

Este texto é uma tradução livre da publicação no New York Times: "How to build resilient kids, even after a loss", de Sheryl Sandberg. Ela é COO do Facebook e escreveu o livro Option B: Facing Adversity, Building Resilience, and Finding Joy,", em que conta como enfrentou a morte repentina do marido. Este texto é parte do conteúdo do livro. A versão em português ,"Opção B", está prevista para ser lançada em junho de 2017, no Brasil.

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