7 perguntas para a ex-empregada doméstica Joyce Fernandes: "Minha página é a pedra no sapato de muitas patroas".

7 perguntas para a ex-empregada doméstica Joyce Fernandes: "Minha página é a pedra no sapato de muitas patroas".

Foto: Juh Guedes   

Foto: Juh Guedes 

 

Eu deixei a posição de madame e fui limpar a minha própria privada quando sai do Brasil há seis anos e é claro que isso me trouxe uma outra forma de pensar sobre essa relação patroa/empregada doméstica. Por isso a página do Facebook Eu Empregada Doméstica me chamou tanto a atenção. Por trás dela está Joyce Fernandes: ex-empregada doméstica, hoje historiadora. Joyce reúne depoimentos dessas trabalhadoras que passam ou passaram por situações de opressão e humilhação em todo o Brasil. Sei bem que o nosso blog reúne muitas que estão do outro lado: o das patroas. E pensando que todas nós merecemos respeito e empatia, eu lhe convido a conhecer o que pensa essa moça bacana de cabelos coloridos e que anda “abalando as sinhás”.

1 - Em que momento da sua vida você trabalhou como empregada doméstica? O que você passou de constrangimento?

Nasci na zona Noroeste de Santos, uma menina de periferia e preta. Demorei muito pra entender que currículo com foto de boa aparência nunca é de pessoa preta. Aos 18 anos, entreguei mais de 80 currículos em vários bairros e não me chamavam nem para entrevista. Quando me chamavam e me olhavam, diziam que a vaga já estava ocupada. Por isso fui ser empregada doméstica, que a minha mãe e minha avó já tinham sido. Quando contei pra minha mãe minha decisão, ela chorou - prevendo o que eu passaria. Foram 7 anos. Hoje eu entendo as humilhações que passei, mas na época achava que eram ossos do ofício. Houve vezes em que eu não podia me alimentar, não podia usar o banheiro da casa. Já fui humilhada por comprar um leite barato que o patrão não gostou. Uma vez o arroz queimou sem querer e eu escapei do arroz quente que a patroa tentou jogar em cima de mim. No último emprego ouvi: “Por favor, traga marmita e um par de talheres… não é por nada, só para a gente manter a ordem da casa.”

2- Quando você teve o start de começar a página? Você tinha noção do sucesso?

Meu maior sonho era ser professora universitária de História e eu consegui entrar na faculdade em 2009. Logo arranjei um estágio na minha área e deixei de ser doméstica. A página não foi nada planejada. Eu tinha muitos seguidores nas redes sociais e já era professora de história quando, de férias, comecei a me lembrar de tudo que eu havia passado e tudo que eu conquistei. Aí resolvi contar minha história com a hashtag “eu empregada doméstica”. Em 24 horas o post viralizou e comecei a receber um monte de histórias semelhantes a minha. Vi então a necessidade de se falar sobre o assunto. 

3- Quantos relatos você recebe por semana? Você poderia contar uma história que lhe tocou?

Recebo mais de 10 emails por dia. A página tem menos de um ano e já recebi mais de 4 mil relatos. A história que mais me marcou foi de uma senhora de 73 anos, que ainda trabalha como doméstica. Ela contou que teve que subir oito andares de um prédio para chegar ao trabalho porque o elevador de serviço estava estragado e o porteiro disse que a mando dos patrões ela não poderia usar o elevador social. Uma humilhação sem tamanho por puro capricho de uma burguesia elitista.

4- É impressionante os comentários de patroas que se mostram irritadas com os relatos. Como é “abalar as sinhás"?

Eu criei um termo chamado “geração incômodo” - são pessoas que incomodam a sociedade pelo simples fato de existirem e terem um posicionamento diferente. O nosso intuito com a página é exatamente esse mesmo, gerar incômodo. Ninguém vai querer ficar andando com um pedrinha no sapato incomodando o pé. Uma hora a pessoa vai parar pra tirar essa pedra. E a minha página é assim: é a pedra no sapato de muitas patroas. Queremos falar sobre isso e trazer mudanças.

5- Enfrentamos a escravidão velada em pleno século 21 em muitas casas brasileiras? 

É inadmissível em 2017 mulheres ainda trabalhando em situações análogas à escravidão. Bobo de quem pensa que a escravidão terminou lá em 13 de maio de 1888 (por acaso, é o mesmo dia do meu aniversário). A gente ainda consegue ver resquício da escravidão. São muitas as empregadas com salário inferior. Temos relatos abusivos de pessoas que trabalham de segunda a sexta, de 8 às 18 horas e ganham 380 reais por mês. E tem outra questão importante que não podemos esquecer: quase 80% das trabalhadoras domésticas são negras. A gente consegue ver através desse dado a questão do racismo estrutural. O emprego doméstico não pode ser o único lugar para as mulheres negras trabalharem. 

6-  Que conselho você dá para as patroas terem um bom relacionamento com as empregadas? 

Primeiramente, se colocar no lugar da doméstica. Você gosta de ser tratada como você a trata? Você gostaria de ter horário pra entrar no seu serviço, trabalhar sem parar até tarde e não ganhar hora extra? É preciso rever seus conceitos. Tem que registrar a carteira de trabalho, por exemplo. Porque registro não é sinal de ser boazinha. É lei. Empregada doméstica é de fato uma profissão. E a gente não quer ser tratada como se fosse da família, a gente só quer cumprir com os nossos deveres, ter os nossos direitos, hora pra entrar e hora pra sair.

7- Onde foi parar a sua página? 

Tudo está acontecendo muito rápido. 24 horas depois do primeiro post, eu estava dando entrevista para a BBC de Londres, expondo a realidade das domésticas do Brasil para o mundo. Em seguida vieram tvs da Alemanha, do Japão, da Polônia. Aí a mídia brasileira quis me ouvir. Uma grande conquista foi ter me apresentado num TEDx em São Paulo. Eu pude falar o que eu penso e houve muita repercussão. De gente na rua que me pára e diz: “puxa você me fez enxergar coisas que eu nem percebia como opressão, já que eu sempre escutei da minha mãe que a gente não pode dar moleza pra empregada”. Agora estou empenhada em escrever um livro com relatos. Tem ainda um episódio numa website que estréia em agosto deste ano, sobre domésticas que entrevistamos. Um embrião para um documentário que quero fazer. 

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